Afirmar Guimarães como centro de criação e produção

Acolher menos (de fora) e aproveitar mais a prata da casa

Juntam-se em bando, desde Setembro de 2016, para criar peças de teatro fazendo emergir a vertente da produção própria local, em matéria de cultura, dos homens e mulheres do teatro em Guimarães.

Ao todo, são 76 artistas que se inscreveram no projecto que guarda memórias e produz teatro. À sombra d’A Oficina, este grupo mostra-se através das suas produções teatrais e das performances que evidenciam as suas criações, vincando que por aqui e por cá não se mostra ou exibe o que é dos outros e vem de fora.

Lá no fundo, das suas intenções, o desejo é materializar o seu projecto de criação artística na cidade, qual centro onde se aglutinam homens e mulheres das artes, com a capacidade de produzir e apresentar espectáculos de forma regular e constante, elevando a criatividade local.

João Pedro Vaz – que dirige o Teatro Oficina, quer ser mais do que o “artista” que dinamiza a companhia de teatro. E desafia todos quantos podem dar o seu contributo na produção própria e local para a incluir numa agenda, a par, com a programação cultural que vem de fora e que evidencia, o que de melhor se faz em Portugal e no mundo.

A ideia já foi materializada com a apresentação da peça “Teatro da Alma”, em 2017 – quando se festejaram os 150 anos do nascimento de Raúl Brandão. Depois, nos Festivais de Gil Vicente, a mesma experiência repetiu-se fazendo conviver profissionais e amadores do teatro.

E o grupo que virou “gangue” viu acreditada a sua competência e independência e tem como meta, a partir de 2020, integrar tudo o que fizer na programa da Oficina.

E os seus projectos passam a estar contemplados com bolsas até 2021, recebendo os apoios previstos no Regulamento de Apoio à Criação Territorial. A encenadora e dramaturga Manuela Ferreira vai produzir quatro: Jantar de Turma, Luz, Ekphraris e (In)comum. São encenações que procuram cruzar o teatro com outras linguagens, logo colocando o texto escrito em lugar de menor relevância e permitindo que a imaginação esteja em primeiro lugar.

Trabalhar com o “gangue” é para Manuela Ferreira uma oportunidade de viver com a memória e recolher testemunhos da cidade onde vive há 13 anos. E sobretudo adquirir um outro olhar da criação artística proveniente da interacção com os artistas e com outros processos de trabalho. Mas fundamentalmente fazer com que Guimarães seja um centro criativo, com a sua própria comunidade artística, uma oportunidade afinal virada para o aproveitamento e desenvolvimento do talento local. Também por aqui se inverte a lógica subjacente à programação cultural que prioriza e privilegia o que vem de fora e não aproveitando o que se pode fazer cá dentro.

Foi com esta filosofia que Manuela Ferreira concebeu “Do Avesso”, a primeira perfomance desta companhia teatral alargada, uma obra apresentada em espaços onde nunca se fez fez nenhum espectáculo e inspirada em pessoas comuns, com funções na contabilidade, limpeza e segurança, assumindo o risco de representar em espaços aparentemente destinados apenas aos artistas.

Na mesma linha, Manuela Ferreira, produziu “Arquivo Público” baseada em experiências em torno do Teatro Oficina, e das memórias dos espectadores, que acompanharam as produções da companhia no último quatro de século.

Foi a 30 de Março que a obra foi apresentada, tendo como actores Carlos Correira e Luísa Maria Oliveira, celebrando-se assim a memória do Teatro Oficina.

Há mais produções na agenda deste grupo alargado de artistas, até 2021. Em cima do palco, vão estar outras a propostas de Tânia Dinis, criadora de “Linha de Montagem” recentemente apresentada, duas propostas de Gil Mac e uma de Rita Morais – que regressou à cidade depois de uma temporada em Lisboa. Rita – também bailarina – vai encenar no “Arquivo presente” jantares perfomativos com outros artistas, numa representação à mesa.

“Temos dado atenção aos criadores do território” – João Pedro Vaz director artístico da Oficina

O que é o “Gangue de Guimarães”?

É um mapa de artistas de artes performativas (teatro e dança) que têm ou tiveram uma relação profunda com Guimarães. Há nascidos cá que estão fora, artistas de fora que vivem cá, tudo profissionais (com excepção dos dramaturgos, por razões óbvias).

Quem o integra?

Neste momento 76 artistas profissionais ou em vias de profissionalização: encenadores, atores e atrizes, coreógrafos, bailarinos, mas também criativos (cenógrafos e figurinistas, músicos que tenham trabalhado em teatro ou dança). E alguns dramaturgos (aqui aceitaram-se profissionais de outras áreas porque a escrita para teatro, infelizmente, não é uma profissão em Portugal).

Porque foi formado e para quê?

Pela vontade do Teatro Oficina em conhecer melhor a realidade artística local, os profissionais da área e chamá-los à sua programação, contribuindo para a sua afirmação. De algum modo, o Gangue é, desde 2017, o elenco do Teatro Oficina.

O que tem feito, e o que se propõe fazer?

Desde que começou que há chamadas regulares para audições, formadores, bolsas de criação e programas de residências artísticas. Logo em 2018 tivemos 14 destes artistas a colaborar connosco, em 2019 foram 15 e é possível continuar assim. Por causa desse sucesso, lançámos um programa maior, Artista no Centro, que vai fazer-nos acompanhar alguns deles até 2021. Aliás, a programação do Teatro Oficina de 2020 e 2021 será integralmente feita com artistas do Gangue, há qualidade para isso. Assim também se reforça o equilíbrio, na programação d’A Oficina, entre artistas de cá e projetos de outros lugares.

A sua área é o Teatro apenas?

Para já Teatro, Dança, mas também performance e outras linguagens mais misturadas das chamadas artes de palco.

Qual a sua relação com o Teatro da Oficina?

O Teatro Oficina é que criou o Gangue, que acaba por ser, informalmente, o elenco atual da Cia de Teatro de Guimarães.

O que assinala de mais importante neste contexto?

Acho importante assinalar a crescente atenção que o Teatro Oficina tem dado aos criadores do território. O Gangue é um desses projetos que é uma oportunidade de afirmação do trabalho deles. Abrimos um verdadeiro PACT (Programa de Apoio à Criação Territorial) com estes artistas, mas também com linhas reforçadas de apoio aos grupos de amadores e com os clubes de teatro nas escolas. Temos também um projeto de apoio aos alunos da Licenciatura em Teatro da Universidade do Minho, o LAB’UM. Na área do teatro, já fazemos o pleno. Mas há projetos na área da música já há alguns anos, o Som de Guimarães e o Musicadoria com as promotoras locais. Estamos mesmo a trabalhar para contaminar toda A Oficina com esta lógica de atenção à criação local. Isto sem nunca fechar A Oficina ao mundo; se nos fecharmos sobre nós próprios, Guimarães deixa de ser uma capital cultural.

© 2019 Guimarães, agora!

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