Paulo Branco
Mergulhado mais de duas décadas no urbanismo e arquitectura, acostumou-se a reflectir sobre a organização humana e os seus efeitos em muitos sítios e cidades, alguns Países, e num único planeta que reclama uma mudança profunda de comportamentos. Amante da leitura e da música, acredita (ingenuamente) que o progresso assenta no desenvolvimento cultural e espiritual do indivíduo e das sociedades esperando que um dia o trabalho seja verdadeiramente libertador e a harmonização entre pessoas e o meio artificial e natural constituam a maior fonte de equilíbrio e felicidade.

A cidade do futuro

Desde a alvorada da civilização, muitas das vagas epidémicas se deveram à deficiente gestão sanitária da hiperconcentração humana em coabitação com animais retirados do seu habitat natural. Igualmente, na sua sede de recursos, muitas civilizações adiantaram a extinção ou fragmentação – veja-se os casos da Ilha da Pascoa ou da Suméria – pela excessiva exploração do meio natural levando à falência da biodiversidade e dos ciclos hidrológicos.

As cidades, essas estruturas orgânicas, heterogéneas e complexas, que no futuro suportarão cada vez mais vidas, exigirão ainda mais recursos pelo que se pergunta como irão equilibrar gestão alimentar, energética, espacial e social; tomará um autoritário, funcionalismo tecnocrata, as rédeas de toda a governança submetendo-nos a um imenso “Big Brother”, ou impor-se-ão elevados valores éticos e morais às suas investidas? É que no futuro, mais que mecanização e padronização, exige-se uma extrema capacidade prospectiva… e sensibilidade.

Apesar das migrações e do desgaste das estruturas centenárias, é dúbio que o conceito de cidade europeia se afaste de uma longa tradição e passe a colonizar territórios à imagem do extremo oriente, sobrepopulado, ou da América Latina cruelmente favelizada; num futuro próximo, tudo aponta à continuidade dos espraiamentos, conurbações e reabilitações do meio físico e social que, contudo, urge adaptar a cada vez maiores impactos climáticos, escassez de água, insegurança e todo um conjunto de perturbações físicas e psíquicas que os níveis da poluente tensão contemporânea provocam.

Planear é aplicar previsões, antecipar ameaças implementando, de imediato, sobejamente conhecidas medidas de mitigação – urge a equilibração ecológica do território (e das pequenas e grandes urbes e periferias), a redução do consumo e resíduos, a alteração da mobilidade (com a implementação de estruturas industriais de proximidade e sistemas públicos de transporte não poluentes em rede), a dotação equitativa de espaços de cidadania, empregabilidade e, não menos importante, a formação cultural e ética dos cidadãos.

“Assistimos hoje a negros fenómenos de dimensão impensável (…) pelo que é primordial repensar o papel das cidades…”

Assistimos hoje a negros fenómenos de dimensão impensável (…) pelo que é primordial repensar o papel das cidades não como megalópoles híper-funcionais, protagonistas da “civilização”, mas como âncoras, esteios numa correlação estrutural que se quer renovada com o meio; a “cidade do futuro” não é o agente centralista e meramente explorador mas um dos promotores essenciais do desenvolvimento harmonioso de todo o território.

O mundo gira sem compaixão pela inércia e as cidades do futuro serão o que fizermos delas e do seu entorno alargado na consciência de que, cada vez mais, é imperioso à ecologia aliar coesão, desenvolvimento e competitividade que só se efectivam em estratégias alargadas em redes de cooperação que associem regiões a racionais/sustentáveis marcas de qualidade e quantidade – com equilíbrio demográfico e sanitário, biodiversidade e disciplina…e sem Big Brothers.

© 2020 Guimarães, agora!

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