Para um Estado, tal como para um ser humano, existe um abismo entre o momento em que a vida é concebida (no pensamento e no sangue) e o momento em que ela respira de forma autónoma pela primeira vez.
Diz a biologia que a vida não começa no berço, mas muito antes, no silêncio de uma conceção. Portugal também teve esse momento. Foi um desejo gestado na vontade de governantes, nas entrelinhas de velhos tratados e no sonho daqueles que, antes de nós, sentiram que esta terra tinha uma alma distinta.
Mas, tal como um feto depende do cordão umbilical para sobreviver, o Condado Portucalense (1096-1128) viveu, mais de três décadas, ligado ao corpo de outros reinos (Galiza, Leão e Castela). Recebia deles o sustento político, mas também as amarras da obediência. Estávamos vivos, sim, mas ainda não éramos independentes. Não respirávamos por nós próprios.
O dia 24 de junho de 1128 não foi apenas uma batalha nos campos de Guimarães; foi o nosso parto, foi o dia em que começámos a respirar por conta própria.
Em São Mamede, o corte foi profundo e definitivo. Quando D. Afonso Henriques e os seus barões enfrentaram as forças que nos queriam manter submissos, eles não estavam apenas a lutar por território. Estavam a cortar o cordão umbilical que nos ligava à Galiza, a Leão e a Castela.
Diz-se que o momento mais crítico da vida humana é o primeiro segundo após o nascimento: aquele instante em que os pulmões se expandem e o recém-nascido solta o primeiro grito, provando ao mundo que consegue existir por si só.
Naquele solstício de verão de 1128, Portugal soltou esse grito. Foi ali que o peito desta terra se encheu de um ar novo – um ar que já não vinha de ordens externas, mas da nossa própria determinação. Em São Mamede, Portugal deixou de ser um projeto para passar a ser um indivíduo.
“Que este 24 de junho seja sempre lembrado não apenas como um feito de armas, mas como o dia em que a nossa liberdade inspirou o seu primeiro e mais vital fôlego.”
Passámos a ser um Estado em forma de Reino que caminha pelos seus próprios pés e, acima de tudo, que respira por conta própria. Que este 24 de junho seja sempre lembrado não apenas como um feito de armas, mas como o dia em que a nossa liberdade inspirou o seu primeiro e mais vital fôlego.
Há quem defenda, no conforto da erudição, que este dia foi apenas um ponto de partida, um ensaio incerto de uma autonomia que ainda estava por provar. Mas eu afirmo com toda a convicção que só faz sentido proclamarmos o 24 de junho como Feriado Nacional se tivermos a coragem de o reconhecer como o clímax e a fase final do nosso processo de formação.
Ninguém celebra a conceção como o dia da festa; celebra-se o nascimento. São Mamede não foi o início de uma dúvida, foi o fim de uma espera. Foi o momento em que a maturação política, a identidade de um povo e o direito sucessório de um príncipe atingiram o seu ponto de ebulição.
Se hoje pedimos que este dia seja de todos os portugueses, é porque reconhecemos nele a entrega final. Não foi um ‘talvez’, foi um ‘basta’. Proclamar este dia é honrar o instante em que o esforço da gestação se transformou na realidade da existência. É celebrar o dia em que o processo se completou e o Estado/Reino, finalmente maduro, se deu ao mundo, para mais tarde, muito mais tarde, vir a ser por ele reconhecido.
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