Paulo Branco
Mergulhado mais de duas décadas no urbanismo e arquitectura, acostumou-se a reflectir sobre a organização humana e os seus efeitos em muitos sítios e cidades, alguns Países, e num único planeta que reclama uma mudança profunda de comportamentos. Amante da leitura e da música, acredita (ingenuamente) que o progresso assenta no desenvolvimento cultural e espiritual do indivíduo e das sociedades esperando que um dia o trabalho seja verdadeiramente libertador e a harmonização entre pessoas e o meio artificial e natural constituam a maior fonte de equilíbrio e felicidade.

Ó mãe, foi ele…

Ao fim de quase um ano de tormenta, contínuas oscilações entre esperança e desalento levam-nos a um estado de decepção que as árvores despidas, os parques e jardins inacessíveis bem retratam. Por todo o lado, parece estender-se uma neblina a turbar a vista canalizando as forças para o cumprimento maquinal das obrigações diárias, para a ração de novelas e notícias tristes que tolhem os raciocínios sobre para quando o fim deste purgatório.

Nós, os velhos cidadãos do mundo, “que passamos ainda além da Taprobana, (…), Mais do que prometia a força humana”, estamos confinados numa espécie de pequenez intolerante; choramos os mortos, lamentamos os entrevados, “sequestramos” em casa os nossos queridos, agradecendo, à providência, pelas “forças especiais” de saúde que se esfalfam para reduzir os efeitos dos tempos…e das negligências.

A Cidade “é geralmente uma dada entidade político-administrativa urbanizada”, diz-nos a Wikipédia. Composta por vias estruturantes, fundamentais para as conexões interurbanas e com o denominado campo, a cidade é um conjunto complexo de artérias, órgãos (praças, jardins, equipamentos) e uma “cabeça” que, se deixarmos, poderá ser o poder político-administrativo que decide por nós. Ou, se ousarmos querer mais, a cidade poderá ser o espaço corpóreo, anímico e espiritual onde TODOS participam e se co-responsabilizam por uma melhor gestão e funcionamento.

Da Acrópole (onde se elevam e enobrecem os valores), da Polis (espaço de cultura e discussão política) e da Khora, (espaço exterior, sustentáculo da sobrevivência física), legaram-nos os gregos uma fórmula que (pese embora a mão-de-obra escrava), permitia aos cidadãos espaço e tempo para uma cidadania participativa.

Não se diga porém que os cansados cidadãos se demitiram do direito à crítica mordaz, ao apontar do dedo, à identificação clara e inequívoca dos culpados…

Hoje os tempos são outros! Supostamente não há escravos (..?) que nos libertem tempo para o responsável exercício de uma cidadania informada e construtiva da Urbe (cidade) e da Orbe (Mundo). Sim, pouco tempo nos resta depois do trabalho, dos filhos, do futebol e das redes-sociais (por esta ordem?) e, na verdade, quem manda é pago para isso… Não se diga porém que os cansados cidadãos se demitiram do direito à crítica mordaz, ao apontar do dedo, à identificação clara e inequívoca dos culpados – políticos (corruptos), decisores (incompetentes), directores (ignorantes), sem dúvida pessoas falíveis que nunca deveriam deter os seus cargos – estes, estão debaixo da mira. Pois!

Tendendo a concordar existirem sucessivas falhas no Sistema (que pode, deve, ser aperfeiçoado) nós, cidadãos desta cidade e deste mundo, podíamos fazer um pouco mais começando por nós (sim, nós), o dever de “infalibilidade” que gostaríamos de ver nos outros. Mas, não! Preferimos o murmúrio, a censura de sofá ou, então, a mistura, passear o gato, laurear-nos em passeios-alegres deixando a peste para os mais velhos – alguém cuidará disso.

Ah, e já agora, feche-se e abra-se tudo, em simultâneo, em dias alternados, consoante os humores da turba até porque, se correr mal…Ó mãe, foi ele.

© 2021 Guimarães, agora!


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