Ricardo Costa
Vereador da Câmara Municipal de Guimarães, responsável pelo Departamento Financeiro, Financiamentos, Sistemas de Informação e ainda coordenação do Desenvolvimento Económico. Licenciado em Filosofia e Desenvolvimento de Empresas, é especialista em Finanças e Fiscalidade e tem uma MBA em Direcção Geral de Empresas.

Guimarães e Vitória são exemplos de integração social

O episódio que envolveu Marega e os adeptos do Vitória não pode ser julgado sumariamente, em desfavor de Guimarães e do VSC, dos vimaranenses e dos vitorianos.
Tão só porque na sua essência estão reacções humanas, mais propícias a serem vistas em recintos desportivos, em modalidades mais competitivas – como o futebol – do que no nosso quotidiano. E que não são apanágio de nenhum clube ou cidade.

Aconteceu e daí devemos todos apressar uma reflexão séria, a começar pelos adeptos do VSC, dos seus dirigentes, das instâncias desportivas e da sociedade em geral. E não iniciar uma caça ao racista que ninguém sabe onde mora e o que faz. Os adeptos do VSC que tão exemplares têm sido em comportamento no D. Afonso Henriques e noutros estádios do país e da Europa, devem a partir deste incidente repensar se vale a pena, com actos irreflectidos, pôr em causa o clube e a cidade a que pertencem. E se não é melhor continuar a seguir as boas práticas que têm demonstrado na sua defesa do fervor clubístico.

Certamente que devemos condenar todos os excessos no futebol e no desporto. Mas devemos ser justos nessa condenação. Não devemos, porém, discriminar alguém que é parte desses excessos, fazendo crer que uns são heróis e outros vilões.
Não interessa condenar casuisticamente, importa, de forma sistemática, combatê-los – os excessos – por igual. Sobretudo combater as origens ou causas que levam pessoas a saírem fora da sua caixa.

Não devemos esquecer que estamos a falar de reacções humanas, tomadas em lapsos de tempo tão curto, em palcos inundados de emoção e fervor clubístico, por vezes também manifestado em excesso, em todo o lado.
Pode não se desculpar uma parte (do conflito) como reagiu, ou a que a impulsionou a manifestar-se de forma irreflectida, como repulsa a outros excessos comportamentais; mas não podemos julgar uma reacção humana de protesto, como uma manifestação de racismo – por não racistas. Isto é uma hipocrisia que não aceito. A repulsa e o protesto são comuns às duas partes ainda que tenham motivações diferentes.

O combate ao racismo não pode ser, nem um impulso, nem uma moda, uma bandeira partidária, nem esconder outras verdades do universo desportivo.
Se esta atitude impensada, espontânea, livre, emotiva, dos adeptos teve origem num gesto impróprio e inadequado do jogador que, também, ele reagiu após a euforia do golo que marcou, exibindo-se perante os adeptos do Vitória – cuja susceptibilidade ficou ferida e exacerbada – não podemos a partir destas situações marcadas e dominadas pela emoção, extrapolar e ferir o nome da cidade e do clube, deixando repercutir este acto – que não é virgem, nem único – para fora do país, como se algo de satânico fosse.

Guimarães e o Vitória são exemplos maiores no país de integração social e profissional de cidadãos de cor. A lista de cidadãos de outras nacionalidades no nosso quotidiano é longa e abrange até jovens, alguns nascidos aqui.
Este capital de inclusão cidadã – que não discrimina ninguém pela sua altura, peso, cor da pele e da roupa, corte de cabelo ou seja o que for, não pode ser posto em causa por virgens ofendidas deste país que comentam a partir de uma secretária, a realidade do país, sem ter contacto directo com a vida real.

Guimarães não é um território de excepção mas também não pode ser o lugar onde tudo acontece de mau, no desporto ou no futebol.
Casos mais graves já aconteceram e nunca ninguém quis iniciar uma cruzada a partir desses exemplos porque nós em Guimarães lutamos pela dignidade de todos os cidadãos. E Marega pode ser até um bom exemplo de integração profissional quando esteve à beira de ser descartado do plantel do clube que representa.

“Aqui, na cidade berço da Nação, não se combate o racismo porque ele não mora aqui. Somos uma cidade cosmopolita e tolerante à nossa escala…”

Aqui, na cidade berço da Nação, não se combate o racismo porque ele não mora aqui. Somos uma cidade cosmopolita e tolerante à nossa escala.
Como vimaranense e como vitoriano, exprimo aqui a minha opinião pessoal – sem medo de caças às bruxas – desligo-me da hipocrisia que tem levado à discussão deste tema nos órgãos de comunicação social nacionais.

Não alinho nos que a pedido ou a todo custo querem uma punição exemplar para com um clube, cuja história de recrutamento de jogadores, de outras raças, é constante e sistemática. Não há nenhum jogador que se tenha queixado de maus tratos no clube e na cidade.
Aqui não precisamos de combater o racismo porque ele não existe, apesar deste episódio negativo que se registou no jogo com o FCP.

© 2020 Guimarães, agora!

2 COMENTÁRIOS

  1. Exmo. Senhor Vereador Ricardo Costa:
    Nasci na Rua de Santa Maria no segundo andar do N° 38 ás 6 horas e 30 da manhã do dia 31/12/1945 com nome de Aurélio Ventura de Oliveira Liama.
    Vivo em França há já 50 Anos depois de ter cumprido o serviço Militar obrigatório na qualidade de Primeiro Cabo Enfermeiro.
    Amo, como não podia deixar de ser Guimarães,os Vimaranenses que são minha familia,gosto de Portugal sinto-me Afonsino,mais que qualquer outro REI.
    Li com muita atenção o vosso excelente texto:Como em todos os clubes utilizam jogadores de vários Países e que se integram bem no nosso País e os Portugueses sabem aceita-los. Para não retomar as suas palavras para eu puder dar-lhe respostas a certos paragrafos,vou direto ao assunto. Não acredito que os Vimaranenses sejam racistas,o que se passou foi um acto de cânticos que ofenderam um jogador Mussa Marega. Como deve saber (porque penso ler jornais e vêr televisão) exitem grandes probelemas no nosso futebol que dura há já Anos e que ninguém fala e ninguém faz nada. Deixa-me muita pena, pode crer senhor Vereador Ricado Costa,mas muita pena que o acontecimento tivésse acontecido na Cidade aonde eu Nasci “preferia até que isto nunca tivésse que acontecer se não hovésse tantos probelemas no futebol em Portugal” como assim,Mussa Marega tirou a GUPILHA da GRANADA que explodiu pelo Planeta e aingiu todas as instâncias ,quer desportivas,quer Policiais,quer judiciais e mesmao a nossa República qua antes, todos estavam calados e hoje vieram todos a palco público fazeram promessas da trazerem melhorias em todos os sectores do Futebol. Só para lembrar: BERNADO SILVA (internacional Portugues) brincou e a brincadeira dele tornada racista custou-lhe 400 mil euros de multa. Têmos em Portugal uma democracia jovem ainda para amadurarecer,aonde a librdade de expressão ainda é pouco conhencida geralmente e praticada. Como deve saber melhor que eu,a liberdade tem os seus limites e expressão ela também tem o seu preço..Para terminar desejo que nada acontêça ao Clube do Vitória judiciamente, porque o clube não tem culpa do comportamento de alguns adeptpos que manifestaram um excesso saído das suas caixas….A bem de Guimarães a bem de melhor Futebol… Aurélio Lima.

  2. “mas não podemos julgar uma reacção humana de protesto (…) ” Querem maior prova de racismo do que esta frase idiota?
    Reacção humana de protesto? Protesto de quê do golo que Marega marcou?

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

2,728FansCurti
0SeguidoresSeguir
70SeguidoresSeguir
0InscritosSe inscrever

Edição impressa

Leia também

Novo livro: Ferreira de Castro e(m) Guimarães

No âmbito do Dia Mundial do Livro, Álvaro Nunes e...

Síncope: artista Carlos A. Correia estreia hoje no espaço Oub’lá

O espectáculo está dividido em três partes. Músic...

Moreirense: início fatal afasta o 6º lugar

Nos primeiros 11’ da partida, o Moreirense sofreu...

Vitória: o resultado é bem melhor que a exibição

Com um golo de Rochinha (16’), o Vitória importou...

Vitória: inverter o ciclo com o Santa Clara

O jogo com o Santa Clara é crucial no resto do ca...