“A economia só será reactivada se se recuperar a oferta e a procura”

Na entrevista que Fernando Alexandre, professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, concedeu a “Guimarães, agora!”, e sobre a reindustrialização da Europa, para afastar a dependência da China, o ex-Pró-Reitor da UM, prevê uma reorganização da produção mundial, uma redução no comércio internacional e uma maior autonomia na produção de bens no espaço europeu. É nesta área que Portugal tem de estar atento para aproveitar essas oportunidades.

“A actividade das empresas depende muito do fornecimento de bens de outros países e também da sua procura…”

GA! – Só faltava mesmo, agora, um problema sanitário, desfazer a economia e impôr uma recessão. As soluções de recuperação. Já não são tradicionais? Estão mais no futuro, do que no passado?
FA –
Esta crise tem uma natureza diferente das crises mais graves que já afectaram a economia mundial no último século. A economia mundial é também muito diferente do que era, estando as economias dos diferentes países muito ligadas. A actividade das empresas depende muito do fornecimento de bens de outros países e também da sua procura. Com cerca de metade da população mundial confinada em casa, quer as condições de produção mundial quer as condições de procura sofreram uma forte perturbação. Para reactivar a economia vai ser necessário recuperar a oferta e a procura.

GA! – Que influência terá a actual dívida externa do país, que se agravará ainda mais, no desenlace desta crise e de que modo pode condicionar a recuperação da economia?
FA –
A dívida externa torna a nossa economia mais vulnerável às condições dos mercados financeiros internacionais, podendo pôr em causa o seu financiamento e, assim, tornando mais difícil a recuperação.

O economista reconhece que a actual crise é diferente de outras. © Direitos Reservados

GA! – Dependendo Portugal do que exportar para o exterior, de que modo as exportações e a internacionalização das empresas, pode funcionar se na Espanha, França e pelo universo europeu se sentirem os mesmos efeitos do vírus?
FA –
A resposta, também, está já na primeira pergunta.

GA! – Quais serão os sectores, no distrito de Braga, que serão mais afectados?  E quais serão os que se evidenciarão no pós-Covid19?
FA –
Nesta primeira fase da pandemia, os sectores que estão associados a maior contacto social foram os mais afectados. O comércio, restauração e todos os serviços que implicam contacto físico (cabeleireiros, dentistas, etc). Mas também as grandes multinacionais ligadas ao sector automóvel, quer por falta de componentes, quer por quebra abrupta na compra de automóveis. Na área do têxtil e vestuário a quebra também foi grande, dado que empresas como a Inditex (grupo que detém a Zara) fecharam todas as lojas a nível mundial e cancelaram as encomendas a empresas portuguesas, muitas delas no Distrito de Braga.

GA! – Acredita que é pela industrialização da Europa, de novo, que poderão surgir comportamentos e novas estratégias? Afinal, o que pode mudar? Ou vai mudar?
FA –
É natural que haja uma reorganização da produção mundial, com alguma redução no comércio internacional, e que haja necessidade de assegurar uma maior autonomia na produção de alguns bens na UE. Portugal tem de estar atento para aproveitar essas oportunidades.

“É possível que a queda do PIB em 2020 seja superior a 10%, que o desemprego vai disparar, tal como a dívida pública…”

GA! – Como se avaliará e quantificará o impacto económico desta crise?
FA –
É necessário esperar mais tempo, mas já sabemos que é possível que a queda do PIB em 2020 seja superior a 10%, que o desemprego vai disparar, tal como a dívida pública.

GA! – Sobre o futuro: as soluções serão locais ou regionais? Que papel podem ter as cidades neste contexto?
FA –
Na crise global, as soluções têm de ser coordenadas a nível global. As soluções da UE vão ser decisivas, mas temos de nos preparar ao nível nacional, regional e de cada empresa e organização para ultrapassar esta crise.

GA! – O que se pode esperar mais das Universidades?
FA –
A ciência e o conhecimento nunca foram tão importantes como nesta crise. Dependemos delas para sairmos da crise. As universidades portuguesas, e em particular a Universidade do Minho, têm estado empenhadas em propôr soluções para a crise e em colaborar com o Governo, com os hospitais, com as Câmaras municipais e com as empresas para encontrar soluções.

© 2020 Guimarães, agora!

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