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Segunda-feira, Fevereiro 6, 2023

Reabilitar com qualidade

Economia

Edifícios ganham vida no CH

A “residência para artistas” é mais uma intervenção feita pelo Município no edificado do Centro Histórico, uma obra que segue a pegada de qualidade de outras que se vêm registando no coração da cidade.

Foi o último projecto inserido no programa da Capital Europeia da Cultura 2012 e que só há pouco tempo se concretizou.

A “residência para artistas”, vai ser espaço para a criatividade e criação, de jovens que procuram a nossa cidade, para uma experiência nas artes, confrontando-se com a história, o património e a cultura existentes, ainda que esporadicamente sirva para uso de serviços e instituições.

Numa viagem feita pelo interior do edifício, ainda com a memória e o retrato fotográfico do seu passado recente e história, nosso propósito foi perceber a intervenção feita, admirar a recuperação e confirmar que a reabilitação urbana prossegue, sempre com a mira de atrair mais gente para as casas que se recuperam e se usam, não deixando que o centro histórico se torne apenas um presépio, de figuras inanimadas e um retrato decorativo, que se mostra em ocasiões especiais e festivas.

Para quem revirou o edifício, de alto a baixo, e teve a responsabilidade de cumprir um programa de reabilitação, recuperação e reconstrução exigente, a “obra foi um desafio interessante”, sempre difícil pelas regras e normas que são estritas do regulamento municipal existente que disciplina a reabilitação do edificado, seja qual for a dimensão da intervenção.

Também foi uma tarefa “difícil” porque a estrutura comportava dois edifícios contíguos, com elementos construtivos, próprios de uma casa frágil, com paredes em tabique. E que uma nova estrutura de ferro manteve quase como uma única casa, sem ameaças de derrocada ou desintegração.

O programa de obras previa uma quantidade imensa de demolições com a exigência de manter o “espírito da casa”, do seu simbolismo e com escassez de tempo para fazer quase de tudo de novo. Já depois da sua inauguração, o que a reabilitação deixou marcado foi a identificação com “o que era dantes”, preservando as características essenciais, como um escadario a tornar-se na coluna vertebral da casa, logo garantindo a mesma função de uso habitacional.

Sem desvirtuar normas mas tornando essencial o uso actual do edifício por pessoas, a introdução de um elevador – que serve para ligar também os dois edifícios – tornou-se numa funcionalidade mais que garante a sua fruição plena e sem constrangimentos.

E que em nada ofende fundamentalismo dos que entendem que as casas do centro histórico, depois de recuperadas, não devem ser funcionais mas têm permitir o seu uso e a sua vivência com o conforto actuais, exigindo soluções construtivas que atenuem os efeitos mais perversos de uma intervenção adequada aos tempos de hoje.

Uma exigência técnica e funcional que tornou complexa o desenvolvimento das obras e o respeito pelo programa funcional aprovado.

Outro registo que se faz é a plena recuperação do logradouro, um espaço verde situado nas traseiras do edifício, que lhe deu mais vida e que é tido como uma mais valia do projecto de arquitectura – de 2011 – elaborado pelo gabinete Cannatà & Fernandes, Arquitectos Ldª. A execução da obra – a cargo da empresa Combitur – teve embaraços adicionais em função de um projecto que “jogou” com a existência de paredes vieiras em tabique, já em ruína e com materiais em deterioração, desde as madeiras às argamassas.

O interior do edifício deixa notar as cores mais coerentes com um edifício antigo, onde devem predominar os brancos e beges e bons azulados e verdes.

Os imprevistos – sempre existentes e comuns em obras de reabilitação do centro histórico – acabam também por ser lições para o futuro e para quem, por mais de uma vez, faz intervenções e reabilita espaços antigos para uso habitacional. Esses imprevistos, por vezes, não são fáceis de ultrapassar também por falta de experiência de quem tem de fiscalizar a execução de obras e enquadrar pequenas transformações sem perder de vista o uso e a função habitacional de cada casa que se recupera. Esses imprevistos são também um entrave ao bom andamento da obra – por vezes estão paradas mais tempo do que o desejável – e as tornam mais caras do que já são.

Recuperação que (não) faz escola? – Elogia-se mas não se estuda

As reabilitações no Centro Histórico são um verdadeiro caso de estudo. Contudo não são aproveitadas pelas escolas universitárias de arquitectura e engenharia civil e outras enquanto elementos de estudo e como matéria para aulas e demonstração (ao vivo) de casos práticos.

O que se vê na cidade, são alunos da Escola de Arquitectura apenas a desenhar fachadas de monumentos e de aglomerados habitacionais.

Contudo, não se nota preocupação para ver por dentro, o que se faz de notável em termos de recuperação e reabilitação, no caso dos edifícios e o que se projecta no espaço público.

De facto, as recuperações que se fazem no Centro Histórico – no espaço público e nos edifícios – fornecem matéria suficiente para aulas de arquitectura e engenharia, pelo que se recupera mas como se recupera, como se encontram soluções para problemas que a execução de um projecto coloca quando se passa da teoria à prática, do desenho à complexa tarefa de reconstrução e realização.

A intervenção feita no edifício da rua da Raínha – onde se instalará a “residência para artistas”, teria sido um bom caso de estudo, para jovens arquitectos ou engenheiros. Até porque é fácil de encontrar onde se pode ver aprendendo, e porque não faltam reabilitações que se podem estudar ao vivo. Certamente que nenhum dos promotores das recuperações que se vão fazendo, e a Câmara Municipal para as suas obras, se oporiam a que a reabilitação fosse vista e sentida para quem se quer especializar na matéria.

No caso dos edifícios da “Residencia dos artistas”, a filosofia da intervenção, respeitou “os objectivos de conservar a imagem pública e colectiva”, fundamental num processo de requalificação de todas as partes do espaço público. Ali, os arquitectos autores do projecto, preocuparam-se em “manter e reinterpretar a sua matriz tipológica de modo a que novas funções não afectasse a autenticidade do testemunho acumulado a longo da vida dos edifícios”.

É este diálogo entre o projectar e executar que torna a intervenção crucial, visando sempre “consolidar o existente”, manter os diversos elementos arquitectónicos e permitindo a funcionalidade e segurança dos ocupantes e utilizadores dos edifícios, o que nem sempre se pode assegurar com leituras fundamentalistas, sem dar asas à interpretação do modo de executar.

Numa obra fiscalizada pelos serviços do Departamento de Obras Municipais e pelo IGESPAR, foram seguidas as orientações dos autores do projecto no que toca a alguns programas específicos que a estrutura do edifício em si colocava, flexibilizando o atravessamento entre a rua e o pátio, o que permitiu relacionar directamente a rua e o interior do lote, com usos diversos e dependentes da sua utilização.

Durante a reconstrução, foram eliminados elementos sem qualidade e dissonantes, registou-se a integração de um novo programa funcional para as variações de uso, importando ainda consolidar, reparar, restaurar e reabilitar os elementos estruturais em função do Regulamento de Intervenção no Centro Histórico.

“Os elementos decorativos e originais foram identificados de modo a serem evidenciados na intervenção, processo em que se usaram materiais resistentes ao desgaste e de custo reduzido de manutenção. A aplicação de tecnologias visaram garantir a redução de consumos energéticos” – tudo conforme projecto.

Com o decorrer dos trabalhos e ainda no início dos mesmos, e porque o projecto de intervenção teve em conta também “o facto de a intervenção se produzir sobre duas estruturas autónomas, interligadas e distintas”, houve necessidade de estabilizar as duas estruturas pelo recurso a amparos metálicos, de modo a evitar derrocadas, garantindo-se, por outro lado, a recuperação integral da estrutura de madeira existente, com a integração de peças do mesmo tipo para casos de substituição. Naturalmente que se assegurou a manutenção de paredes e pavimentos dos diversos pisos que se mantiveram fiéis à traça original.

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