Paulo Branco
Mergulhado mais de duas décadas no urbanismo e arquitectura, acostumou-se a reflectir sobre a organização humana e os seus efeitos em muitos sítios e cidades, alguns Países, e num único planeta que reclama uma mudança profunda de comportamentos. Amante da leitura e da música, acredita (ingenuamente) que o progresso assenta no desenvolvimento cultural e espiritual do indivíduo e das sociedades esperando que um dia o trabalho seja verdadeiramente libertador e a harmonização entre pessoas e o meio artificial e natural constituam a maior fonte de equilíbrio e felicidade.

Genius Loci

Na consulta a um oráculo sobre a cidade de Eudóxia, e a misteriosa representação da sua planta numa tapeçaria, o “responso” foi o de que todas as realizações humanas tem como modelo a forma que os deuses deram ao céu estrelado e às orbitas em que giram os mundos – esse modelo que o homem tenta imprimir ás coisas é apenas um reflexo aproximado, como todas as coisas humanas (in Ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis).

A Cidade não é a mera aglomeração ordenada de edifícios e lugares, sustentáculo de vida e bulício social. Não é também apenas o espaço-base onde se concentram os meios de produção e a força de trabalho; para além da posição de previlégio no território, a Cidade afirma-se como Lugar, palco de acontecimentos e Cultura, onde o Tempo deixa as marcas das arquiteturas, dos espaços “naturalizados” e dos episódios e personagens impactantes no desenvolvimento civilizacional. Neste sentido a Cidade, como devir histórico, detêm o denominado genius loci, o espírito que lhe confere a diferença e a eleva acima das meras realizações materiais. Com o advento da industrialização, a cidade mecaniza-se, esvazia o campo, atafulha-se de gente, oferecendo oportunidades (e miséria), liberdade e tensões sociais, bem-estar e insalubridade. Todas estas cidades “hipertensas”, hoje rodeadas de largos aneís de periferização com os seus bairros-jardim, guetos e favelas, são o centro da vida política e das politicas territoriais absorvendo, vorazmente, tudo à sua volta num turbilhão irrespirável que poderá envolver, já em 2050, 2/3 dos previsíveis 10 biliões de habitantes do planeta; 1 bilião não terá acesso regular a água potável.

Nós por cá, com a retoma da empregabilidade e a requalificação das áreas apelativas ao sentimento nostálgico, vamos turisticamente reocupando e engordando as cidades, pejando-as de veículos e despojando-as dos seus habitantes tradicionais, empalidecendo paulatinamente o seu carácter identitário (que atraiu o turismo…).

Enquanto isto, à volta, os “Bairros da Jamaica” demonstram os desiquilíbrios de uma sociedade de redes-sociais e que apenas encontrará a “redenção” na promoção da educação, da cidadania e da noção de bem-comum, pilares-base da coesão social e territorial. Na verdade os discursos sobre a cidade passam hoje, não tanto por utopias ou transmutações repentinas mas, sobretudo, pela recuperação da sua carga simbólica e pela dignificação da pessoa humana numa correlação onde urbano, suburbano, lugares, vales e montanhas possam conhecer justa avaliação enquanto suportes dignos e complementares do desenvolvimento. Como pretende Norberg-Schulze quando afirma: a humanidade não pode desenvolver-se num qualquer lugar, mas num sistema de lugares com alma e espírito, assim deve constituir-se a escolha do sítio onde vivemos como aposta não apenas no pragmatismo básico do sustentáculo à vida mas como elemento de interactividades, tradições e conciliações com a história e o vasto território. Assim permitam os deuses.

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