Álvaro Oliveira
Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” Sou alguém que gosta de descobrir e gosta de se descobrir. E pensar. E refletir. E escrever aquilo que penso e aquilo que reflito.

Heróis prováveis

Nunca como antes ficou tão evidente o quanto todos precisamos de todos e o quão importantes – e vitais – são algumas das profissões de que tanto nos esquecemos ou que tão arrogantemente menosprezamos. Se uma grande parte de nós pode estar confinada, protegida de contágios, trabalhando em casa, uma outra parte tem que continuar a sair todos os dias para manter os serviços essenciais a funcionar e para garantir que a cadeia de abastecimento não se interrompa, vencendo o medo, correndo riscos, muitas vezes separando-se da família.

Claro que, desde logo, obviamente, os profissionais de saúde em que há a enaltecer a sua dedicação, a entrega, a superação que os leva a enfrentar o risco de peito feito – mas, também, os técnicos que mantêm os equipamentos operacionais e os auxiliares, os bombeiros, os funcionários dos lares e residências de terceira idade. E, uma vez mais, refiro também os que trabalham nas empresas de águas, nas empresas de eletricidade, nos operadores de comunicações, os camionistas, os que se ocupam da recolha de lixo, os empregados dos supermercados, os agentes de segurança, os farmacêuticos, os motoristas de transportes públicos, os carteiros, os operários fabris cujas fábricas ainda laboram, os entregadores de tudo, os donos e empregados de pequenas mercearias, e tantos, tantos outros.

“A todos esses nunca agradeceremos o suficiente. E seria bom que a nossa memória, que é fútil e fugidia, nunca os esquecesse. Devemos-lhes tanto…”

A todos esses nunca agradeceremos o suficiente. E seria bom que a nossa memória, que é fútil e fugidia, nunca os esquecesse. Devemos-lhes tanto. Uma parte significativa das pessoas infectadas pelo corona serão, certamente, pessoas com essas profissões. Só ligados à Saúde, se bem registei, serão mais de mil e quinhentos os que já foram infectados. Para nós que, quando vamos ao supermercado, chegamos a casa e nos lavamos e relavamos e que temos mil cuidados com as coisas que trouxemos (e fazemos bem), imagine-se os riscos que as pessoas que circulam, que lidam sabe-se lá com quem, com o quê, correm.

E, no entanto, todos os dias têm que fazer frente à inquietação e ir à luta. Não sou moralista e detesto a caça aos culpados de cada vez que acontece alguma coisa. Mas esta situação da covid-19 que, à primeira vista, parecia uma treta sem relevância, um corona como tantos outros, veio a revelar-se a gota de água que fez transbordar o desconchavo que é este mundo. Os países paralisados, as ruas desertas, as lojas fechadas, as escolas vazias, silenciosas, grande parte das fábricas paradas, alguns países a deixarem morrer ao abandono os seus mais velhos ou os mais pobres, mortos a serem deixados à espera de vaga na morgue, enrolados em plástico ou enfiados em caixões de cartão ou enterrados em valas comuns – tudo coisas impensáveis nestes tempos que julgávamos de abundância, nestes tempos que julgávamos civilizados.

Para concluir, um dia que tenhamos que voltar à normalidade, à ‘nova normalidade’, certos de que ainda corremos riscos – conscientes de que são sempre muitos os riscos que corremos porque essa é a nossa natureza, frágil, efémera, vulnerável – tendo que vencer o medo, é bom que nos lembremos de quem nunca pôde estar resguardado, de quem, todos os dias, venceu o medo para que nós, os fantásticos e os melhores do mundo, pudéssemos estar resguardados.

© 2020 Guimarães, agora!

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