Ovodoação: prescindir da genética pelo sonho de ser mãe

Há mais mulheres a engravidar tardiamente. Nem sempre a vontade de ser mãe acompanha o relógio biológico. A partir dos 35 anos, a fertilidade reduz e aos 40, engravidar, é quase um milagre. Nestes casos, a doação de óvulos de outra mulher, pode ser a única solução…


Andreia Castro, de 43 anos, tem dois filhos, de 16 e 18 anos, mas aos 39 pensou em aumentar a família. A estabilidade financeira, a disponibilidade e o facto de ter dois adolescentes em casa contribuíram para a decisão que, inicialmente, não foi consensual, “primeiro partilhei o meu desejo de voltar a ser mãe com o meu marido. Imediatamente, respondeu-me que não, que eu só podia estar maluca, numa fase em que com os nossos filhos autónomos podíamos ter mais tempo em casal, para namorar e viajar que é uma das nossas grandes paixões”.

Também Íris e André, os filhos do casal, assumiram posições contrárias. A rapariga, adorou a ideia. O irmão torceu o nariz a um novo membro.

Rapidamente, Andreia, não só convenceu os três, como os envolveu de tal modo naquele projecto que o seu sonho, passou a sonho de família.

Procurou, primeiro, a médica de família que por causa da idade a desaconselhou da gravidez e lhe sugeriu viajar, mas Andreia estava decidida.

“Foi tão estranho fazer a minha vida normal com um embrião morto dentro de mim. Nenhuma mulher devia passar por um aborto, é uma dor enorme…”

Durante dois anos, o casal tentou engravidar naturalmente. E conseguiu, mas na véspera de viajar para a Escócia, numa consulta de rotina, com 12 semanas de gestação, descobriram que o feto não tinha evoluído, “o meu marido que numa primeira fase nem queria mais um filho, ficou branco. É uma desilusão imensa, uma sensação de fracasso, como se a culpa fosse nossa. Eu vi no olhar do meu marido que, até ele me culpou”, conta. “A médica disse que poderia viajar na mesma e foi tão estranho fazer a minha vida normal com um embrião morto dentro de mim. Nenhuma mulher devia passar por um aborto, é uma dor enorme”, recorda.

Apesar do percalço, Andreia e Sérgio não desistiram. Assumiram o sonho de um bebé e tudo fariam para o concretizar.

A alternativa era agora a Fertilização In Vitro (FIV).

O SNS não poderia ser opção porque o limite de idade para a procriação medicamente assistida é de 40 anos enquanto no privado, a mulher pode ter até 50 anos de idade. A Associação Portuguesa de Fertilidade quer aumentar para os 45 anos o limite de idade para FIV nos hospitais públicos.

Apesar da diminuição, a lista de espera para a procriação medicamente assistida no SNS continua a somar atrasos e as doações são residuais. O problema não é novo, mas agravou-se com a pandemia.

As mulheres não podem parar o tempo.

“O meu útero é velho”

© Direitos Reservados

Andreia Castro e Sérgio Alves tinham disponibilidade financeira e voltaram-se imediatamente para o privado.

Depois da histeroscopia diagnóstica que mais não é que a visualização em detalhe da cavidade uterina, o primeiro procedimento é a estimulação hormonal e ovárica feita com recurso a medicamentos e injecções diárias. A seguir, avança-se para a punção com anestesia geral para a retirada dos óvulos. Andreia conseguiu retirar 14, mas só metade veio a revelar-se saudável.

Em laboratório, com o esperma do marido previamente recolhido, procedeu-se à fecundação.

“Todos os dias, recebia uma chamada da médica a informar-me do ponto de situação. E todos os dias, os óvulos eram em menor número. Andreia, dois não evoluíram…”, lembra.

Até ao último que também não evoluiu.

A fase seguinte seria repetir todo o procedimento. Andreia rejeitou. “Não passaria novamente por tudo. Aumentei de peso com a medicação, os meus ovários incharam devido à estimulação, tinha uma barriga de grávida, além de ser psicologicamente desgastante a espera de notícias e no fim, o fracasso”, desabafa.

A alternativa para este casal foi a ovodoação. Em linguagem simples, repetiriam todo o procedimento, mas com óvulos doados por outra mulher. “Não é algo simples, é complexo e levanta muitas questões. O pai biológico continuaria a ser o meu marido, mas eu não seria a mãe, apesar de gerar o bebé no meu útero, os óvulos seriam de uma dadora anónima”, explica.

Foi em 1984 que aconteceu em Portugal a primeira gravidez resultante de um tratamento com doação de ovócitos.

Hoje em dia, cerca de 3.5% de bebés, em todo o mundo, nascem deste procedimento. E a procura continua a aumentar. Cada vez mais mulheres planeiam a gravidez tardiamente o que, na mesma proporção, aumenta a infertilidade. Para muitos casais a única solução é a ovodoação.

Andreia e Sérgio conseguiram três óvulos de uma dadora. Um de cada vez seriam implantados no útero de Andreia. Após a inseminação deveria estar em repouso nove dias e posteriormente realizar o teste de gravidez. A primeira transferência não correu bem. O resultado veio negativo.

Tentaram outra vez com a implantação do segundo embrião. Após o repouso obrigatório, novo teste e um positivo muito dúbio com valores muito abaixo dos recomendados. Aquele embrião também não evoluiria.

Restava outro, mas ao casal sobrava em desilusões o que já lhes faltava em esperança. Foram três anos de frustrações e quase 15 mil euros investidos.

“O meu útero é velho para implantações. A verdade é essa”, afirma Andreia Castro que abandonou o sonho de aumentar a família, “todos quisemos muito um bebé, mas tudo acontece por uma razão, ainda não descobri qual, mas um dia saberei. Encerrei este ciclo e agora estou focada no meu bem estar”.

© Direitos Reservados

Dadoras de óvulos podem inscrever-se na internet

Se escrever no Google “ovodoação” o motor devolve-lhe milhares de resultados. Alguns apelando ao altruísmo, vendendo a ideia da concretização de um sonho.

A verdade é que qualquer mulher saudável que tenha entre 18 e 34 anos pode ser dadora de óvulos e recebe uma compensação financeira superior a 800 euros por isso, mas de acordo com a lei portuguesa, só o pode fazer três vezes. Este valor está definido por lei e é o mesmo no público e no privado. No caso dos homens, por cada doação de esperma recebem 43.88 euros.

Em Portugal há 27 centros de fertilidade, 10 públicos e 17 privados.

Na sequência do Acórdão nº 225/2018 de 24 de Abril, os dadores deixaram de ser anónimos. Cabe agora ao Parlamento a publicação da legislação que determinará a forma como as crianças nascidas na sequência destes tratamentos poderão aceder à informação sobre a identidade civil dos dadores que lhe deram origem. No entanto, recomenda o Tribunal, que a informação seja acessível apenas após a maioridade.

Outra nota importante é que os dadores não têm direitos ou obrigações parentais sobre as crianças nascidas da sua doação.

© 2021 Guimarães, agora!


Partilhe a sua opinião nos comentários em baixo!

Siga-nos no Facebook, Twitter e Instagram!
Quer falar connosco? Envie um email para geral@guimaraesagora.pt.

2 COMENTÁRIOS

  1. Havendo disponibilidade financeira, e dado que a possibilidade de ter um filho que não seja geneticamente de um dos pais não parece afectar a decisão, a solução para a Andreia e o Sérgio é a adopção. Também leva tempo, tem muita burocracia associada, não é tão fácil como isso e é bastante stressante (especialmente se se quiser mesmo um bebé e não uma criança com já uns anitos…), mas é sempre uma opção para quem queira (e possa!) aumentar a família, se o processo de gravidez natural (ou artificial) não for uma possibilidade…

  2. História linda e maravilhosa demais ❤️♥️❤️ . Conheço este casal há muitos anos, por conseguinte, eles mereciam ver tal sonho realizado. Esse novo ser, viveria como um príncipe encantado e encantando esta linda família. Porém, as coisas nem sempre acontecem de acordo com nossos desejos, neste caso, o deles.
    Resta a consolação, que serão um dia os melhores e mais babados avós.
    Sejam felizes assim mesmo, como sempre foram e merecem.
    Forte abraço meus príncipes favoritos

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

- publicidade -

Edição Impressa/Digital

Leia também