
Vamos partir do princípio – e assumamos, por esta altura, que Deus existe. Que Ele está aí, algures, a olhar para este mundo de perto. Pois bem, confesso: se eu fosse Deus, já teria perdido a paciência com a humanidade há muito tempo e estaria, sem dúvida, a gozar umas férias prolongadas – e com toda a justiça!
Quem é que aguentaria gerir um mundo tão caótico? Este planeta transformou-se num verdadeiro departamento de urgências 24 horas, onde as chamadas nunca param, os incêndios nunca apagam e os pedidos de ajuda chegam em avalanches constantes. Problemas acumulam-se como contas por pagar, enquanto ninguém quer assumir a responsabilidade de resolver coisa alguma. Se Deus está a ver tudo isto, só posso imaginar o grau de fadiga divina.
O mundo está no estado em que se encontra porque nós – os humanos – decidimos, com toda a nossa soberba e miopia, trilhar este caminho tortuoso. Somos os únicos arquitetos deste desastre colossal. Os únicos a quem devemos exigir contas. E, no meio deste caos, continuamos a exigir, de forma quase infantil, que Deus apareça como um super-herói celestial para resolver a equação do problema impossível que nós próprios criámos.
Queremos milagres imediatos, soluções rápidas, justiça instantânea – e ao mesmo tempo recusamos mudar sequer um milímetro do nosso comportamento egoísta, irresponsável e preguiçoso. Exigimos que Deus arregace as mangas enquanto nós mantemos as mãos nos bolsos.
Se estivesse no lugar d’Ele, não tirava só férias: desligava o telefone, bloqueava os e-mails, e fazia um retiro espiritual de longa duração – longe deste pandemónio em que nos metemos. Um retiro à prova de noticiários, fake news, gurus do autoconhecimento e influencers da revolução em pantufas.
A única coisa que cresce neste mundo – para além da poluição e da desigualdade – é o ego inflado de quem culpa o divino enquanto ignora o próprio reflexo no espelho.
Deus existe. Mas não é Ele que está a administrar este caos. Somos nós. Somos nós que votamos em políticos que prometem mundos e fundos e depois se afundam no tacho com a mesma voracidade com que o povo engole mentiras. Somos nós que consumimos sem limites, destruímos sem consciência e fechamos os olhos às consequências, como quem tapa os ouvidos ao som ensurdecedor da bomba a rebentar.
Ele não é o bombeiro dos fogos criminosos que nós próprios ateamos, nem o limpador da porcaria que espalhamos.
“E enquanto Ele está longe, que nos levantemos do sofá, que larguemos o telemóvel e que façamos aquilo que é verdadeiramente urgente: assumir, finalmente, a responsabilidade que nos cabe.”
Por isso, deixemos que Deus vá de férias. Que desligue do pandemónio que criámos e que usufrua do sossego que nós, por incompetência, egoísmo e teimosia, não merecemos. E enquanto Ele está longe, que nos levantemos do sofá, que larguemos o telemóvel e que façamos aquilo que é verdadeiramente urgente: assumir, finalmente, a responsabilidade que nos cabe.
Precisamos de acordar. Precisamos de agir.
Hoje ergo-me na escrita, numa crónica de combate, com a esperança urgente de que estas palavras não te sejam indiferentes e penetrem o teu âmago mais recôndito. Que provoquem uma reverberação intensa, que sacudam a poeira da indiferença que, como neblina tóxica, te quer sufocar e apagar essa centelha – essa fagulha mínima, mas invencível, que ainda arde dentro de ti.
Sim, falo contigo, que te encontras paralisado pela exaustão, entorpecido pela rotina cega e pela sensação esmagadora de impotência. Deixa-me recordar-te que essa chama, por mais pequena que pareça, é luz poderosa, capaz de iluminar o caminho da verdadeira mudança.
Hoje, neste instante, escolhe ser a faísca que rompe a escuridão. Escolhe ser o grito que ecoa na noite da inércia. Escolhe – porque só assim, só agindo, conseguirás definir quem és. Definir o futuro que almejas para ti e para os teus.
Faz por ti. Faz por mim. Faz por todos aqueles que se erguem na esperança de criar um futuro melhor, de fazer a diferença.
Precisamos de acordar. Precisamos de agir. E, acima de tudo, precisamos de voltar a acreditar – em nós, no outro, no futuro. Em Deus.
Precisamos que Ele volte a acreditar em nós, também.
Se não for agora, quando? Se não formos nós, quem?
Tic, tac, tic, tac, tic, tac…
- Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!
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