À lei da “garra” vimaranense

A alma e comportamentos como estratégia de turismo

A Câmara Municipal investiu na idealização de uma estratégia de captação de turistas à base de comportamentos e emoções que fazem parte do alma do ser vimaranense.

O que fazer de um território já muito conhecido e com boa imagem ainda mais conhecido e visitado?

O desafio pode entender-se num estudo da Bloom Consulting, a quem a Câmara Municipal delegou a responsabilidade de conceber uma estratégia que, no fundo, visa tornar Guimarães ainda mais conhecida e mais visitada por portugueses e estrangeiros em visitas de turismo, de negócio ou de lazer.

Apesar de quem frequentar o centro histórico notar um frequente vai-e-vém de pessoas de vários países, de ver os restaurantes das principais praças animados e frequentados, de se perceber o frenesim em volta do castelo com autocarros a carregar e descarregar gente dos vários continentes, apesar disso tudo, Guimarães ainda não é um destino turismo, nem tem a visibilidade internacional que lhe podia dar outra projecção.

O estudo que serviu de base à estratégia definida confirma o que é mensurável à vista: Guimarães atrai, encanta mas demora a fixar ou prolongar uma visita ainda esporádica dos seus turistas. A visibilidade nacional é ainda maior que a internacional, a história e o valor do património também suscitam admiração e motivo para uma escapadinha, porque Guimarães é acessível por qualquer meio de transporte. Daí o interesse para quem mais nos visita – os espanhóis em rumar à cidade por proximidade, os brasileiros quererem entender onde nasceu o país irmão e os franceses terem na fundação da nacionalidade uma costela que os aproxima da terra e dos seus heróis, de há séculos.

E reitera o que já há muito distingue Guimarães com um centro histórico admirável e que suscita curiosidade, um Castelo que apesar de ser uma obra requalificada há 80 anos, não deixa de ser um lugar de memória – onde se guarda o símbolo do nascimento da portugalidade. E depois, o Monte Latito qual sede altaneira da vila antiga de Guimarães e de onde se mira todo o centro histórico no qual se enquadra a parte mais antiga da cidade e do concelho.

É, pois, na cidade histórica, que os turistas concentram a sua visita apesar de se notar que há um interesse em expandir o olhar e sentir a vida para além do castelo e das muralhas. Mas para sair do centro, só mesmo por uma escapada ou fuga ocasional onde se sente que nenhuma estratégia também fez emergir o que há de bom em S. Torcato, nas Taipas, na Penha e no resto da ruralidade.

O que o estudo da Bloom, também deixa claro, é outra verdade de La Palisse – obviamente sentida por quem lida com muito com turistas e visitantes: Guimarães encanta quem cá vem uma ou mais vezes e deixa saudades e boa impressão porque andar pela cidade proporciona sensações agradáveis, de segurança e paz, de uma paisagem colorida e uma simpatia das gentes com quem se é capaz de conviver.

Se visitar Guimarães pode ser entendida como uma “experiência única”, para o turista, a verdade é bem diferente da que sentem os vimaranenses. Uma experiência única tem de ter mais condimentos, uma duração maior e a percepção de um todo e não apenas de uma parte. Guimarães vista a correr e ao comando de uma guia turístico com um plano de viagem e visitas para cumprir, num roteiro com outras opções apenas pode proporcionar uma visita agradável num estadia curta.

No diagnóstico do estudo, reitera-se continuamente o que são as deficiências de um local turístico – que não um destino – nomeadamente a estadia curta, mais curta que uma escapadela, a concentração da visita ao centro da cidade – também por ser mais fácil – e a falta de notoriedade em alguns públicos – mais jovens – o que também é natural porque Guimarães apesar de ter sol não tem praia.

Para mudar as áreas onde Guimarães tem de “investir” para mudar a sua imagem turística para outros patamares, a Bloom faz recomendações: complementar a experiência existente, procurando visitantes para ver o concelho e não apenas a cidade; evitar que o centro histórico monopolize as atenções nos folhetos ou documentação turística, mostrando as riquezas que existem em redor da cidade; propor novos locais a determinados segmentos de turistas; fazer do bairrismo um chamariz turístico que possa enriquecer a marca turística que Guimarães tem; fazer coincidir uma ideia central de Guimarães com uma visão para o Turismo e que no caso a ideia central é “a ideia que nós queremos que os outros tenham de nós”.

Pelo que se vê no estudo, há muitas palavras para algumas ideias e que todas evidenciam um conceito bem vimaranense de olhar para dentro de si. Falta saber se estes valores ou ideias sobre a emoção, bairrismo, garra se encaixam numa estratégia turística onde se deviam conhecer verdadeiras acções para captar turistas de per si e não através da influência de outros destinos. Guimarães como parte da região Turismo do Porto e Norte de Portugal não deixa de beber por aqui o seu maior contingente de visitantes turistas, uma dependência que vai continuar a influenciar os fluxos de turistas à cidade.

Dizer que é à base da lei da “garra” vimaranense que vamos ter mais turistas pode ser ainda mais redutor do que enquadrar Guimarães no contexto da região do Turismo do Porto e Norte de Portugal. Mesmo sabendo que em torno do conceito da “garra” possam existir outras e não menos importantes emoções, qualidades, memória e história, identidade que são apenas únicas e nossas.

O turista pode reconhecer a nossa “garra” – uma característica nossa, de consumo interno, que é apenas conceito, sentimento e emoção. Mas ninguém vai à Catalunha ou ao País Vasco pela sua “garra” e pela sua identidade única e a sua história comum. Há muito mais para além desses conceitos imateriais que o turista aprecia, pode até sentir, mas não o incita a vir a Guimarães por isso.

Idealizar uma campanha turística com base em comportamentos dignos dos vimaranenses – mas que não são exclusivos – porque qualquer população tem orgulho da sua história, pode receber bem, amar o que é seu e ter uma vida em comunidade, pode ser um caminho que pretende materializar um sonho: o de querer vender, do ponto de vista turístico, um território concelhio, com cambiantes verdes, de cultura e folclore e de património identificado mas não muito cuidado.

© 2019 Guimarães, agora!

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