Cada arquitecto sente a sua arquitectura

Maria João Carneiro fundou a Lacre para trabalhar por Guimarães e no Porto

De Guimarães para o Porto é a viagem de Maria João Carneiro, arquitecta jovem que se identifica no seu papel profissional, pela paixão que dedica a cada um dos seus trabalhos. Na sua terra natal, concebeu o “Mezanino” mas não se quer ficar por aqui. Sente que tem asas para voar na arquitectura.

Guimarães, agora! – A arquitectura nasceu consigo, é uma paixão recente ou um modo de vida?
Maria João Carneiro –
Ora bem… poderia dizer que sim, pois não me lembro de mim antes de decidir que “quando fosse grande iria ser arquitecta”… Não sei explicar bem o porquê, mas muito cedo comecei a achar graça aquelas casas de soluções mais atípicas… não sabia bem o que me fascinava, mas despertava em mim uma curiosidade um pouco abstrata, que fui descodificando ao longo dos anos.

GA! – Há-de ter alguém que a inspira ou desperta para esta arte fascinante…
MJC –
Na verdade, eu acredito que o trabalho de arquitectos de renome sejam aquela informação que guardamos no nosso “disco rígido”, e não mais esquecemos, mas na verdade julgo que cada arquitecto sente a arquitectura! A sua arquitectura! Não sei se é certo dizê-lo… Ou seja, não há uma regra matemática… há um conjunto de sensações (obviamente associadas a uma disciplina que nos ensina a organizar espaços) que se sentem desde o momento em que levantamos o lápis, até ao final de obra… a inspiração surge da vontade de criar… de passar da 2ª à 4ª dimensão, o tempo.

GA! – Que sonhos acalenta enquanto profissional… projectar e conceber uma torre de 500 metros… um parque verde e urbano, um aglomerado habitacional…
MJC –
Enquanto empresa, o próximo passo será ter uma loja onde possamos criar espaços onde facilmente se interprete a nossa linguagem. Relativamente à criação de projectos, quando surgiu a Lacre, achei sempre que tinha muito bem delineado o que seria o nosso projecto de sonho… Hoje, após diversos trabalhos… não consigo ter uma resposta objectiva a esta questão. Certa estou que o que define a paixão a cada projecto tem mais a ver com o seu conceito do que com a escala.

GA! – Um arquitecto cria e concebe, planifica, joga com emoções, com cores… texturas, produtos…
MJC –
Certo. Costumo chamar-lhe, a psicologia da arquitectura. Muitas vezes as pessoas entram num espaço, e por algum motivo se sentem bem ali. Pela luz?! Pelas texturas?! Pela cor ou ausência dela… todos os sentidos são estimulados, e a vivência de cada espaço é isso mesmo. A apreensão de cada elemento. A arquitectura é muito mais do que um desenho e de quatro paredes ao alto.

GA! – E fá-lo de dia, de tarde ou à noite? É indiferente o local e a hora da criação?
MJC –
Pois, um arquitecto, como criativo que é, tem tendência a assimilar o meio que o envolve a toda a hora… no gabinete, no comboio, ao almoço ou num passeio matinal. Tudo pode ser inspiração, e não são poucas as vezes em que num contexto e numa altura completamente “alheia” ao horário ou local de trabalho, há a tendência de pedir um papel e uma caneta, para ali mesmo, resolver qualquer coisa através de um desenho de bolso. Sim, não há hora nem sítio para criar. É em qualquer lugar, a qualquer hora. A inspiração é assim mesmo, imprevisível.

GA! – Como idealiza na sua cabeça, a conjugação de linhas, cores, de superfícies, matérias, de penumbras ou espaços iluminados… É confusão a ferver ou afinal algo simples e linear?
MJC –
Depende. Há projectos e projectos, mas penso que tudo surge mais ou menos claro. Mas um projecto terminado hoje, seria sempre diferente se o fizesse daqui a um ano, uma semana até. Há sempre vontade de explorar mais cada ideia a cada decisão tomada.

GA! – Como vê o espaço à sua volta, com formas díspares e construções quase implantadas sem regras?
MJC –
A arquitectura sempre foi um pouco isso… espaços “com formas díspares”. E interpreto isso como o contar de uma história, onde cada forma teve o seu tempo. Preciso é respeitar a época e as características de cada edifício não adulterando a sua essência, deixando-os marcar uma tendência, coabitando com o que de novo se constrói. No que diz respeito ao planeamento urbano, quero acreditar que há cada vez mais sensibilidade para o assunto.

GA! – O que acha da moda … de projectar um edifício habitacional, de quatro paredes, grandes superfícies vidradas, na paisagem do Minho, lado a lado com superfícies agrícolas e casas tipicamente minhotas?
MJC –
Na verdade sou defensora desta “moda” dos envidraçados fundidos na paisagem. Penso que há poucas coisas que nos trazem a calma de estarmos dentro de casa, e ao mesmo tempo, projectados na natureza. Partindo do pressuposto que falamos de construções que quase se anulam visualmente na vegetação, entendo que a natureza é uma extensão da arquitectura. Entendo ainda que há uma permuta de sensações, pois se por um lado vivemos o espaço interior, por outro, sentimos que o que está fora (a água, a luz e o ar), está “cá” dentro.

GA! – É isto um atentado ambiental ou um mero jogo de formas?
MJC –
Um mero jogo de emoções.

GA! – O que gostaria de fazer, por exemplo, no centro histórico, com as regras que se conhecem?
MJC –
Na verdade, um hotel. Não que não estejamos já bem servidos, mas talvez seria o programa que mais me entusiasmaria. Talvez aqui a questão da escala me fascine.

GA! – Há projectos que guarda ou adia?
MJC –
O da minha casa! (risos).

GA! – Porque optou pelo Porto e não por Guimarães para trabalhar?
MJC –
Penso que apesar de o Porto não ter o encanto de Guimarães (julgo que até aqui estamos todos de acordo), a Lacre começou a ter muitos clientes nomeadamente na zona da Foz, Matosinhos, Leça da Palmeira, e houve de imediato a necessidade de nos fixarmos pelo Porto. Temos de momento gabinete na avenida Montevidéu, na Foz.

GA! – Quando passa por uma zona industrial, com prédios devolutos, o que lhe vem à cabeça para aí fazer e implantar?
MJC –
Eu sou apologista da revitalização. Acho muito interessante reabilitar, por exemplo, um armazém, e dar-lhe um fim completamente distinto daquele a que foi proposto aquando a sua construção de raiz. Sinto que saímos da nossa zona de conforto e que o resultado é sempre muito interessante do ponto de vista da diversidade na abordagem arquitectónica.

GA! – O cemitério industrial da região dá para pôr mãos à cabeça ou é uma oportunidade para reformar, recriar, redefinir…
MJC –
Há sempre vontade de reformar, recriar… só é preciso a oportunidade para o fazer.

GA! Qual é para si, o seu melhor projecto de arquitectura?
MJC –
Sou muito crítica com o meu trabalho. A Lacre desenvolve projectos de escalas muito díspares umas das outras. O nosso raio de ação começa no projecto de arquitectura e só termina com a decoração de cada edifício. Ou seja, será muito difícil eleger um…

GA! – Gostaria de ensinar arquitectura…
MJC –
Na verdade nunca pensei ver-me nesse papel. Contudo, quem sabe um dia.

GA! – A reabilitação urbana, fascina-a… O “Mezanino” foi criado a pensar em quê?
MJC –
Sim. A reabilitação é de facto uma das minhas paixões. Como falávamos há pouco, dar vida a espaços devolutos é de certa forma engrandecedor. O “Mezanino” foi outrora uma carpintaria, que acabou por remeter-me ao trabalho dos artesãos. Por sua vez, surge a ideia do mural em azulejo azul cobalto que serviu de mote a todo o resto. Foi muito mais fácil projectar no espaço aquilo que senti aquando a criação deste restaurante do que traduzí-lo agora por palavras. Contudo, o contraste entre um ambiente moderno no interior, com a história do edifício, era aquilo que se pretendia explorar, criando um espaço diferente do que existia no centro histórico, até há data.

© 2019 Guimarães, agora!

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