Relação com o tempo

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O tempo nunca me gritou. Nunca me bateu à porta com violência, nem me empurrou escadas abaixo. O tempo, quando muito, esperou por mim à porta, com os braços cruzados, o olhar paciente e um leve sorriso de quem sabe mais do que eu.

Durante anos, ignorei-o. Corri à frente dele, como se fosse possível fintá-lo. Julgava-o um adversário: uma entidade fria, cronológica, que me limitava os dias e envelhecia os meus pais. Tinha-lhe raiva. Como se fosse culpa dele o facto de tudo passar.

Mas o tempo não é carrasco. É mestre.

É ele quem me ensina, com uma lentidão sábia, que a dor passa, que o amor se transforma, que os erros se moldam em lições – e que há perguntas que só se compreendem depois de muito calar e do tempo passar.

Crescemos com o tempo, sim. Crescemos quando deixamos de o ver como inimigo e o reconhecemos como parceiro. Quando percebemos que não é ele que nos foge – somos nós que o usamos mal. Que o desperdiçamos em pressas, em rancores, em coisas que não valem o relógio.

O tempo guarda tudo, mesmo quando julgamos que já passou. Está nas memórias que regressam com um cheiro ou uma canção. Está na fotografia onde ainda éramos inteiros. Está naquela frase que alguém nos disse há décadas, mas que só agora começa a fazer sentido.

Mas, afinal, o que é o tempo?

Será uma linha contínua, como aprendemos nos livros? Um rio que não recua, que arrasta tudo consigo? Ou será, antes, uma sucessão de instantes preciosos – eternidades minúsculas – que só percebemos depois de vividas?

“E, por mais cruel que pareça, é também o tempo que suaviza. É ele que ensina a deixar ir, a não insistir onde já não há eco.”

O tempo é, talvez, a forma mais subtil de verdade. É ele que revela o que valeu a pena. É ele que rasga as máscaras, que desmascara intenções, que prova quem ficou. E, por mais cruel que pareça, é também o tempo que suaviza. É ele que ensina a deixar ir, a não insistir onde já não há eco, a não tentar reviver o que só fazia sentido naquela hora.

Hoje olho para o tempo com reverência. Não com medo, mas com respeito. Porque compreendo que não é o tempo que envelhece as coisas – somos nós que as deixamos morrer por dentro. E, no entanto, é também com ele que podemos renascer. Sempre que escolhemos viver com intenção. Sempre que dizemos o que sentimos. Sempre que oferecemos tempo a alguém – porque não há presente mais generoso.

O tempo não é um tirano. É um espelho. Mostra-nos quem somos, sem pressa e sem falhar. E quem sou eu, afinal, senão aquilo que fiz com o tempo que me foi dado?

Ainda vou a tempo – de dizer o que nunca disse, de ser quem prometi ser, de dar sentido aos dias em vez de apenas os contar. Ainda vou a tempo de crescer.

Porque o tempo, esse velho mestre, continua à porta.

Espera-me. E sorri.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!

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