Vânia Dias da Silva e a falta de vias que afectam a Mobilidade
As sessões públicas de apresentação da versão preliminar do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) começam amanhã, Sexta-feira – para empresas e instituições – e no Sábado – para a sociedade civil – no Laboratório da Paisagem, entre as 10h00 e as 17h00.
Entretanto, a vereadora com o pelouro da Mobilidade dá conta do pensamento do actual executivo, presidido por Ricardo Araújo, sobre o que já fez e quer fazer, numa das áreas mais críticas da gestão da cidade: a Mobilidade.
E considera que:
- O PMUS será o documento orientador de todas as medidas de política a implementar pela Câmara, sob a influência da coligação ‘Juntos por Guimarães’, e no qual Ricardo Araújo aposta fortemente para resolver constrangimentos eternos da cidade histórica, alvo de medidas avulsas, definidor e que aponte soluções claras para as questões da mobilidade na cidade. Um plano que será mais do que isso, financiado pelo BEI – Banco Europeu de Investimento, no qual se envolverão 11 consultores, de várias especialidades;
- A falta de investimento nas vias municipais é fatal para o desenvolvimento actual do centro urbano e da sua periferia, onde se perderam oportunidades de financiamento para criar novas vias, numa cidade que fez “obras de arranjo sem cuidar da mobilidade”, e onde se fizeram “ruas onde não cabem autocarros que têm que andar por cima de passeios”;
- Acredita que em Janeiro de 2027 já estará resolvida a renovação da concessão do transporte público à Guimabus para se poder implementar o transporte público gratuito, no concelho;
- O acesso ao Centro Histórico pode passar a ser apenas possível para os moradores.
Que dificuldades é que encontrou na área da Mobilidade que os vimaranenses não saibam?
Infelizmente, os vimaranenses vivem o drama diário da falta de acessos rápidos que permitam a sua circulação sem demoras excessivas, de um lado para o outro da cidade e do concelho. Diria que tudo está condicionado e congestionado, nas entradas e saídas da cidade para Norte ou para Sul, para Este ou Oeste. Este é um problema crónico, com décadas, e muito difícil de resolver, por sucessivos adiamentos sem um plano que se vá aplicando ao longo de mandatos autárquicos e de anos. Um plano que responda aos conflitos que geram montes de carros alinhados em fila em todos os pontos cardeais do centro da cidade.
Não se investiu minimamente em Mobilidade em Guimarães?
Não foi claramente uma aposta dos executivos anteriores e isso está à vista de todos. Vê-se a olho nu e não é preciso termos um especialista em mobilidade para nos fazer constatar aquilo que nós todos sofremos na pele todos os dias. Perderam-se oportunidades de financiamento, ao contrário de outras cidades em que o poder central apoiou. E não fôra, a circular urbana – não concluída enquanto raio exterior à cidade de então – e a variante de Creixomil, na saída da auto-estrada, e tudo ficaria mais entupido. Agora, mudar este panorama rodoviário é um desafio enorme numa área muitíssimo complexa, pelo que é preciso fazer. Nós vivemos numa cidade belíssima, com um centro histórico que temos e queremos preservar e que todos acarinhamos muito. E que, por isso, tem aqui constrangimentos que, não tendo sido há 30 anos acautelados, hoje, causam constrangimentos severos na mobilidade interna no centro da cidade. E depois temos aqui outro problema: o de sucessivamente fazermos obras de arranjo sem cuidarmos das implicações na mobilidade. Há situações tão evidentes como fazermos ruas onde não cabem autocarros que têm que andar por cima de passeios porque simplesmente não passam. Há sítios, novos em que podíamos ter calculado essa circunstância. E ninguém o fez ou se lembrou da necessidade de o fazer. E como eu costumo dizer, e não mordo a língua porque é rigorosamente verdade, os últimos arruamentos que fizemos foram mal dimensionados para aquilo que são as necessidades actuais. Fizemos autênticas pistas de carrinhos… Dou-lhe já o exemplo daquela zona que está a crescer em Silvares, atrás da igreja, onde tem a Decathlon e agora aquela zona grande comercial. É uma área com várias superfícies logo atractivas e muito frequentadas. E o que se vê ali? Um arruamento que já está completamente saturado. Então, ao fim-de-semana está mesmo completamente congestionado e num sentido passa um carro, no outro sentido eventualmente passam dois mas de forma absolutamente acanhada e sem visão.
Então deu-se preferência às “pistas de carrinhos”, como diz, ao invés de investir em avenidas…
Nós não temos grandes avenidas na cidade e nos seus acessos. A Avenida Conde Margaride, é uma excepção, tem um sentido de trânsito e três faixas de rodagem; a Alameda Alfredo Pimenta, tem dois sentidos e quatro faixas de rodagem numa distância curta entre duas rotundas. Na Avenida D. João IV, dois sentidos e duas faixas de rodagem. Ou seja, andar na cidade é uma confusão, em algumas horas do dia. Às plataformas onde circulam, em simultâneo, os autocarros dos transportes públicos, as viaturas, os táxis e outro género de pesados, ainda deixamos permanentemente fazer coisas novas em cima das estradas que já não tinham capacidade para a sua função de escoamento do tráfego e de aligeirar a mobilidade interna. Como a cidade está a crescer no seu coração com novos conjuntos habitacionais, se a Avenida D. João IV já tem constrangimentos a mais, imagine o que será a Avenida D. Afonso Henriques com os seus espaços culturais, com animação permanente a que se vai juntar um complexo habitacional de cerca de mil habitações, com uma população residente a rondar as três, quatro mil ou mais pessoas. O fluxo de trânsito será gigante e não há planeada nenhuma alternativa viária para o efeito, o que é grave.
“Esta opção por um novo PMUS representa, também, a ambição de a coligação ‘Juntos por Guimarães’ encontrar outras soluções para os problemas da cidade, em termos de mobilidade.”
Este executivo a que pertence tem alguma solução para isso?
É difícil agora porque já está tudo concluído. Mas veremos se no Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) que está a ser elaborado contemplará uma solução mais robusta e definidora. É um estudo grande que será apresentado até ao final de 2027. Tem o financiamento do BEI – Banco Europeu de Investimento e abrange uma área maior da cidade. Esta opção por um novo PMUS representa, também, a ambição de a coligação ‘Juntos por Guimarães’ encontrar outras soluções para os problemas da cidade, em termos de mobilidade. Vai para além de um plano integrado que já vinha de trás. Queremos reconverter essa realidade e esperamos que os 11 consultores que cuidarão do PMUS, olhem para os pontos negros da cidade, a partir da ligação a Sul, da auto-estrada, de Pevidém e Ronfe, encontrem até o ‘remédio’ para acabar com a confusão junto do acesso ao Hospital da Senhora da Oliveira. Há ali um ‘cancro’ na circulação viária que esperamos resolver rapidamente.
O casamento, nas vias, dos autocarros com os carros, gera más relações!
Estamos a trabalhar intensamente em perceber onde é que podemos localizar parques de estacionamento periféricos. Alguns já estão localizados e há várias possibilidades, nesta fase de estudo e viabilidade. Evitar que os carros cheguem ao Toural e possam estacionar a montante do centro da cidade pode ser uma solução, oferecendo às pessoas um transporte público para se deslocarem, de modo colectivo. Até a introdução de shuttles, para fazer percursos directos, numa espécie de vai e vem, está a ser estudada. Os parques de estacionamento periféricos – que constam do programa eleitoral de Ricardo Araújo e da coligação ‘Juntos por Guimarães’ – é uma possibilidade que evita a chegada de tantos carros ao centro urbano. Vamos esperar pelas conclusões do projecto ‘Vai e Vem’, implementado na zona do Hospital e o Multiusos, que até agora teve uma média de cerca de 100 passageiros. Também, haverá novas soluções, por exemplo, ao nível da micro logística, um projecto que vamos testar a partir do mercado municipal que abre a possibilidade de as compras ali efectuadas serem transportadas, de modo suave para as casas dos cidadãos. Um serviço que pode alargar-se a mais áreas da cidade e de actividade como o comércio tradicional. Esta ideia consubstancia-se num projecto europeu de micro logística, denominado periASTY, financiado pela EIT Urban Mobility. É um projecto piloto, em curso, que aguarda conclusão e a ideia é replicá-lo – a menos que as conclusões sejam negativas o que não se antevê.
O parque do Centro Comercial Triângulo deixará de existir por várias razões…
Quando cheguei à Câmara tive a preocupação de perceber o que se passava com este parque de estacionamento. O executivo camarário, na altura, denunciou o contrato em 2022, depois de vigorar durante 30 anos, de acordo com o contrato então firmado. Podia ser prorrogado por mais 30 anos mas a Câmara optou por não o fazer. O concessionário recusou-se a aceitar esta realidade, e de 2022 até 2025, continuou a ser utilizado. Percebi que funciona mal até com a entrada pela Rua de São Gonçalo. Com este funcionamento deficiente, a Câmara teria de encontrar a solução mesmo pela via judicial, um parque que pagava uma renda de cinco (5) euros por ano, uma espécie de Parceria Público Privada que não era passível de prorrogação. A Câmara esperou três anos para que o concessionário saísse e deixasse vago o espaço para poder implementar um projecto de fazer de Guimarães uma cidade com menos pressão do veículo automóvel. Agora, aguardamos o desfecho da acção judicial de despejo, intentada contra o concessionário. E já foi definida para aquela zona a instalação da estação do BRT. O estudo prévio permitirá lançar a obra a concurso, planear as expropriações, ou seja gerir toda a fase de preparação antes do início da obra sem qualquer atraso. O essencial é evitar condicionamentos de toda a ordem, articular as nossas ideias com as que venham a surgir dos consultores que estão a elaborar o PMUS.

Entretanto, há medidas que podem avançar como a via segregada, que liga a variante de Creixomil à EN 206, depois da rotunda da auto-estrada…
Finalmente, as indefinições ao nível da Infra-estruturas de Portugal (IP) e do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), acabaram. Resta, a segunda via ao lado da actual variante de Creixomil, que daria à rotunda de Silvares várias saídas, a partir da cidade, para Pevidém e Ronfe, onde a IP já assumiu a sua responsabilidade. E os problemas crónicos, como na rodovia – não resolvido a quando do desnivelamento em Silvares – só podem ter solução a médio e longo prazo.
A negociação da concessão com a Guimabus é outro desafio…
É o desafio maior, em que estamos a trabalhar muito arduamente, há já meses. Foi das primeiras coisas que fiz quando assumi funções. As bases dessa negociação são as que o presidente tem referido: alargar a rede, a frequência dos horários e tornar o transporte público gratuito. Também, ao nível do tarifário, definido por zonas, tende a ser formatado num passe de rede, para se puder andar sem limitações, nos transportes em todo o concelho. As actuais condições dos passes são limitativas. Os estudantes não podem mudar de autocarro entre a sua residência e a escola, para a explicação ou para o treino de uma modalidade desportiva, e isso é terrível porque têm que ter outro passe. É uma coisa bastante incompreensível. Estamos a limar todas estas questões com a Guimabus para puder ter o transporte público generalizado, no início de 2027.
A questão da inter-operabilidade com outras comunidades e concessões de transportes, não tem sido fácil?
Havia a ideia instalada de que a Guimabus teria a exclusividade de circulação no concelho, o que significa perder as carreiras dos transportes inter-urbanos. E nós entendemos que era essencial a inter-operabilidade com as outras comunidades. As ligações a Fafe, a Felgueiras e Vizela ficavam de fora desta inter-operabilidade. E tinham de continuar a existir. E nesse particular não acedemos às pretensões da Guimabus. As negociações voltaram ao ponto zero. E começamos outra fase negocial.
E o que diz a empresa?
A Guimabus diz que está disponível para aceitar um acordo que seja razoável para ambas as partes, como a Câmara está disponível para aceitar um acordo que seja razoável para ambas as partes. Esta concessão já nasceu torta porque não é equilibrada, toda a gente sabe disso. Não é só uma questão de dinheiro. E o que nasce torto, com muita dificuldade, se endireita e endireitar-se completamente talvez não seja possível, mas remendar-se-á seguramente. Um ano depois de iniciarmos este processo, já é tempo suficiente para chegar a acordo. A Guimabus sabe que não temos margem para prolongar as negociações no tempo. E já se mostrou disponível para fazer chegar esta concessão a bom porto. O Município vai impôr aquilo que não conseguir acordar, possivelmente através de reequilíbrios financeiros.
“Não retiro a possibilidade, num futuro próximo, pensarmos em não haver mesmo carros no centro histórico. E essa é uma questão que ainda não está em cima da mesa.”
A circulação no interior da cidade histórica, não a preocupa?
O interior do centro histórico tem um problema. Há um regulamento que diz que, durante a noite e aos fins-de-semana, apenas podem estacionar moradores, que não vem sendo cumprido pelo desvario crónico dos pilaretes que não funcionam. Não vale a pena termos ilusões a esse respeito, já desisti dessa batalha, rapidamente percebi que não valia a pena enfrentá-la. Há muitos anos, o executivo anterior pôs uns pilaretes que impediam o acesso a quem não estivesse autorizado ao interior do centro histórico, só que esses pilaretes foram desligados porque, basicamente, sempre que entrava um carro autorizado, entravam outros não autorizados atrás que estragavam o pilarete e o carro. Temos aqui uma dificuldade imensa, já pedi um estudo e um orçamento para se adoptar outro sistema. A ideia é que, para já, permaneça essa circunstância, ou seja, a interdição de estacionamento de não moradores à noite e durante os fins-de-semana no centro histórico. É essa a intenção mas com um sistema diferente. É disso que estamos à espera, mas, enfim, não retiro a possibilidade, num futuro próximo, pensarmos em não haver mesmo carros no centro histórico. E essa é uma questão que ainda não está em cima da mesa, nós vamos esperar pelos estudos de mobilidade para podermos concluir alguma coisa a esse respeito, eu não quero agora dizer que vamos tirar carros ou pôr carros, porque nós não temos, sem esses estudos, ainda nenhum dado, nem nenhuma base científica, se quiser, para podermos dizer que é possível ou não é possível.
A utilização geral pode deixar de existir…
No centro histórico, designadamente no Largo João Franco, no Largo Condessa do Juncal, poderemos estudar a eventualidade de ele ficar mesmo fechado a não ser a moradores, portanto, ficar fechado a todos e só aberto a moradores. Em todas as horas, podemos eventualmente equacionar essa possibilidade, mas, como digo, neste momento é prematuro dizermos que vamos mudar alguma coisa nesse sentido, porque só depois dos estudos de mobilidade nós poderemos pronunciar-nos acerca daquilo que queremos fazer. Nós não podemos, agora, de repente, sem nenhuma base, dizer que vamos fazer na mobilidade alguma coisa que depois possa prejudicar muitíssimo a mobilidade, que já é muito complexa, portanto, eu não vou neste momento adiantar absolutamente nada sobre aquilo que vamos fazer, porque honestamente, não tenho dados para conseguir tomar uma decisão informada e estudada a respeito de algumas destas matérias.
Quais são as prioridades?
O que posso dizer com certeza é que a zona do Hospital e do GuimarãeShopping e da Central de Camionagem e de todas as coisas que se resolveu construir à entrada de uma cidade de forma absolutamente errada é uma prioridade para nós. A zona da Avenida D. João IV e da Avenida D. Afonso Henriques, embora já mitigada, também é uma prioridade, até por causa do acréscimo de habitações que se vai fazer sentir. A ligação das vilas à cidade também é uma prioridade para nós. Estes são os três eixos essenciais e que nós, obviamente, sinalizamos aos consultores nos estudos de mobilidade e que agora temos que esperar para ver o que se faz.
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