Paulo Branco
Mergulhado mais de duas décadas no urbanismo e arquitectura, acostumou-se a reflectir sobre a organização humana e os seus efeitos em muitos sítios e cidades, alguns Países, e num único planeta que reclama uma mudança profunda de comportamentos. Amante da leitura e da música, acredita (ingenuamente) que o progresso assenta no desenvolvimento cultural e espiritual do indivíduo e das sociedades esperando que um dia o trabalho seja verdadeiramente libertador e a harmonização entre pessoas e o meio artificial e natural constituam a maior fonte de equilíbrio e felicidade.

A ordem das coisas

Esta crise apanhou-nos desprevenidos! Apesar das negligências e assimetrias de um mundo que corre contra o tempo, nada faria supor que as redentoras ciências e tecnologias não previssem, ou resolvessem de imediato, qualquer surto maligno que pusesse em causa a ordem das coisas. No meio do turbilhão, e de teorias da conspiração (que denunciam), coros catastrofistas (que profetizam), e chorrilhos de epifanias (que relativizam), introduz-se a perplexidade com peregrinas exclamações do tipo – não estão a ver as vantagens da coisa?

Independentemente do ramalhete de cenários do antes e do depois, batalhões de comentadores e políticos, mais ou menos representativos da ordem das coisas, exibem numa singela frase um ramalhete informe e furta-cores do nosso futuro – nada será igual! Porquê? Na longínqua década de 1960, cansados da ditadura do funcionalismo, das ameaças à paz e das máquinas de viver para o homem-padrão, o movimento hippie celebrava uma época dourada de liberdade e equilíbrio com a natureza, um novo começo que a Age of Aquarius parecia prometer.

Simultaneamente (1969), o mais prosaico Club of Rome, na Blueprint para a sobrevivência e os limites do crescimento, profetizava que as mudanças na industrialização, produção de alimentos e poluição nos conduziriam a uma catástrofe no século XXI; seguir-se-iam, em 1972, a conferência de Estocolmo das Nações Unidas sobre o ambiente urbano – que apresentava condicionantes ao modelo tradicional de crescimento impulsionado pela produção e consumo – e, em 1982, o Relatório Brundtland cujo trinómio sociedade, economia, ambiente adquire, na Carta de Aalborg (após Quioto), o corpo definitivo e a obrigatoriedade da participação das comunidades locais e a obtenção de consensos alargados para a salvação do planeta.

“Eis-nos hoje convictos que, após uns tantos meses de pandemia, uma vacina nos introduzirá numa nova Era Civilizacional, digital, virtual…”

A economia circular, a equidade social, o controle demográfico, o correcto ordenamento do território, uma nova mobilidade, especiais cuidados com o clima e a conservação da natureza são pois resultado de três décadas de boas intensões cujo resultado, infelizmente, conhecemos. Muitas mais conferências, reuniões, decisões e tratados se seguiriam até ao (des)Acordo de Paris e eis-nos hoje convictos que, após uns tantos meses de pandemia, uma vacina nos introduzirá numa nova Era Civilizacional, digital, virtual, refrescada sem qualquer necessidade de alteração dos paradigmas consumistas, etnocêntricos, geoestratégicos.

Creio que a ordem das coisas não se alterará por decreto ou meras intensões mas apenas – como aprendi ainda na Faculdade – quando TODOS nos cultivarmos e, definitivamente, entendermos as vantagens sanitárias e económicas da harmonização internacional, social e ambiental. Aí, talvez, o mundo refreie a sua ânsia e hábitos despertando para uma nova Era em que as crianças sobrevivam nas Sírias, as aves pousem nas Shangais, os peixes voltem aos Yamunas e as Amazónias sejam sucessos de reflorestação. Até lá, a ordem das coisas mostra-nos milhões de máscaras sanitárias a dar à costa.

© 2020 Guimarães, agora!

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