
Vivemos numa época em que o verbo “ter” substituiu quase por completo o verbo “ser”.
Já ninguém pergunta “quem és tu?” – isso soa antiquado, quase rural. A pergunta moderna, feita com um sorriso de inspeção, é:
– E o que é que fazes?
Não para saber se és feliz, mas para medir o teu quilate social: posição, prestígio, conta bancária. Uma espécie de raio-X económico, como se a alma pudesse ser pesada numa balança de talho, com direito a etiqueta, código de barras e IVA incluído.
Vivemos como colecionadores de adereços para o nosso próprio currículo existencial. Temos de parecer bem perante a sociedade, ter o carro certo na garagem, vestir a marca certa, almoçar nos lugares certos.
A felicidade já não é um estado – é uma estratégia de marketing pessoal.
E o pior? Compramos tudo isto com o tempo – o bem mais caro que temos – para depois guardarmos as “conquistas” numa prateleira onde acumulam pó… e indiferença.
O capitalismo aprendeu a falar a nossa língua melhor do que nós próprios.
É ele que sussurra:
– Compra, tu mereces…
E nós, obedientes, esticamos o cartão como quem estende a mão ao padre para receber a hóstia.
Estamos sempre à espera da próxima compra que vai resolver tudo: o telemóvel que vai finalmente organizar a nossa vida, o sofá que vai curar a solidão, o carro que vai abrir caminho para a felicidade.
Mas a vida não cabe numa caixa de cartão, mesmo que venha com papel de embrulho e laço dourado.
“Quando a Morte chegar, não vai querer saber se tens um Porsche ou um passe da Carris. Não vai ficar impressionada com a tua coleção de relógios suíços – até porque ela própria não anda com pressa.”
E enquanto nos perdemos nesta caça ao mimo supremo, esquecemo-nos de que a contagem decrescente não pára. Porque, quando a Morte chegar, não vai querer saber se tens um Porsche ou um passe da Carris. Não vai ficar impressionada com a tua coleção de relógios suíços – até porque ela própria não anda com pressa.
Vai levar-te despido de todos os teus “itens de luxo”, que ficarão para trás, prontos para serem discutidos na herança ou vendidos em segunda mão a alguém que também acha que, agora sim, a vida vai mudar.
O caixão não tem porta-luvas. A campa não tem closet. E por mais mármore que ponhas na lápide, no fim é sempre um buraco com vaidade estampada na folha de rosto.
O problema não é termos coisas – é deixarmos que as coisas nos tenham. É confundirmos conforto com sentido. É medirmos o amor em metros quadrados, a felicidade em megapixels e a autoestima pelo número de dígitos na conta bancária.
Esquecemo-nos de que, na hora da verdade, o que fica não são os objetos, mas as pessoas e os momentos. O abraço que demos. O riso que partilhámos…
A Morte, curiosamente, não é a vilã desta história. É a única que nos diz a verdade sem descontos nem letras pequeninas:
– O teu tempo está a acabar. O que vais fazer com o que sobra?
E tu, sempre ocupado, respondes-lhe:
– Dá-me só uns minutos… estou mesmo a terminar uma compra online.
Talvez devêssemos aprender a dizer “não preciso” com a mesma excitação com que dizemos “quanto custa?”.
Porque memórias não enferrujam, não precisam de seguro, não se perdem num incêndio e não desvalorizam com o tempo.
E, ao contrário de qualquer mimo comprado, são leves o suficiente para caber na bagagem quando tivermos de partir.
O que levamos connosco é uma mala pequena feita de gestos, gargalhadas e presenças.
E se, no fim, essa mala vier cheia, pouco importa quão vazio esteja o teu bolso – partirás milionário.
- Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!
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