“Vamos ver se esta crise é uma oportunidade de transformação política positiva”

Se não fosse a internet e as ferramentas digitais, o relacionamento humano, teria tido um apagão brutal nas nossas vidas, neste período em que estamos a ser atacados pela Covid-19. Miguel Gonçalves, professor catedrático e presidente da escola de Psicologia, da Universidade do Minho, não tem dúvidas de que manter a actividade em tempos de confinamento foi essencial para a paz social em que o país viveu. “O ser humano não evoluiu, ajustou-se temporariamente”, revela o professor que lembra que “os seres humanos já viveram em condições muito piores que as habituais”. O desafio no futuro, imediato, é saber “como as sociedades se vão organizar, nos próximos tempos”, e “se esta crise é também uma oportunidade de transformação política positiva”.

GA! – O vírus invisível colocou-nos numa jaula também invisível, resgatando-nos o tacto e outros sentidos usados nas relações humanas, há milénios… Isto é uma evolução da espécie, de ser livre para um chimpanzé da era moderna?
MG –
O vírus veio relembrar-nos a fragilidade da nossa existência. Felizmente dispomos de meios para nos continuarmos a relacionar, e em muitos casos, trabalhar através de ferramentas digitais. A solidão que sentimos no confinamento teria sido muito maior se não dispusemos de internet. Julgo que as pessoas que continuaram a relacionar-se com outros e que tiveram possibilidade de continuar activos (através de teletrabalho) tiveram globalmente uma maior facilidade de adaptação. Mesmo assim o isolamento teve (e, num certo sentido, continuará a ter) implicações negativas consideráveis. Basta pensarmos no modo como as cerimónias que dávamos por adquiridas foram perturbadas – e neste âmbito o que mais me sensibilizou foi o modo como os funerais tiveram que ser realizados. Não é difícil antecipar que a prevalência do luto complicado vai disparar nos próximos tempos, porque os mecanismos naturais que ocorrem quando alguém morre e que facilitam o processo de luto foram altamente perturbados (e.g. ver a pessoa perdida, poder despedir-se, poder estar com outros membros da família que partilham a dor). Do mesmo modo, as pessoas com maior fragilidade psicológica tiveram de enfrentar uma situação que, sendo difícil para todos, é muito mais difícil para quem já está em sofrimento e por isso com recursos limitados. Também não é difícil de imaginar que a prevalência da doença mental, como a depressão ou as perturbações de ansiedade, certamente terão tido um aumento. E um sintoma preocupante disso foi o aumento muito significativo da venda de antidepressivos durante o período de confinamento. Do ponto de vista psicológico esta situação é absolutamente dramática, porque coloca em marcha dificuldades acrescidas muito significativas, e retira às pessoas o acesso a recursos naturais para lidar com essas mesmas dificuldades. E exemplifico isto com duas dimensões: por um lado o perigo foi tornado omnipresente. Todos as notícias se centravam no aumento exponencial do número doentes, no risco da doença, na ruptura dos sistemas de saúde, no aumento do número de mortos, no aumento do desemprego, e na catástrofe económica pós-confinamento, de dimensões inimagináveis. Por outro lado, o acesso às redes naturais de suporte (e.g. amigos, família, trabalho) viu-se largamente comprometido com o isolamento. Não estou a dizer com isto que o confinamento foi despropositado. Tanto quanto podemos perceber, até pelo que aconteceu, e continua a acontecer em outros países, a decisão de decretar o estado de emergência foi completamente sensata. Não deixou foi de ter custos que são ainda difíceis de contabilizar. E repare-se que uso o termo custos também no sentido económico, porque o aumento da perturbação psicológica tem custos económicos muito claros. Em síntese, não acho que há aqui nenhuma evolução específica do que é ser-se humano. Só um ajustamento temporário. E mesmo que dure dois anos, será temporário.

“Os seres humanos há muito perderam a sua inocência. Esta pandemia obriga-nos a um ajustamento muito exigente…”

GA! – O new normal vai acabar com o humano que nos habituamos a ser desde o tempo em que Adão e Eva se encontraram no paraíso?
MG –
Não. Os seres humanos há muito perderam a sua inocência. Esta pandemia obriga-nos a um ajustamento muito exigente, mas que creio ser meramente temporário. As pessoas são muito mais flexíveis do que habitualmente julgamos. Os seres humanos, genericamente, viveram já em condições muito piores do que as actuais. O que consideramos humano é fortemente determinado historicamente. E há muitas pessoas que infelizmente continuam a viver situações que, do nosso ponto de vista, são inimagináveis, como observamos ao longo de meses com os refugiados a atravessarem o Mar Mediterrâneo. Não são é “nós”, são “eles”. E infelizmente (para nós como espécie) é mais fácil ver o sofrimento e a morte quando não somos nós. Uma outra questão é como as sociedades se vão organizar nos próximos tempos: vamos continuar a viajar de avião como antes, vai haver mais pessoas em teletrabalho, as cidades vão perceber que têm que impor limites à circulação automóvel, como está já a acontecer (Milão é um bom exemplo)? Não julgo que estas questões sejam de natureza meramente psicológica, mas são de natureza política. Ou seja, julgo que vamos ter que esperar para ver se esta crise é também uma oportunidade de transformação política positiva. Não acho que esteja garantido à partida que o seja.

GA! – As relações sociais, entre humanos, passam a ser iguais às relações entre autómatos. Só falta mesmo a inteligência artificial regular os nossos gestos e hábitos?
MG –
Claramente a inteligência artificial já está instalada e a sua influência irá certamente aumentar. Não acho que isso implique, pelo menos para já, que as relações entre seres humanos se modifiquem dramaticamente. As pessoas modificam os seus hábitos nas relações com as “máquinas” e com a sua inteligência. Um bom exemplo disso são as redes sociais que recorrem a algoritmos que nos dão o que nós queremos. Seja verdade ou falso, com os efeitos que são conhecidos nas eleições que ocorreram em diferentes países, resultantes da manipulação da informação e do uso de estratégias de desinformação. Manipulações desta natureza sempre existiriam, mas agora ganham uma nova dimensão e uma nova velocidade de propagação. Espero que a tecnologia crie condições para evitar os efeitos nefastos destes processos. Julgo que não é muito diferente de outros produtos tecnológicos que vão emergindo. Podem ter efeitos positivos, mas têm muitas vezes um enorme potencial negativo.

“Não tínhamos outra hipótese senão passar a ter estes cuidados de higiene. Se não tivéssemos, o preço que pagaríamos seria muito elevado…”

GA! – O vírus fez do homem uma espécie de robô, produzido, moldado e movido por inteligência artificial? Os comportamentos impostos ao new normal deixam entender isso… a higienização está sendo elevada à ultima potência?
MG –
Não tínhamos outra hipótese senão passar a ter estes cuidados de higiene. Se não tivéssemos, o preço que pagaríamos seria muito elevado. A questão que me parece interessante é se vamos conseguir com facilidade, depois de passada a pandemia, regressar a um nível mais flexível de cuidados de higiene. Ou seja, se em vez de lavarmos e desinfetarmos as mãos como se estivéssemos a entrar para um bloco cirúrgico, conseguimos voltar ao velho e sensato princípio de lavar as mãos antes de ir para a mesa.

GA! – O distanciamento social, a não utilização do beijo, como etiqueta social ou acessório e ferramenta do relacionamento sexual, o elevado número de fitas no chão ao jeito de “não ponha aqui o seu pézinho”, os acrílicos a separar os cidadãos dos funcionários, nos serviços públicos, cafés e restaurantes, dá a ideia de que o homem é um bicho imundo, nojento, execrável? Isto não começará a ter efeitos na nossa mentalidade, comportamento e condição?
MG –
Mais uma vez acho que esta adaptação será transitória. Vamos aprender a viver com o vírus. Vamos reaprender a voltar gradualmente à normalidade. Enquanto nos mantivermos em situação de pandemia é natural, e desejável, que haja cuidados acrescidos, mas que tenderão a desaparecer quando a pandemia passar.

GA! – Mas o beijo na boca, que a revolução francesa pode ter liberalizado, já não era uma forma de os casais transmitirem microorganismo infecciosos?
MG –
Os microorganismos estão por todo lado, incluindo dentro de nós. Temos uma quantidade inimaginável de bactérias no nosso organismo. É compreensível que as pessoas não queiram ser contaminadas com este vírus, pelo menos enquanto as perspectivas terapêuticas não forem mais animadoras. O risco para os próprios e para os outros não é negligenciável. É natural que as pessoas, mesmo as que tem baixo risco de mortalidade e de complicações sérias, tenham um medo considerável de infectar os seus familiares com mais idade e mais vulneráveis. É um sinal humano da nossa moralidade e da nossa natureza relacional, felizmente.

GA! – Como será a vida entre namorados e jovens casados, já investidos na condição do new normal?
MG –
O que eu imagino é que as pessoas, na medida do possível, procuram ter vidas o mais normais possível, apesar dos constrangimentos. Mais difícil, parece-me a vida dos adolescentes que ficaram encerrados em casa, sem possibilidade de contacto com os seus colegas e amigos. Felizmente é uma geração muito habituada aos contactos online e isso pode ter minorado as dificuldades. Mas eu recomendaria que gradualmente os contactos fossem sendo estabelecidos, com distanciamento social, e progressivamente mais relaxamento desses cuidados em função da situação epidemiológica.

GA! – Admite que a taxa de natalidade baixe ainda mais, face ao pudor das novas relações, associadas à vida sexual?
MG –
Acho difícil antecipar. Não sei se há um novo pudor nas relações. Julgo que pode ser um tema interessante de investigação. Mas não tenho a certeza de que a vida sexual se tenha transformado assim tanto, excepto na possibilidade de formação de novos casais durante a quarentena. Mas mesmo assim, surgiram muitos exemplos nos media de casais que se formaram à distância, via redes sociais, e até a partir do estabelecimento de contactos à distância entre vizinhos. Os seres humanos ajustam-se com facilidade e têm uma grande criatividade. Ainda mais no amor.

GA! – O mesmo acontecerá à taxa de divórcios? 
MG –
Também acho difícil arriscar. Poderíamos supor que dado um aumento da conflitualidade com o confinamento o número de divórcios vai aumentar, mas ele já é tão elevado que podemos assistir ao que em estatística se chama “efeito de tecto”, i.e., quanto mais elevado menos espaço tem para aumentar. Por outro lado, a crise social e económica que se avizinha pode ser uma factor de elevado constrangimento para que as pessoas se possam divorciar ou separar, mesmo que queiram. Finalmente, quero ser optimista e imaginar que para alguns casais a proximidade, ainda que forçada, os conduziu a reinventarem-se. Mas claro, não tenho dados nenhuns que suportem tais suposições.

GA! – O new normal estará mais vocacionado para uma vida solitária?
MG –
A solidão é claramente um problema de saúde pública. As pessoas que se sentem mais sós tem uma taxa de mortalidade superior às que se sentem mais o apoio dos outros. Por isso, espero que gradualmente as relações sociais que foram perturbadas pela pandemia possam ser reestabelecidas. Acho que as pessoas com mais idade que se encontram sós e com distanciamento forçado devem estar em grande sofrimento e, na medida do possível, estas medidas de distanciamento devem ser afrouxadas, tanto quanto a situação epidemiológica o permita.

GA! – Ou, isto é apenas uma ilusão passageira, antes da descoberta da vacina porque depois tudo voltará a ser como era em 2019?
MG –
Não consigo arriscar. Diria que do ponto de vista psicológico o mais natural é tudo voltar, gradualmente, ao que era. Mas vai depender muito da vontade política de organismos transnacionais, como por exemplo a EU, e dos governos nacionais e mesmo locais, bem como das instituições empregadoras. Se aproveitam o momento para produzir mudanças de longo termo ou não. Gostava de acreditar que estes organismos vão aproveitar a oportunidade para desenvolver modelos económicos e sociais mais sustentáveis e justos. Mas é só a minha esperança de ver mudanças positivas a terem lugar.

GA! – As novas gerações vão pagar pelos erros dos seus antepassados sobre a natureza?
MG –
Já estamos certamente a pagar. Basta ver-se as estimativas do número de mortos que resultam todos anos da utilização do gasóleo como combustível, a título de exemplo.

“A situação de pandemia pode fazer-nos reflectir mais, dado que estamos mais frágeis, mas sem vontade política não haverá mudanças significativas…”

GA! – O vírus quis alertar-nos para a necessidade de criar um mundo justo?
MG –
Ao longo do século XX já tivemos muitos sinais de que as injustiças e as desigualdades estavam a aumentar de um modo muito acentuado. Também já tivemos muitos sinais de esperança. A situação de pandemia pode fazer-nos reflectir mais, dado que estamos mais frágeis, mas sem vontade política não haverá mudanças significativas. E claro, muitas destas mudanças são de uma enorme complexidade.

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