Quando o centro deixa de ser cidade

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O centro da cidade costumava ser o lugar onde a vida acontecia. As crianças iam a pé para a escola. Os vizinhos conheciam-se pelo nome. As lojas eram extensão das casas. A rua não era cenário para turismo, para grandes eventos, um shopping center ou um museu – era continuidade do quotidiano.

Hoje, em muitas cidades médias portuguesas, esse centro começa a ter outra função. Já não é apenas lugar de residência. É destino. É imagem. É produto. O fenómeno é visível: prédios reabilitados com fachadas impecáveis, varandas renovadas, interiores transformados em alojamento temporário. A recuperação do edificado é, em si mesma, positiva. O problema começa quando a lógica dominante deixa de ser habitar e passa a ser rentabilizar.

© Direitos Reservados

O centro histórico valoriza-se – e, com isso, eleva-se o preço da permanência. As rendas sobem. Os contratos deixam de ser renovados. As casas transformam-se em unidades de estadia curta. O comércio local transforma-se em lojas de cadeias internacionais. Quem ali vive há décadas descobre, gradualmente, que já não consegue continuar. Não há expulsão formal. Há contratos que não são renovados, rendas que sobem, casas que mudam de função. Há deslocamento silencioso.

A cidade, nesse processo, muda de função. O que antes era tecido comunitário torna-se montra. O morador transforma-se em visitante. E o visitante, por definição, não cria raízes – nem sustenta o quotidiano que faz uma cidade funcionar. Este processo tem consequências que ultrapassam a esfera imobiliária. Quando os residentes são empurrados para zonas periféricas, aumenta a distância entre casa, trabalho e serviços. A mobilidade torna-se mais longa, mais cara, mais dependente do automóvel. O que parecia ser apenas um fenómeno de mercado revela-se uma engrenagem estrutural: a habitação reorganiza a mobilidade, aumenta as distâncias diárias, eleva o consumo energético e redefine o uso do solo.

O centro deixa de ser casa – e a periferia torna-se obrigação. A questão não é ser contra o turismo. As cidades sempre receberam quem vem de fora. A questão é a escala e a proporção. Quando a função económica domina completamente a função residencial, a cidade deixa de ser ecossistema social e passa a ser plataforma de rendimento. E uma cidade que depende excessivamente de uma única função torna-se vulnerável.

“Do ponto de vista da equidade, significa que viver perto dos serviços e do espaço público deixa de ser direito implícito e passa a ser privilégio.”

Do ponto de vista climático, o deslocamento para zonas mais afastadas implica mais quilómetros percorridos diariamente, mais infraestruturas, mais expansão urbana. Do ponto de vista da equidade, significa que viver perto dos serviços e do espaço público deixa de ser direito implícito e passa a ser privilégio. O centro, paradoxalmente, fica mais bonito e menos habitado.

Pergunta-se então: o que é um centro urbano sem moradores permanentes? Pode haver comércio local sem clientela local? Pode haver escola de proximidade sem famílias? Pode haver comunidade sem continuidade?

Uma cidade justa não é aquela que proíbe visitantes. É aquela que garante, antes de mais, que quem nela trabalha, estuda e cuida pode nela viver. O desafio é político, não decorativo. Envolve regulação do alojamento local, restrições a grandes superfícies e a estacionamentos, aquisição pública estratégica de imóveis, incentivos à permanência. Envolve reconhecer que a habitação não é apenas um ativo financeiro – é infraestrutura social.

Se a cidade começa por decidir quem pode caminhar, continua por decidir quem pode permanecer. E essa é, no fundo, uma escolha sobre quem tem direito a viver perto de tudo aquilo que a cidade oferece. Quando esse direito deixa de ser comum, o centro pode continuar cheio – mas deixa de ser habitado. E uma cidade onde já não se vive deixa, pouco a pouco, de ser cidade.

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