100 anos de PCP (o bom e o mau)

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Em 1921, nasce o PCP e sobrevive até hoje tendo ultrapassado regimes fascistas, guerras ultramarinas, transição para a democracia, PREC, 25 de Novembro de 75, entrada de Portugal na CEE, queda do Muro de Berlim, desmoronamento de outros partidos comunistas em outros países europeus.

Vive dentro do PCP um Dr. Jekyll e um Mr. Hide.

O PCP é dos partidos a quem a democracia portuguesa mais deve. São três dívidas que destaco, e essas são protagonizadas pelo Dr. Jekyll, e outra que é o (des)crédito protagonizado pelo Mr. Hide.

A primeira dívida subsiste na duríssima resistência à ditadura que na reescrita da História a que temos assistido, hoje é tratada como uma espécie de “Ditabranda”, o que não foi, pois teve muitos momentos de especial brutalidade e violência. Aliás, a História do Tarrafal está contada, a história das torturas estão contadas, e todos sabemos do sufoco, iliteracia, fome, isolamento e miséria em que se vivia nesse tempo.

O PCP perde muito por não gostar do discurso na 1ª pessoa, o que não ajuda a que se perceba, sobretudo para as gerações mais novas, até que ponto foi violenta a ditadura fascista.

Não foram os únicos, é certo, foram os mais resilientes.

Grande parte das pessoas que rumaram para o PCP antes do 25 de Abril, rumaram porque remavam contra a ditadura. Não rumaram a pensar no ideal comunista e na sociedade sem classes. Mas era, claramente, até aos finais dos anos 60, o partido onde se podia resistir contra o fascismo.

Foi no PCP que se resistiu contra o fascismo. E essa dívida temos de assumi-la perante o PCP.

Foi quem resistiu, foi quem foi torturado, foi quem foi morto, foi quem perdeu a sua família. E foi lá, no PCP, doa a quem doer.

A segunda dívida para com o PCP tem a ver com o PREC, ao contrário do que se pensa. Claro que não diretamente ao PREC, mas ao depois.

O PREC foi dos períodos mais complexos e estranhos da nossa História mais recente. Havia uma difusão de narrativas que ditas nos dias de hoje seriam um sacrilégio.

A título de exemplo, no PREC, há um comunicado do PPD de Sá Carneiro em que esfuziantemente “saudava a nacionalização da banca na luta contra o capitalismo”. Ou mesmo o CDS de Freitas do Amaral, que defendia a nacionalização de explorações agrícolas se não fossem exploradas. Isto para se perceber que o PREC era muito mais confuso do que se imagina.

A dívida ao PCP nada tem, obviamente, a ver com o PREC. Mas é o singelo (mas importante) facto de não ter resistido ao 25 de Novembro e ter evitado uma guerra civil que poderia ter acontecido em Portugal, e nem todos assim o queriam.

No dia 26 de Novembro de 1975, Melo Antunes disse que o país precisava do PCP para a construção do socialismo (é certo que naquela altura, todos queriam o socialismo, até o PPD queria o socialismo, pois todos sabiam que havia uma tentação revanchista de alguma direita a tentar ilegalizar o PCP) e o PCP provou que efetivamente era indispensável à construção da democracia.

Esteve, desde o 25 de Abril, na defesa do Estado de Direito, dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, esteve nas lutas sociais pelos direitos dos trabalhadores…

Por último, o PCP, de forma muito digna e meritória, esteve na construção do poder autárquico. Esteve, desde o 25 de Abril, na defesa do Estado de Direito, dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, esteve nas lutas sociais pelos direitos dos trabalhadores, estando sempre do lado certo da Democracia em Portugal.

Do lado certo da Democracia em Portugal, disse bem! Porque o problema do PCP é o seu lado esquizofrénico relativamente ao que se passa lá fora. Aí temos outro PCP que não se coaduna com o PCP interno.

É incompreensível e inconcebível os caminhos obtusos como o PCP consegue ver regimes democráticos onde não há, e vê ditaduras onde há democracias. Defende regimes que se suportam no culto da personalidade, com abuso da autoridade, burocratizado e corrupto, como a Coreia do Norte e a Venezuela.

E é este Mr. Hide do PCP que nos faz olhar com cautela para o mais velho partido português que celebra 100 anos.

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