Uma cidade onde se possa ficar

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Há alguns anos acompanhei a minha mãe a uma pequena sapataria na Rua Paio Galvão, no centro de Guimarães. Procurava umas pantufas simples. A loja chamava-se Mimosa e parecia sobreviver discretamente entre fachadas renovadas e espaços comerciais mais recentes. Tinha uma montra antiga, quase fora do tempo, e vendia apenas chinelos, pantufas e sapatos modestos.

Quando entrámos, tudo ali parecia pertencer a outro ritmo. Os móveis antigos, a disposição dos produtos, o silêncio da loja. Veio atender-nos uma senhora já muito idosa. A conversa começou naturalmente entre ela e a minha mãe, também octogenária. Contou-nos que trabalhava naquela sapataria desde a juventude, quando precisou ajudar a sustentar a família. Disse que, em jovem, sonhara ser professora, mas nunca pudera seguir esse caminho.

Meses depois voltei a passar diante da loja. As montras estavam cobertas e um cartaz anunciava: “Encerrado temporariamente”. A sapataria permanece encerrada até hoje. E, desde então, penso ocasionalmente na senhora da Mimosa e na possibilidade silenciosa de já não voltar.

© Direitos Reservados

A cidade muda muitas vezes assim: sem anúncio, sem ruptura evidente, sem um momento preciso em que algo termina. Certos lugares continuam fisicamente presentes, mas deixam gradualmente de pertencer às mesmas vidas. Mudam os moradores, as lojas, os horários, os preços e os modos de ocupar o espaço. Às vezes permanece a fachada, mas desaparece a continuidade humana que lhe dava sentido.

Habitar não é apenas ocupar espaço. É permanecer tempo suficiente para criar relações, memória e reconhecimento mútuo.

Durante muito tempo, a ideia de progresso urbano esteve associada à circulação rápida, à renovação constante e à flexibilidade permanente. A cidade moderna habituou-se a valorizar aquilo que muda depressa: novos investimentos, novos consumidores, novos fluxos, novos usos do território. Ao mesmo tempo, tornou-se cada vez mais difícil construir permanência.

O problema não é a mudança em si. As cidades sempre mudaram. O problema começa quando tudo se torna provisório.

Contratos temporários, habitação instável, comércio efémero, turismo acelerado e relações cada vez mais transitórias acabam por produzir uma cidade onde muitas pessoas deixam de conseguir construir vínculos duradouros com o território. Vive-se mais perto da ocupação do que da pertença.

Uma cidade onde tudo é temporário torna-se também uma cidade onde é difícil criar responsabilidade comum.

A crise da habitação costuma ser discutida sobretudo em termos de preço, oferta ou investimento. Tudo isso é importante. Mas talvez exista uma dimensão menos visível: a perda progressiva da possibilidade de permanecer. Permanecer num bairro. Permanecer perto das pessoas conhecidas. Permanecer numa relação quotidiana com os mesmos lugares.

Sem essa continuidade, a cidade torna-se mais funcional, mas também mais frágil.

“Uma cidade não é feita apenas de edifícios ou infraestruturas. É feita também de relações repetidas ao longo do tempo.”

É essa permanência que permite reconhecer rostos, construir confiança, sustentar comércio local, cuidar informalmente dos mais velhos, criar memória coletiva e manter formas de convivência que dificilmente aparecem nos indicadores económicos. Uma cidade não é feita apenas de edifícios ou infraestruturas. É feita também de relações repetidas ao longo do tempo.

Talvez por isso o direito à habitação não possa ser reduzido apenas ao acesso físico a uma casa. Habitar implica também a possibilidade de criar raízes sem viver sob ameaça permanente de deslocação, substituição ou desaparecimento silencioso.

E essa questão não é apenas social. É também ecológica.

Uma sociedade organizada em torno da rotatividade constante tende também a consumir mais espaço, mais energia e mais recursos. Demole, substitui, acelera e descarta com maior facilidade. Pelo contrário, cidades capazes de preservar continuidade humana tendem também a favorecer reutilização, proximidade, cuidado e menor pressão para expansão permanente.

Permanecer pode ser uma forma de sustentabilidade.

Talvez uma cidade verdadeiramente habitável não seja aquela onde tudo muda rapidamente, mas aquela onde diferentes pessoas conseguem permanecer tempo suficiente para criar vínculos, memória e responsabilidade comum pelo território.

Porque quando ninguém consegue realmente ficar, a cidade continua cheia – mas torna-se progressivamente mais passageira.

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