Assembleia Municipal: nicolinas e pandemia animaram debate

Bragança falou “das dezenas e dezenas de medidas tomadas”, e Paula Damião “do que menos falta nos faz é de decisores políticos sem ideias claras e precisas”.


O parlamento local, reunido, com meia dúzia de deputados, está a perder a chama política que lhe subjaz. A importância de maior órgão da democracia local é-lhe retirada por discussões a partir de casa, sem eco nem palmas ou apartes, com falhas nas intervenções, provocadas pela rede da internet, nem sempre constante.

Se para os cidadãos, a imagem deste órgão já era do tipo de quase inexistente, agora em versão streaming mais não é do que um pequeno púlpito em que a discussão política não tem graça nenhuma, apesar da seriedade com que alguns deputados se esforçam por representar a comunidade num tele-parlamento, onde se lê mais do que se intervém, onde se pergunta mais do que questiona.

São poucos os deputados que agarram bem um qualquer tema e transformam o seu discurso em algo que valha a pena ouvir. Se já se pode antever o que sopra da bancada do PS – em que os oradores são escolhidos a dedo para dizerem bem do presidente da Câmara, em muitas ou poucas palavras, até da oposição, o grito latente, não passa de uma descrição de situações tidas como difíceis para o poder político e um apontar de dedo ao que é fruta da época. Neste caso, a Covid-19 e os seus efeitos, as suas consequências nas tradições e no modo de viver a vida.

Um dia depois do que seria o pós-Pinheiro – a sessão realizou-se a 30 de Novembro – as Nicolinas foram mesmo um facto não político mas com enorme reflexo nas redes sociais, por causa de um “ajuntamento” na praça da Oliveira, tido como espontâneo, sem organização que terminou numa interrompida marcha até ao local onde o símbolo das festas Nicolinas, haveria de ser plantado no chão para ser erguido, e ficar ali de forma altaneira, a lembrar que há festa na academia vimaranense.

Porém, imagens “proibidas” captadas por um repórter ocasional, de um jornal local, acabaram por marcar os noticiários do Domingo, véspera do dia em que se realizaria o desfile do Pinheiro se não houvesse restrição à concentração de pessoas. Não serviu de banquete para os deputados, dadas as ligações de quase todos à causa, mas Mariana Silva (CDU) não deixou de a introduzir no período de antes da ordem do dia. Defendeu e classificou a aglomeração de “nicolinos” – alguns com filhos às costas e nos ombros, na praça da Oliveira como “um comportamento espontâneo de jovens”, que teve um significado: evidenciar “o enraizamento popular das nossas tradições”.

E explicou que “ter jovens confinados em casa” pode originar “problemas sociais” que derivam, destas “situações de isolamento e de falta de condições nas habitações”. E as “limitações da liberdade” podem ser causa e efeito de uma vontade de participação em eventos que são marcantes na cidade.

“Foi uma situação casual, não foi bom para Guimarães mas aconteceu e não devia ter acontecido…”

Já o presidente da Câmara, disse que a reunião de Nicolinos que tanto espalhafato causou “foi uma situação casual, não foi bom para Guimarães mas aconteceu e não devia ter acontecido”. Querendo justificar tal reunião, Domingos Bragança, revelou que as Nicolinas “são uma marca identitária de Guimarães” e “ser nicolino é viver as festas com forte emoção”. Vincou ainda que “as festas nicolinas são únicas”, com um “simbolismo forte” e que iriam decorrer segundo um programa estabelecido com a autarquia e as associações ligadas ao movimento nicolino. Ou seja, depois deste ajuntamento, o Pinheiro haveria de ser levantado na madrugada seguinte e servido como um amortecedor da fúria estudantil de não ter presenciado a sua colocação no local devido.

Também a pandemia haveria de andar na boca dos deputados e do presidente da autarquia:

  • “São dezenas e dezenas de medidas que tomamos” – referiu o presidente da Câmara perante os deputados municipais e em resposta às críticas que fizeram no debate. O balanço da actuação do Município no combate à pandemia contemplou uma leitura exaustiva do que tem sido feito: a constituição de equipas multidisciplinares que, desde 24 de Novembro, andam pelo concelho, a fiscalizar ajuntamentos nos cafés e a distribuir centenas de milhar de máscaras e a fazer inquéritos epidemiológicos, rastreando casos positivos de infecções por Covid-19 e acompanhando casos complicados (1744 já feitos); a inclusão no programa da ARS Norte “Salvar Portugal” pela disponibilização de técnicos superiores. Informou que vão começar a funcionar, em Brito (e em mais nove freguesias), as tele-consultas, tal como a medicina digital, enquanto que foram disponibilizadas mais camas para o Hospital Senhora da Oliveira poder albergar doentes em recuperação no Seminário Verbo Divino. Disse, também, que o número de infectados já está numa curva descendente, pois, “temos menos 15% de casos registados”.
  • A oposição não ficou calada e Emídio Guerreiro (PSD) manifestou a sua estranheza por “no país, o governo ouvir os partidos e em Guimarães a Câmara fazer o contrário”, não envolvendo todos neste combate à pandemia. Uma acusação  que o seu partido faz apesar de se predispôr “a criar soluções de conjunto”, acusando o presidente da Câmara de não patrocinar um maior envolvimento de todos os partidos, pois, “se a percepção que se passa para os cidadãos for a de que os políticos estão unidos”, os cidadãos respeitarão mais as normas e regras definidas para evitar o aumento de contágios.
  • Rui Correia (CDS/PP) insistiu mais em abordar a pandemia, num prisma nacional, responsabilizando o governo por falta de critérios na realização de eventos e na falta de medidas para apoiar sectores da restauração e hotelaria pelas dificuldades que estão a passar.
  • Mais acutilante foi Paula Damião que descobriu na “política  camarária, em quase todas as áreas, uma preocupante actuação de ziguezague. Não se sabe quando vai por aqui, nem quando muda para ir por ali” – salientou. E sublinhou que num “momento pandémico, tão preocupante que o que menos falta nos faz é de decisores políticos que não tenham ideias claras e precisas e demonstrem fraqueza e falta de estrutura e consistência”. E deu exemplos como o volte face com o espectáculo do Multiusos que suspendeu a actividade cultural, o não apoio aos clubes desportivos em tempo oportuno, dos testes que não se justificavam em Setembro e já eram fundamentais em Novembro, num “zigue à Segunda e num zague à Terça-feira”. Paula Damião reconheceu como “gravíssimo, patético e nauseante” o ziguezague na actuação do PS a que juntou o comportamento de um ex-deputado socialista na Assembleia que “quis ter um dia de glória nacional” espalhando imagens pelas tv’s que denegriram a imagem de Guimarães.

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