Se vierem a Guimarães, façam-nos um favor: não parem nas lojas, não entrem nos cafés, não almocem nos restaurantes tradicionais e, acima de tudo, não percam tempo a conhecer a cidade para lá do percurso obrigatório entre o Castelo, o Paço dos Duques e uma fotografia no Largo da Oliveira.
O importante é cumprir o cronómetro.
Desçam do autocarro, sigam a bandeirinha do guia a passo acelerado, oiçam meia dúzia de curiosidades sobre o berço da nação, tirem 47 fotografias em 32 minutos e voltem rapidamente ao autocarro antes que a excursão se atrase para o próximo destino. Braga, Porto ou o Douro Vinhateiro. Pouco importa. O modelo é exatamente o mesmo.
Guimarães tornou-se numa cidade de turismo rápido. Turismo de consumo visual. Turismo de catálogo. Um turismo que enche as ruas, mas não as caixas registadoras. Que cria movimento, mas pouco impacto económico. Que dá a ilusão de sucesso enquanto deixa boa parte do comércio tradicional a olhar para montras cheias e lojas vazias.
E depois admiramo-nos quando os comerciantes dizem que há muita gente na rua, mas que se vende pouco.
O problema é bem português: confundimos quantidade com qualidade.
Durante anos, habituámo-nos a medir o sucesso turístico pelo número de visitantes. Quanto mais turistas, melhor. Quantos autocarros chegaram? Quantas excursões passaram? Quantas fotografias apareceram nas redes sociais?
Mas raramente fazemos a pergunta que realmente importa: quanto dinheiro ficou na economia local?
Porque um turista que passa duas horas na cidade, anda sempre colado ao seu grupo e regressa ao autocarro sem entrar em praticamente nenhuma loja local vale muito menos do que um visitante que fica um dia inteiro, dorme, janta, compra e explora a cidade por iniciativa própria.
Só que esse segundo tipo de turismo exige uma estratégia. Exige visão. Exige perceber que turismo não é apenas a circulação de pessoas mas também a criação de valor económico, algo que Guimarães continua sem conseguir fazer.
“Os grupos entram, percorrem um circuito pré-definido, param nos locais protocolados, consomem o mínimo possível fora do programa oficial e seguem viagem. Tudo extremamente eficiente.”
Criou-se um modelo turístico quase industrial: os grupos entram, percorrem um circuito pré-definido, param nos locais protocolados, consomem o mínimo possível fora do programa oficial e seguem viagem. Tudo extremamente eficiente. Quase militar. O objetivo parece ser bater o recorde de velocidade a atravessar o centro histórico.
No fim, o número de turistas na cidade sobe e todos fingem que isto é um enorme sucesso.
Mas basta falar com os comerciantes para perceber a contradição: há dias em que a cidade está completamente cheia e mesmo assim as vendas continuam fracas. Como chegamos a este ponto?
O turismo atual está desenhado para maximizar o fluxo turístico e não a permanência. Para mostrar a cidade e não para integrá-la na economia. Para criar volume e não riqueza. E isso traz consequências.
Uma cidade que vive demasiado do ‘turismo-relâmpago’ começa lentamente a transformar-se numa espécie de set de cinema. Um local bonito para fotografias rápidas, mas sem uma ligação económica ou humana entre os visitante e a cidade. O comércio tradicional passa a sobreviver mais da população local do que do próprio turismo.
É o paradoxo perfeito: milhares de visitantes, pouco retorno.
Atenção: isto não é um ataque aos turistas. O problema não são os visitantes, mas sim o modelo de turismo atual.
Porque ninguém pode culpar um turista por fazer exatamente aquilo que lhe mandam. Se o percurso é acelerado, fechado e totalmente controlado, é natural que o visitante nunca descubra aquela loja histórica escondida numa ruela, aquela tasca com os melhores petiscos da região ou aquele pequeno negócio familiar que dura há décadas.
O turista segue o caminho que lhe ofereceram. E Guimarães, apesar do enorme potencial, continua sem conseguir transformar visitantes em permanência.
No fundo, temos uma cidade extraordinária a ser consumida como conteúdo rápido. Quase como um reel de Instagram em versão urbana. Passa-se, vê-se, tira-se uma fotografia e segue-se para o próximo destino.
Entretanto, o comércio tradicional continua à espera que alguém lhe entre pela porta.
© 2026 Guimarães, agora!
Partilhe a sua opinião nos comentários em baixo!
Siga-nos no Facebook, X e LinkedIn.
Quer falar connosco? Envie um email para geral@guimaraesagora.pt.


