- Resumo:
O artigo analisa o impacto do programa Erasmus+ no Ensino Profissional, são focadas as mobilidades de curta duração para formação em contexto de trabalho. Descreve-se resumidamente o percurso de internacionalização da Escola Secundária Francisco de Holanda e, a partir daí, discutem-se os contributos do programa para a flexibilização curricular, a formação integral dos alunos e as potencialidades para a aproximação entre escola e mercado de trabalho. Integra-se uma reflexão sobre o modo como estas mobilidades permitem concretizar as competências do PASEO, sustentada por literatura recente. O Erasmus é, em si mesmo, promotor de flexibilidade curricular, pois permite adaptar percursos formativos a contextos europeus, integrar aprendizagens práticas e desenvolver competências técnicas e transversais. Não só incentiva a mudança de paradigma educativo, como a integração de novos conteúdos, metodologias ativas e aprendizagens não formais.
- Introdução:
“O Tratado de Roma, um dos tratados fundadores da Comunidade Económica Europeia (CEE), já falava em mobilidade de trabalhadores, antecipando o espírito do Erasmus para o Ensino Profissional (VET) e a importância da mobilidade para uma Europa coesa, justa e competitiva”. No Tratado de Roma não se falava em soft skills, microcredenciais, job shadowing. Mas já reconhecia, nos seus artigos 41.º e 51.º a relevância da partilha de conhecimento técnico e da mobilidade de jovens trabalhadores entre países europeus, como pilares de uma europa coesa, justa e equitativa.
O Erasmus+ VET não se limita ao intercâmbio de alunos, mas abrange um leque alargado de experiências formativas e de cooperação, desde a partilha de práticas entre escolas, parcerias com empresas, formação em contexto real de trabalho (FCT). O programa incentiva práticas pedagógicas inovadoras, centradas no aluno, através de metodologias ativas, aprendizagem experimental e intercultural, promovendo competências essenciais para o mercado de trabalho e para uma cidadania europeia ativa e inclusiva. Assim, o Erasmus+ VET emerge como um instrumento estratégico para modernizar o ensino profissional e potenciar a flexibilidade curricular.
- Internacionalização como desígnio pedagógico:
A internacionalização do ensino na Escola Secundária Francisco de Holanda está alinhada com o seu Projeto Educativo. O foco na internacionalização do Ensino Profissional intensificou-se em 2020-2021 com a participação no projeto ENNE (KA3), que visou criar redes de excelência e promover mobilidades no VET. Nesse ano, a escola iniciou mobilidades simples para alunos e docentes (KA1). Em 2021, obteve a Acreditação Erasmus VET 2021–2027 e passou a coordenar um projeto de cooperação (KA2).
As mobilidades de alunos são a principal prioridade estratégica, sobretudo em formato de curta duração (10 a 20 dias), incluindo formação em contexto de trabalho em empresas internacionais (FCT). Em 2023/2024, iniciou-se a aposta em mobilidades de maior duração, acompanhando as prioridades do Erasmus+ VET e a literatura que destaca o maior impacto das mobilidades longas no desenvolvimento de competências dos alunos.
- Desenvolvimento de Competências:
A investigação de ‘Amorim e Cosme’ demonstra que as mobilidades Erasmus+, nomeadamente as ErasmusPRO, permitem desenvolver competências fundamentais previstas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO), com destaque para o desenvolvimento pessoal e autonomia, relacionamento interpessoal, pensamento crítico, capacidade de resolução de problemas e competências técnicas específicas.
A experiência da Francisco de Holanda tem verificado que a execução dos projetos e das atividades no âmbito do Programa Erasmus+ obriga a centrar as práticas pedagógicas no aluno. Impõe-se a exigência de planeamento individualizado. Por exemplo, numa mobilidade para realização de FCT, temos de proporcionar experiências relacionadas com a formação específica do aluno; definir metas claras de aprendizagem, que têm de ser negociadas levando em consideração a formação e o ano letivo do aluno.
As mobilidades permitem aos alunos viver contextos reais e desafiadores, afastando-os do seu meio. Desde a fase de preparação, que exige decisões partilhadas em grupo, os alunos são confrontados com a necessidade de lidar com a diversidade. São frequentemente integrados em equipas multiculturais, onde tomam decisões colaborativas. Um exemplo marcante é o nosso parceiro Kringwinkel, em Antuérpia – uma rede de lojas de caridade que apoia migrantes, desempregados e outras pessoas em situação de vulnerabilidade, proporcionando-lhes bens, formação e oportunidades de emprego. Neste ambiente de trabalho multicultural e socialmente exigente, os nossos alunos vivem uma verdadeira imersão em realidades distintas e complexas.
O ritmo e a rotina de um aluno em FCT numa empresa estrangeira exigem a mobilização de múltiplas competências, como a orientação, o raciocínio lógico, a escuta ativa e a capacidade de resolução de problemas. Numa das mobilidades recentes, num contexto urbano, observámos um aluno a refletir, ainda antes de enfrentar o erro, sobre o que faria caso apanhasse o comboio errado, a caminho da empresa. Mais do que tentar descobrir o percurso exato, o aluno dedicou-se a criar, de forma intuitiva, uma metodologia de reação a falhas. Competências como a gestão da ansiedade e adaptação ao meio são mobilizadas e desenvolvidas.
Outra competência chave é a autonomia. Ao longo de uma mobilidade vai-se notando o crescimento da autonomia nos alunos, tanto no trabalho como no quotidiano. E com a autonomia, vem, geralmente, a autoestima.
“De modo a promover o contacto com a diversidade cultural europeia e a vivência dos locais visitados. Estas vivências despertam nos alunos uma sensibilidade estética e artística.”
Em alinhamento com o Guia do Programa Erasmus+ e com as prioridades definidas pela Comissão Europeia, definiu-se como regra a obrigatoriedade de participação dos alunos em atividades culturais e desportivas durante a mobilidade. De modo a promover o contacto com a diversidade cultural europeia e a vivência dos locais visitados. Estas vivências despertam nos alunos uma sensibilidade estética e artística, muitas vezes, inesperada.
Claro que o desenvolvimento de competências técnicas específicas é também convocado numa mobilidade Erasmus+. As competências técnicas são negociadas e definidas em acordos de aprendizagem. O acordo tripartido define as competências a desenvolver e valida formalmente as aprendizagens. A articulação direta entre escola, empresa e aluno constitui um exemplo concreto de integração curricular e de ponte com o mercado de trabalho.
Em ‘Araújo e Palmeirão’ faz-se uma ligação entre as experiências Erasmus+ e as competências do PASEO. E uma mobilidade, particularmente com experiência de formação em contexto real de trabalho, é um cenário para cumprir o PASEO em tempo record.
- Aproximação ao mercado de trabalho:
A ‘Declaração de Osnabrück’ destaca a mobilidade e a internacionalização como motores da qualidade e modernização no Ensino e Formação Profissional, facilitando a transição justa para a economia digital e verde. Para além de promover o desenvolvimento pessoal dos alunos, a mobilidade Erasmus+ potencia o alargamento das redes de parceria das escolas com entidades internacionais, reduzindo desigualdades e permitindo acompanhar a evolução tecnológica e as tendências industriais, especialmente em setores de rápida transformação. Um exemplo é a parceria com o Centro Tecnológico da Indústria do Calçado de La Rioja (CTCR), que proporciona aos alunos contacto direto com tecnologia de ponta e profissionais de referência, preparando-os para os desafios da Indústria 5.0 e para as competências exigidas pelo mercado de trabalho contemporâneo. Estas experiências impactam a qualidade do ensino e facilitam a integração profissional dos alunos, como demonstram os estudos que indicam taxas elevadas de empregabilidade e valorização das competências adquiridas em contexto internacional.
- Resultados:
Apesar da janela curta de observação, já se identificam transformações: há uma dinâmica crescente dos alunos no Clube Erasmus+ VET, sinal de que começa a ser visto como inclusivo e acessível a todos, tornando o Erasmus+ VET verdadeiramente inclusivo. Sem esta perceção coletiva de pertença e acesso, o Erasmus corre o risco de se tornar elitista ou restrito a perfis já predispostos à internacionalização.
No terreno, a prestação dos alunos em FCT tem superado as expectativas, com relatos das empresas a destacar a sua boa preparação técnica, capacidade de adaptação e qualidade do desempenho – uma validação concreta das práticas pedagógicas da escola. Observam-se ainda progressos na comunicação em inglês e maior valorização das línguas como ferramenta de inclusão. Os alunos regressam mais confiantes e conscientes das suas competências; um participante referiu como ponto forte o reconhecimento dos colegas na empresa, surpreendendo-se até com a dimensão da valorização do seu contributo. A literatura indica: a mobilidade internacional é um acelerador de crescimento pessoal e profissional.
Apesar dos resultados positivos, persistem desafios. A sobreposição de calendários escolares e mobilidades exige gestão flexível (e disruptiva!) e pode dificultar a recuperação de conteúdos. A logística das mobilidades é complexa, exigindo preparação de documentação, acompanhamento nas viagens, gestão de alojamento e acompanhamento dos alunos. Encontrar oportunidades de formação e trabalho, particularmente de curta duração, é muito difícil. A adaptação a contextos culturais e profissionais diferentes pode ser exigente e nem todos os participantes se sentem capazes. A escola continua a trabalhar para garantir que todos os alunos, incluindo os com menos oportunidades, sintam que têm lugar no Erasmus+ VET. Outro constrangimento é o impacto cultural e familiar: muitas famílias, têm dificuldade em permitir que os alunos participem em mobilidades sem acompanhamento, sobretudo quando se trata de jovens menores ou com pouca experiência fora do contexto familiar.
Reconhecem-se ganhos claros em termos de competências, confiança e inclusão, e é fundamental continuar a trabalhar para responder aos desafios, tornando o Erasmus+ VET acessível, seguro e atrativo.
- Conclusão:
O programa Erasmus+ não é só mobilidade europeia. É, na sua essência, uma ferramenta pedagógica estratégica ao serviço da flexibilidade curricular e da formação integral dos jovens. Alinhado com os princípios PASEO (2017), o Erasmus+ oferece um contexto real de aprendizagem, exigente e transformador, onde os alunos aprendem verdadeiramente fazendo.
É dos Programas com maior sucesso e mais visibilidade da União Europeia. E na Francisco de Holanda, tem permitido tornar o VET mais inclusivo, mais conectado com o mundo e mais atento às necessidades dos alunos. Para muitos deles, estas oportunidades não seriam replicáveis senão através do Erasmus+.
© 2026 Guimarães, agora!
Partilhe a sua opinião nos comentários em baixo!
Siga-nos no Facebook, X e LinkedIn.
Quer falar connosco? Envie um email para geral@guimaraesagora.pt.


