Paulo César Gonçalves
Nasceu em Guimarães, voltado para o Castelo da Fundação, e, até ver, está vivo.

A Cultura como pão da Democracia: da Grande Serpente ao Toural (ou o triunfo da comunidade)

A pandemia agudizou uma crise já antiga. Tenho a ideia de uma ideia de cultura plena e não truncada: não centrada em três ou quatro variantes (o que é, creio, completamente redutor).

A cultura, esse vínculo em constante transformação e evolução, precisa de pluralidade para o engrandecimento do sector, com apoios sustentados e inclusivos.

O acesso à cultura será um apoio e um direito quando a educação for inclusiva, valorizando o papel da arte e da cultura como bens de primeira necessidade, como forma de crescer, de várias possibilidades, num quadro de valorização social e de diversidade. A cultura não pode ser quinhão de uns poucos.

A própria formação superior de cariz artístico-cultural precisa sustentar o apoio aos seus formandos, proporcionando-lhes oportunidades justas e respeitosas. Que formas de crescer e de sustento são apresentadas aos jovens formados nas mais variadas áreas artísticas, quando saem das faculdades? Que hipóteses reais têm em fazer do seu mester vida, ou em concursos para apoios que beneficiam quem já está na roda? Como se conta e se exige curriculum se o mesmo está por construir?

Um simulacro de cultura na qual editores, directores artísticos, direcções de curso, professores universitários, programadores culturais e promotores (não todos, entenda-se) estimulam o trabalho tendencialmente gratuito ou precário como forma de aliciamento para eventuais oportunidades futuras ou, apenas, curriculum, é uma perversão.

O peso daquilo a que chamo “periferia cultural”, no bolo geral da cultura, é grande: os artistas, que são a base da pirâmide, são o bloco mais frágil.

E essa é uma das grandes lutas, para mim: confunde-se “formação de públicos” com “formatação” dos mesmos.

Não podemos continuar a alimentar a ideia, ou a ilusão, de que uns existem por causa de outros, ou para promover os outros. A verdade é que, não poucas vezes, os artistas parecem apenas legitimar a existência de estruturas pesadas e monocórdicas que impõem a sua própria política de gosto. E essa é uma das grandes lutas, para mim: confunde-se “formação de públicos” com “formatação” dos mesmos. A cultura precisa sugerir e não impor.

É por isso, mas não apenas, que muitas das petições que vieram a público durante a pandemia me pareceram oriundas do circuito que está já habituado aos vícios e ao clientelismo, com excepção do “Cultura para todos” (suprimido pela anterior ministra da Cultura).

Este texto nasce pelo curioso, e ao mesmo tempo maravilhoso costume que se tem criado no Toural, aos domingos à tarde, com pessoas a dançarem, a cantarem e a tocarem instrumentos, num colorido tão próprio do Minho. Atrevo-me a escrever que as flores voltaram ao Toural (e eu até sou defensor da actual fisionomia do espaço). A realidade social do nosso concelho compreende estas manifestações espontâneas e verdadeiras, porque nascem do seu seio.

Tradição não é atraso: tradição é base. Dir-me-ão outros que não há lugar para elas noutros palcos: não concordo. Defendendo a ideia de que palco é onde o Artista desejar, todo e qualquer palco pode ser-lhe franqueado, mas não há palco como o espaço público e cívico.

Quem sempre o compreendeu foi Moncho Rodriguez. O homem por detrás da criação do Teatro Oficina vem, a convite da ASMAV, repor “A Grande Serpente” (1994), 1ª grande criação da referida companhia, e rampa de lançamento para uma geração de artistas locais (que arranjaram, naquele tempo, com ele, moldes para as as suas asas).

Inquieto e desassossegado, o criador galego/português/brasileiro, trota-mundos e teatros, volta a Guimarães, encontrando uma cidade transformada, mas com uma comunidade ávida por participação e pela prática inclusiva.

Tive a felicidade de trabalhar com Moncho aqui ao lado, em Fafe. O Moncho é um Poeta, uma velha raposa que conhece os vícios e os sulcos do palco. Goste-se ou não dele, deixou um legado que fala por si. Nunca, depois dele, se fez tanto e tão bem. Nunca, depois dele, se criaram asas à medida. Porque o Moncho respira na comunidade, e através dela. A arte faz-se de pessoas. Para as pessoas. As manifestações culturais marcam um território pelo lado de fora do pretensiosismo, que é nenhum.

Podem atirar-nos com um Guidance, com um Westway Lab ou com uns festivais Gil Vicente (que de Gil Vicente só guardam o nome), mas sem vínculo, sem envolvimento, sem abertura, sem a bela da faculdade da escolha, nunca serão mais do que aquilo que têm sido: a filosofia do “chega, monta, actua e desmonta”.

É preciso mudar. Podemos muito, muito mais.

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1 COMENTÁRIO

  1. Texto lindo e eficaz, moncho merece muito e muito mais, e sem dúvida um homem das artes cênicas.
    Avante pois se faz necessário e urgente, o mundo precisa cada vez mais de educação e de cultura.

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