Filipe Correia: “Pedi muitas vezes para morrer”

Esteve 75 dias em coma, acordou em plena pandemia com “astronautas” em redor. A sua vida nesses dois meses e meio daria um filme, dramático com final feliz.


Recuemos ao Natal de 2019. Sem máscaras nem desinfectantes à entrada dos estabelecimentos que de portas abertas esperavam as habituais enchentes. Através da televisão chegava-nos a notícia de um vírus numa cidade chinesa que nunca ouvíramos falar. Éramos, todos, felizes e não sabíamos.

Filipe Correia, de 45 anos, modelador de calçado, viajou para a Suíça com a namorada onde passou as festividades sem zaragatoas mas com ajuntamentos.

Voltou constipado. “Na altura, até dizia aos meus amigos, estive nos Alpes com tanto frio e senti-me sempre bem, agora ao chegar a Guimarães apanhei uma valente constipação”. Mas, Filipe não estava só constipado. O anti-histamínico receitado pelo médico de família não foi suficiente. Nem o antibiótico na primeira ida às urgências ou a medicação seguinte na segunda vez que recorreu ao hospital. Numa semana, os sintomas agravaram-se, “sentia-me constipado e com muita falta de ar, mas tentei sempre reagir e confiei nos médicos, mandaram-me embora tratando o caso como uma simples constipação, mas uma semana depois estava a lutar pela vida”.

Com o seu estado geral cada vez pior e com ameaças de desfalecimento foi a companheira que chamou o INEM. Entrou no hospital de Guimarães, no dia 11 de Fevereiro. A médica de serviço na urgência disse-lhe: “o senhor vai dormir um bocadinho”. Filipe Correia acordou a 24 de Abril, 75 dias depois.

Não foi a covid-19 que o apanhou. O vírus que o atirou para o piso 6 do Hospital de S. João entre a vida e a morte foi o H1N1. Recorda-se da Gripe das Aves? Foi reportada em 214 países até Agosto de 2010, altura em que a OMS declarou o fim da pandemia. Estima-se que terá matado 15 vezes mais do que o divulgado.

Filipe não tinha patologias associadas. É jovem, activo, praticante de desporto. Não encontra respostas para quase ter morrido.

Doente que mais tempo esteve ligado à ECMO

© Revista Portuguesa de Cardiologia

A 11 de Fevereiro, quando deu entrada no Hospital Senhora da Oliveira, foi transferido para Braga já em coma induzido e dali, por insuficiência de recursos, para o S. João. Naquela unidade de cuidados intensivos sob a coordenação do intensivista Roberto Roncon pioneiro em Portugal na utilização da técnica que a pandemia tornou agora famosa, a Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO), o vimaranense foi o que esteve mais tempo ligado a este suporte de vida.

A 24 de Abril, após várias tentativas de desmame, a equipa médica atreveu-se a despertá-lo do coma. Foi como submergir após várias horas debaixo de água, “só ouvia tenha calma, tenha calma enquanto olhava em volta e via pessoas vestidas de astronautas, muito barulho, não entendia nada do que se passava à minha volta, parecia que estava dentro de um filme. Não conseguia falar, vomitei dias a fio, não me conseguia mexer”, conta.

Filipe resistiu. Sobreviveu um bocadinho mais a cada dia. Contaram-lhe do vírus que tinha ouvido falar nas notícias. Afinal chegou a Portugal e confinou os portugueses e essa era também a razão porque só via o suor na testa dos médicos e não os seus rostos. Ensinaram-lhe o que representava o estado de emergência e porque não podia receber visitas.

Todos os dias, à mesma hora, o hospital ligava para o seu irmão. Do outro lado da linha o discurso mantinha-se, “sem esperanças, mas um dia de cada vez”. No entanto, dias houve, já consciente, que Filipe quis morrer, “por causa de um acidente, eu já conhecia a realidade de um hospital, sabia o que era acordar de uma anestesia, mas o que eu vivi no S. João foi de uma violência que não consigo descrever. Aqueles apitos constantes das máquinas, os sons contínuos que sinalizavam a morte, foram noites sem dormir. Pedi muitas vezes para morrer”, relata emocionado.

Mas viveu, um bocadinho mais a cada dia e acabou transferido para os cuidados intensivos de Guimarães e posteriormente para a enfermaria. Foi no CHAA que reaprendeu a falar, “disse Romeu, que é o nome de um enfermeiro que cuidava de mim, não tem noção a festa que foi e a verdade é que nada naquelas circunstâncias era motivo para festejar, mexer uma perna, mover os dedos…”

“Bem vindo à sua segunda vida”, disse-lhe Roberto Roncon

© GA!

“Tenho consultas de psiquiatria e saúde mental e brevemente vou começar psicologia. Tenho medo, não durmo bem, aqueles sons ainda permanecem audíveis…”

Depois da alta hospitalar Filipe Correia esteve mais um mês no Centro de Reabilitação do Norte. Lá reaprendeu tudo e entendeu as palavras do médico Roberto Roncon aquando da despedida, “bem vindo à sua segunda vida”. Nem todos terão tamanha oportunidade depois de “levar uma trombada de 20 camiões TIR”, mas Filipe, o sobrevivente, é também herói. Um ano depois do coma é visível uma recuperação quase a 100%, apesar das sequelas, mas principalmente do trauma, “tenho consultas de psiquiatria e saúde mental e brevemente vou começar psicologia. Tenho medo, não durmo bem, aqueles sons ainda permanecem audíveis” e não fora já suficiente, após o regresso a casa, em Junho do ano passado, viu a mãe ser diagnosticada com um tumor cerebral e o pai com Parkinson.

Filipe Correia, nascido e criado no bairro Leão XIII, onde destaca a solidariedade do Fernando Gonçalves e da Carla Pinto tem mãos que criam. São sapatos únicos, feitos por medida, exclusivos. Modelador de calçado de profissão lançou recentemente a sua marca a Castlee Footwear cuja doença interrompeu o seu desenvolvimento. Esta é uma história com um final feliz, como os bons filmes de antigamente. Fala de superação. Não estranharemos quando num futuro próximo virmos a Castlee Footwear espalhar-se com a rapidez de um vírus qualquer.

© 2021 Guimarães, agora!


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