Paulo César Gonçalves
Nasceu em Guimarães, voltado para o Castelo da Fundação, e, até ver, está vivo.

As elites xixi de cão e o (respectivo) cancelamento geracional

Fenómenos como os de André Ventura não devem ser cancelados: têm de ser combatidos, expostos perante o espelho da fraude e do reflexo da pobreza de espírito. O verdadeiro problema é que um combate destes obriga a anos de dedicação a um programa que urge verdadeiramente cumprir: o da democracia plena.

Não faltam, em Portugal, resquícios de outros tempos, uma mistura beata das piores práticas monárquicas com o torpor intelectual do estado novo/ditadura militar: parte da sociedade portuguesa continua mergulhada no tratamento classista, no servilismo, na deferência exclusiva a determinadas castas, na vénia à cátedra ou na endogamia (a vários níveis), afastando o grosso da população do restrito círculo do privilégio.

As nossas elites, a que chamo as “xixi de cão”, costumam despejar vulgaridades e culpas para cima dos gentios, selvagens incultos que não lêem nem querem saber mais…

Para combater esta evidência, as nossas elites, a que chamo as “xixi de cão”, costumam despejar vulgaridades e culpas para cima dos gentios, selvagens incultos que não lêem nem querem saber mais, abençoados com uma vida de sacrifício como Deus Nosso Senhor quis ou quer, apartados ou iludidos pelo chamariz de um qualquer fala-barato.

As nossas elites “xixi de cão”, termo que vou buscar à costumeira prática canídea de delimitar território pela arte de alçar a pata e verter urina, que agem como se não fossem privilegiadas (nem o soubessem), são as principais culpadas, mas fazem de conta, por vezes com indignação à mistura, que combatem a sanha, acenando com a fantasiosa “igualdade de oportunidades”.

Não é de agora: são as rodinhas fechadas, as discussões “inter pares”, as “torres de marfim”, o acesso exclusivo a determinados “métiers”, os favores de classe, os privilégios por encomenda e até o aparentemente inofensivo emparelhamento da prole pelas turmas “a, b ou c”, num exercício que terá substituído, não de forma muito sofisticada, assinale-se, uma interacção selectiva demasiado notória.

Escrevia mais em cima a questão da leitura, porque julgo que apesar dos inegáveis progressos, o livro continua a ser um objecto sacralizado (da pior forma), parecendo, a muitos espaços, mais um direito sucedâneo de raiz classista do que uma conquista democrática.

É por tudo isto, mas não apenas, não duvidem, que um xico-esperto como Ventura consegue enfiar-se nos buracos da democracia: é um pescador nos charcos da ignorância que outros, com responsabilidades, apostando na política de conforto para os seus (sejam família, amigos ou classe), ajudam a perpetuar.

Vem-me à cabeça uma citação de Umberto Eco, que não sendo português, reforça a minha ideia de que haverá, se calhar nos povos mediterrânicos, uma noção de classe que se opõe, mesmo que não de forma reconhecida, ao sentido da democracia total: quando o autor italiano afirmou que a exponencialidade das redes sociais elevou o “idiota de aldeia a portador da verdade” passou a ideia, talvez não de forma deliberada, que o conhecimento é coutada de uns quantos iluminados. E isto ajuda a revelar quase tudo.

Ouvimos, lemos e vemos que tem acontecido, amiúde, algo a que agora se designa por “política de cancelamento”, termo usado em referência a um qualquer tipo de atitude censurável, visando uma ou mais pessoas. A verdade, crua, nua e dura, é que o cancelamento há muito que se imiscuiu nas nossas práticas civilizacionais, e ignorar isto é ser, no mínimo, hipócrita: há um cancelamento geracional que deixa para trás, ou de lado, milhões de pessoas, e ainda se encontra justificação para legitimar tais procedimentos.

Até quando? Até quando se combaterá apenas o efeito e nunca a causa?

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