Em muitas cidades, as pessoas vivem lado a lado sem realmente viver juntas. Partilham paredes, elevadores e estacionamentos, mas raramente espaços comuns, equipamentos coletivos ou formas de apoio mútuo. A habitação tornou-se progressivamente mais privada, mais isolada e mais dependente da capacidade individual de pagar.
Ao mesmo tempo, muitas zonas urbanas tornaram-se socialmente homogéneas. Há bairros compostos quase exclusivamente por moradias de grande dimensão e baixa densidade. Outros concentram apenas habitação social ou arrendamento mais precário. Em alguns territórios predominam idosos; noutros, estudantes temporários; noutros ainda, famílias afastadas do centro urbano pela subida dos preços. A cidade organiza-se silenciosamente em grupos separados.
O problema não é apenas económico. É urbano.

Durante décadas, consolidou-se a ideia de que habitar significava sobretudo conquistar um espaço privado individual: uma casa própria, autónoma e separada das restantes. Quanto maior a autonomia doméstica, maior pareceria o sucesso urbano. Mas talvez esta lógica tenha produzido também cidades mais fragmentadas, mais dependentes de deslocações constantes e menos capazes de sustentar vida comum.
Nem sempre foi assim.
Ao longo da história urbana existiram múltiplas formas de habitar baseadas em proximidade, partilha e convivência quotidiana. Pátios comuns, edifícios multifamiliares, cooperativas de habitação ou modelos intergeracionais procuravam responder não apenas à necessidade de abrigo, mas também à construção de relações de vizinhança, estabilidade e apoio mútuo.
Hoje, essas experiências permanecem marginais no debate público português. A habitação coletiva tende muitas vezes a ser associada a perda de privacidade ou a soluções destinadas apenas a situações de vulnerabilidade económica. Ao mesmo tempo, a própria habitação pública foi frequentemente construída de forma segregada, concentrando populações semelhantes em territórios separados do restante tecido urbano.
O resultado é uma cidade onde diferentes grupos sociais vivem cada vez mais afastados uns dos outros.
Essa separação tem consequências que ultrapassam a esfera da habitação. Quando bairros inteiros se tornam socialmente homogéneos, reduz-se a mistura quotidiana que sustenta a vida urbana: crianças, idosos, estudantes, trabalhadores, comércio local, serviços públicos e diferentes formas de permanência deixam de coexistir nos mesmos territórios.
A convivência urbana também é uma infraestrutura.
Uma cidade equilibrada depende da possibilidade de diferentes grupos sociais partilharem proximidade, equipamentos públicos e espaços comuns. Bibliotecas, jardins, escolas, transportes, centros culturais e comércio de bairro funcionam melhor quando fazem parte de territórios diversos e densamente habitados, em vez de servirem zonas fragmentadas por rendimento, idade ou função urbana.
“Quando a expansão urbana acontece sobretudo através de habitação dispersa e socialmente homogénea, aumentam as distâncias, a dependência motorizada e os custos de infraestrutura.”
Neste sentido, o problema das moradias isoladas não é apenas arquitetónico. Muitas vezes, é territorial. Quando a expansão urbana acontece sobretudo através de habitação dispersa e socialmente homogénea, aumentam as distâncias, a dependência motorizada e os custos de infraestrutura, enquanto diminui a intensidade da vida comum.
O mesmo acontece quando a habitação social se concentra excessivamente em determinados bairros: não apenas se reforça o estigma territorial, como se reduz a possibilidade de convivência entre diferentes grupos sociais e formas de vida.
Talvez por isso a questão da habitação não possa ser reduzida apenas ao número de casas construídas ou ao preço do mercado imobiliário. O problema é também a forma como distribuímos pessoas, serviços e oportunidades pelo território urbano.
Cooperativas de habitação, edifícios com espaços comuns, programas públicos distribuídos por diferentes bairros ou modelos mais partilhados de habitar podem criar não apenas formas diferentes de morar, mas também bairros socialmente mais diversos. Quando pessoas de diferentes rendimentos, idades e modos de vida partilham proximidade, tornam-se mais viáveis os equipamentos públicos, o comércio local, os transportes e os espaços de convivência que sustentam a vida urbana quotidiana.
E essa diversidade não é apenas uma questão social. É também climática.
Formas mais coletivas de habitação permitem frequentemente partilhar espaços, equipamentos e infraestruturas que hoje são multiplicados de forma individualizada: áreas comuns, lavandarias, ferramentas, salas de trabalho, climatização ou mesmo espaços exteriores. Ao reduzir duplicações e favorecer maior proximidade entre pessoas e serviços, estes modelos tendem também a diminuir consumo energético, uso de materiais e pressão para expansão urbana contínua.
Uma cidade mais próxima, mais densa e mais diversa tende a consumir menos solo, menos energia e menos infraestruturas por habitante. Reduz deslocações obrigatórias, facilita o uso de transportes coletivos e permite uma utilização mais equilibrada dos equipamentos urbanos já existentes.
Talvez uma cidade verdadeiramente sustentável não dependa apenas de edifícios mais eficientes, veículos elétricos, paineis fotovoltaicos ou tecnologias avançadas de reciclagem, mas também da capacidade de reconstruir formas mais coletivas, diversas e próximas de viver o território. Porque uma sociedade organizada quase exclusivamente em torno do consumo individual tende também a produzir mais isolamento, relações mais frágeis e cidades menos comuns.
Quando o espaço urbano deixa de favorecer convivência, partilha e pertença, a cidade continua habitada – mas torna-se progressivamente mais solitária.
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