Betina Ruiz
Investigadora, já desenvolveu projetos sobre a Literatura Portuguesa dos séculos XVII e XVIII, a Mexicana do séc. XVII e a Brasileira do séc. XX, professora com mais de 15 anos de experiência, biblioterapeuta dedicada a programas que procuram abranger principalmente leitores idosos e aqueles em alguma situação de vulnerabilidade, autora de textos académicos e ficcionais, pensados e criados ou em parceria com amigos e colegas ou como trabalho individual.

Veni, vidi, vici

Na origem dos escritores está uma família, sobre a qual eles volta e meia escrevem, discreta ou deliberadamente; Nathaniel Hawthorne registou num texto mais ou menos curto, que recebeu o título de Vinte Dias com Julian & Coelhinho, por papai, as experiências e as impressões de uma fase de maior proximidade com o filho de cinco anos.

Na vida dos escritores há um entorno. Arthur Conan Doyle, cuja biografia ficcionada foi apresentada numa série da BBC exibida pela RTP2 (A origem obscura de Sherlock Holmes), ligou-se à Medicina e em particular à capacidade de observação de um professor com o qual ele aprendeu sobre diagnóstico.

A sinopse à nossa disposição no site da emissora destaca o comentário dele acerca dessa figura: É a si que devo Sherlock Holmes.

Os escritores podem ser trabalhadores incansáveis, a troca de cartas de Machado de Assis diz-nos isso acerca dele, algo que eu só descobri quando tive a curiosidade, o prazer e o cuidado de ler cada uma das cartas do acervo dele, para escrever um artigo em defesa do papel que ele teve na organização da cultura livresca no Brasil.

É mais do que famoso o interesse de Virginia Woolf, escritora, sobre as condições que regem a sobrevivência da intelectual. No ano de 1929, em A room of one’s own, traduzido em Portugal como Um Quarto Só Meu e no Brasil como Um Teto Todo Seu, ela foi objetiva: “Uma mulher tem de dispor de dinheiro e de um quarto que seja seu, para que possa escrever ficção”.

Na vida de todos os que alimentam um discurso e encontram a palavra de um outro, está um corpo que ajuda a escrever, pois “O equipamento de que precisamos para estar na biosfera é exatamente o nosso corpo”, diz-nos Ailton Krenak, no livro A vida não é útil. Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, é um álbum, é uma caderneta sofisticada, feita para acolher cada bocado de corpo e de movimento que virou texto. Cada olhar, cada abraço, cada conversa é um passo para a matéria a ler. Andemos nesse livro.

Ler o resultado transcrito (em arranjo poético, artístico ou em rasgo mais objetivo, não importa) das experiências vividas por pessoas que se deixaram comover é daquelas ocupações a que todos nós devemos nos entregar.

É, para mim, um resumo do testemunho de uma contemplação sensível e de uma entrega.

Quem escreve e quem acaba por ser publicado e lido talvez represente de uma maneira particular o antigo veni, vidi, vici. Vim, vi e venci é, para mim, um resumo do testemunho de uma contemplação sensível e de uma entrega (Vitória pessoal? Vitória coletiva?).

É essa marca que deixa em mim o comentário, ouvido aqui e ali, de que toda a gente escreve hoje. Não me parece um retrato fiel da realidade e, mesmo que o fosse, onde está a proibição?

Onde, afinal, podemos sentir, comunicar o sentido e desfrutar? Em qual grupo nos permitem essa manobra? A quem pediremos permissão para ser? Da minha parte, digo: quem dera houvesse mais gente a ler o que toda a gente está a escrever!

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