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Segunda-feira, Julho 15, 2024

ADCL: “Então vamos” contar uma estória… em jeito de rádio-novela!

É um projecto que afirma a cultura popular, a redescoberta de uma identidade comunitária abafada, mais um capítulo sobre a promoção da inclusão social.


Um grupo de 33, homens e mulheres, aglutinou-se no projecto “Então vamos!” para contar estórias relacionadas com a cultura popular.

Quase em uníssono, disseram “Então vamos!” e foram, ressuscitando o Teatro em S. Torcato, no antigo edifício da Casa do Povo, onde também se via cinema, desde tempos imemoriais da FNAT depois Inatel; divulgaram a sua produção ao jeito de um podcast e agora registaram, em livro, as suas estórias.

A Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais (ADCL), com sede em S. Torcato, foi um chapéu que os abrigou e lhes deu forma para obter financiamento municipal, inicialmente pelo Orçamento Participativo de 2013. Contudo, este projecto haveria de ser transformado em actividade permanente, graças ao empenhamento dos seus participantes e actores que o abraçaram quando, quase todos, estão já em situação de reforma.

Curiosamente deram um bom exemplo de aproveitamento dos tempos livres, encorparam uma associação que se estendeu ao vale de S. Torcato e agora a outras freguesias de Guimarães.

E, então, vamos?

Sim, eles lá foram, entusiasmados, de mãos dadas, fazendo do seu quotidiano, feito passado, de história, escrito, lido e reposto como peça teatral (faltou-lhe o registo em vídeo dos tempos modernos).

Na foto, ficaram todos, eles e as suas personagens. E, assim, contaram os cantos do seu “Os Lusíadas”, dado tratar-se de uma nova experiência e uma incursão pelos mares nunca antes navegados da cultura e do teatro, a que até então apenas assistiam.

Uma história (estória) que os junta nos ensaios e os agrupa nos espectáculos, e os torna amigos no dia a dia, na ida à padaria ou ao supermercado, à farmácia ou ao posto médico.

Sobretudo, a história dá-lhes o melhor que esta fase da vida lhes proporciona, para além da saúde, das mazelas que sofrem, dos netos e da família: a vontade de viver, fazendo algo de útil que o seu público aplaude.

Sim, estas mulheres e homens, são cidadãos que se entregaram à sua cultura, com as suas ideias, palavras e músicas. E, também, costumes e tradições.

Se fossem jornalistas, teriam escrito uma bela “peça”, uma história para deliciar os seus leitores.

Assim, com o guarda-roupa possível, encantaram-se com os seus desempenhos na peça, o personagem, riram-se das piadas que faziam e surgem por acaso. Ou por graça. 

Ganharam outra família que os une no entretenimento, no passar de mais um dia. E outro dia. Sim, com vontade de viver, como se vive um dia após outro.

📸 Direitos Reservados

Com a sua força, inteligência, humildade e com a fé no futuro, ergueram uma história, mais uma, nas suas vidas, que ainda dá para contar aos filhos e aos netos, que se orgulharão certamente do seu percurso artístico, (prematuro e remoto) qual riqueza escondida, no seu cantinho pessoal, que transborda talento que agora desabrocha.

Foi pena o desperdício, desta vontade e deste ser, no tempo que ficou para trás. A sociedade não lhes proporcionou atenção, como agora, ou a possibilidade de se redescobrir e ver para além do eu e com os outros. Nem a sociedade nem as associações, que não olham para o lado e para as pessoas, todas as pessoas e lhes reconhecem valor, capacidade.

Hoje, podem sentir-se desaproveitados mas ainda a tempo, há muito tempo para viver, há mais tempo para se embrenhar na cultura, de saber mais, de olhar para o infinito, e para a importância de viver…vivo.

Afinal, eles e elas já sabem a importância de ler, escrever, ouvir, falar no seu universo. É importante conhecer melhor o Nicolau, o João, o Artur ou o Quim Matos, a Conceição, a Ludovina, a Josefa. E todos os outros, todos podem e sabem representar, todos querem conviver.

Tomaram, no entanto, a decisão certa e disseram, em uníssono, “Então vamos!”.

E, vamos a isso, divertidos, com o sorriso na cara, dando cada um o melhor de si, aproveitando o que a vida ainda lhes pode dar nas artes, na comunicação, na leitura, no entretenimento, no convívio.

Que se lixe o resto, porque “este bocado, é bom para mim, para todos” pois abre-nos o apetite de viver… mais e até onde puder.

Porque todos merecemos ser estrelas no nosso firmamento para além de agruras pessoais que a vida, a “puta da vida”, lhes deu.

Disseram não ao isolamento social e comunitário, redescobriram-se todas e todos, em conjunto, como se de uma família se tratasse, e aos quais se juntaram os que compuseram a dramaturgia, a edição de textos ou a recolha de conteúdos.

Não apenas para o teatro mas para uma ida à piscina… Puseram em crise algumas associações que não sabem o que fazem, o que podem e o que devem fazer, com portas fechadas.

📸 Direitos Reservados

O seu potencial artístico foi revelado, a forma de ver a vida também, o valor da cultura ensina-lhes e encaminha-os para experiências engraçadas. Afinal, eles são mestres da cultura popular, gente que conta, eleva o seu saber tantas vezes desprezado ou descartado.

Para quem considera a cultura popular inócua, sem sabor ou riqueza, eles, lá foram mostrar quanto errados estão os que fazendo pouco com muito, podem aprender com os que, com pouco, fazem muito.

Elas e eles são do povo, simples, trabalhador, que come o pão que o diabo amassou, formaram família, têm filhos e netos, acabando por aceitar a vida que Deus lhes deu.

Perceberam, porém, as vantagens de ter um grupo, onde todos são iguais, e onde todos despem preconceitos. E, assim, foram crescendo como pessoas, como comunidade, como artistas populares, conquistando o estatuto de cidadãos activos, evidenciando que velhos são os trapos. E, sobretudo, acreditaram em si e em todos, de que podem ser os mais amadores do teatro amador, contar histórias que fazem sorrir ou rir mesmo, artistas de performances que esventram as suas raízes e as mostram puras a quem as quer ver.

E, lá foram, ou têm ido, consolidando o seu projecto de vida cultural. E, sobretudo, dando o exemplo de comunhão de ideias, de saberes, cujas virtualidades começam a ser aproveitadas porque a estória do “Então vamos!” já não é de S. Torcato e estende-se pelo território concelhio como algo audível que vale a pena ouvir e compreender.

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