
Amar o próximo…
Já te disseram para fazer isso, não foi? É uma lição moral que atravessa séculos, religiões e culturas, como se fosse uma fórmula mágica para garantir a paz mundial, sobreviver ao trânsito infernal do dia-a-dia, ou impedir que enlouqueças quando os teus vizinhos idiotas fazem barulho até altas horas da noite.
Parece uma verdade absoluta, uma máxima cristalina, um mantra dourado para a convivência pacífica. E, de facto, é. Mas, como quase tudo na vida, quando escavamos um pouco mais fundo, percebemos que o assunto é mais complexo, mais rico – e até mais divertido – do que uma simples frase bonita.
Amar o próximo é um ideal nobre, mas na prática é uma tarefa árdua. E, ainda mais árduo, é amar o próximo sem qualquer moderação. Amar o outro “com tudo o que temos” soa quase divino, mas para além de ser poesia, é uma receita certa para nos transformarmos em mártires do quotidiano, vítimas de um amor desgovernado e, muitas vezes, doentio.
O chamado “próximo” nem sempre é um ser iluminado, com dois dedos de sensatez bem estampados na testa. Na maior parte das vezes, é uma criatura cheia de complexidades capazes de nos provocar dores de cabeça só de pensar. O “próximo” sorri-te, claro – pelo menos enquanto o vês através de lentes cor-de-rosa, que te fazem distribuir amor sem qualquer tipo de filtro – mas, no seu interior, tem uma lista mental de pequenos hábitos capazes de te tirar do sério, como bloquear a porta do elevador com a bicicleta, esquecer-se de lavar as mãos depois de usar a casa de banho, etc.
Na vida real, amar o próximo implica, antes de mais, sobrevivência psicológica. Amar com moderação significa saber onde fica a linha entre o altruísmo e a auto preservação. Porque não há santo que aguente um sofrimento contínuo sem desenvolver cinismo.
O amor moderado é um amor inteligente, seletivo, quase como um contrato de prestação de serviços com cláusulas de rescisão. É saber que amar não significa abdicar de si próprio nem abrir mão da própria dignidade para que o outro se sinta melhor. É a delicada arte de amar, mas também de dizer “não, hoje não”, “não, não vou tolerar esta situação”, “não, não sou saco de pancada emocional”.
“Amar com moderação é um ato de coragem e lucidez, uma forma de resistência contra o narcisismo doentio do mundo que nos quer “bons” a todo o custo, até à exaustão.”
Este modus operandi equilibrado rejeita a ideia romântica do amor universal e incondicional, que tantas vezes serve de pretexto para a exploração, o aproveitamento e a passividade moral. Amar com moderação é um ato de coragem e lucidez, uma forma de resistência contra o narcisismo doentio do mundo que nos quer “bons” a todo o custo, até à exaustão.
Então, e se eu me recusar a amar até à exaustão? Serei eu menos merecedor aos olhos do Senhor?
Talvez sim, talvez não… mas tenho a convicção de que amar o próximo não pode ser uma obrigação inflexível que nos transforma em mártires da bondade. Se assim fosse, o mundo estaria cheio de santos, mas também cheio de pessoas esgotadas, deprimidas e à procura de um outro tipo de salvação.
Não me culpo por tentar ser ponderado. Reconheço que o amor é um recurso finito e que amar de forma ponderada não é pecado, mas antes um ato de coragem.
Ama o próximo, sim, mas com moderação.
Ama o teu vizinho, o colega irritante, o familiar exigente, mas não à custa da tua sanidade. Porque, no fundo, no fundo, o amor com moderação não é uma falha moral – é uma demonstração de inteligência emocional e de sobrevivência humana.
Por outro lado, ninguém imagina o bem que me faz à alma, de vez em quando, pôr a minha playlist de hardcore metal a tocar, com a coluna aos berros estrategicamente virada para o meu estimado vizinho. Eu sei que sofro… mas também sei que o sacana sofre mais do que eu! Talvez seja por isso que o adoro. Ou o tolere… quem sabe até o ame – sobretudo se me garantirem que isso me há de valer um bilhete direto para o Céu quando já cá não estiver.
- Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!
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