Quando o clima encontra a desigualdade

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Num dia de calor intenso, duas pessoas podem viver experiências completamente diferentes da mesma cidade. Uma regressa a casa ao fim da tarde e fecha a porta atrás de si. O calor lá fora parece distante. Outra termina a mesma viagem cansada, depois de uma deslocação longa e desconfortável, e encontra um apartamento onde o ar permanece pesado mesmo depois do pôr do sol. Ambas vivem na mesma cidade. Mas não vivem a mesma crise climática.

O mesmo acontece quando observamos as condições que tornam essas experiências possíveis. Numa cidade dependente de deslocações longas, quem possui automóvel experimenta o território de forma diferente de quem depende de horários de autocarro, de percursos a pé ou da ajuda de familiares. Quando falamos de habitação, os efeitos da especulação imobiliária não recaem sobre todos da mesma forma. E quando falamos de energia, são geralmente os agregados com menos recursos que vivem nas casas menos eficientes e mais vulneráveis às ondas de calor ou ao aumento dos custos energéticos.

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À primeira vista, parecem problemas distintos. Talvez não sejam. A crise climática não cria todas as desigualdades. Mas amplifica quase todas elas.

Durante muito tempo, a questão climática foi apresentada sobretudo como um problema ambiental: fontes de energia alternativas ou metas de descarbonização. Tudo isso continua a ser importante. Mas essa abordagem torna-se insuficiente quando esquecemos que os impactos das crises ecológicas são vividos por pessoas concretas, em territórios concretos e com recursos muito diferentes para enfrentar as transformações em curso.

“Quando um idoso enfrenta uma vaga de calor numa casa mal isolada, existe uma dimensão climática.”

Quando uma criança perde autonomia porque a cidade foi organizada em torno de deslocações motorizadas, existe uma dimensão climática. Quando uma família é obrigada a afastar-se do centro porque já não consegue pagar a habitação, existe uma dimensão climática. Quando um idoso enfrenta uma vaga de calor numa casa mal isolada, existe uma dimensão climática. E quando uma comunidade rural vê o seu território transformado sem participação efetiva nas decisões, existe também uma dimensão climática.

É por isso que o conceito de justiça climática tem vindo a ganhar importância. Não porque substitua a preocupação ambiental, mas porque a completa.

A justiça climática parte de uma constatação simples: os problemas ecológicos não atingem todas as pessoas da mesma forma. Quem tem menos rendimentos, menos acesso a serviços públicos, menor capacidade de influenciar decisões ou menor controlo sobre o território tende também a suportar uma parte maior dos custos das crises ambientais.

Nas cidades, isso manifesta-se através da habitação precária, da dependência energética, da poluição atmosférica, da escassez de espaços verdes ou da necessidade de deslocações cada vez mais longas. Nos territórios rurais, surge sob a forma de incêndios, perda de biodiversidade, desaparecimento de serviços públicos ou imposição de grandes projetos sem participação adequada das populações locais.

Em ambos os casos encontramos a mesma questão de fundo. Quem decide? E quem suporta as consequências? Talvez por isso a justiça climática seja também uma questão democrática.

As transformações necessárias para responder à crise ecológica não podem ser definidas apenas por especialistas, governos ou interesses económicos. Precisam igualmente da participação das comunidades afetadas, dos cidadãos que vivem os problemas no quotidiano e dos territórios que suportam os seus impactos.

Ao longo destas crónicas falei de mobilidade, habitação, energia e vida urbana. Parece-me claro que todos esses temas conduzem à mesma pergunta: como construir cidades e territórios capazes de responder às crises ecológicas sem aprofundar desigualdades já existentes?

Talvez seja precisamente essa a conversa que precisamos de ter. Não apenas sobre o ambiente que queremos preservar, mas também sobre a sociedade que queremos construir.

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