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Quinta-feira, Junho 20, 2024

Pedro Guimarães: “Não me via a trabalhar numa outra cidade que não fosse Guimarães”

Economia

  • Pedro Guimarães nasceu em 1974, na cidade de seu nome. O seu percurso escolar passa pela formação na área das artes, do design e desenho criativo. O gosto pelo desenho e pintura evidenciam-se bastante cedo na sua vida, tendo feito a sua primeira exposição com apenas 16 anos, no Centro de Juventude de Braga.
  • Em 2005, recebeu o prémio “Arte Cantábria” atribuído pelos pintores Fernando Bermejo, Francisco Santibanez e a escultora Emília Trueba. Desde Janeiro de 2016 que o seu trabalho está exposto na conceituada Georges Bergès Gallery, no Soho em Nova Iorque.

A arte sempre fez parte da sua vida? O que o levou a interessar-se pela pintura?

Eu posso dizer que sim. Eu fiz a minha primeira exposição com 16 anos, portanto foi muito cedo. E antes disso sempre tive o jeito, sempre tive a habilidade para os desenhos e para as pinturas, é uma coisa que já me fazia comunicar e portanto é a minha vida dedicada ao que faço agora.

Tem formação superior nesta área?

Não, em belas artes não. O meu curso é desenho criativo para a indústria têxtil, porque sou de Guimarães e o têxtil era a fonte de emprego e era complicado fazer-mos da arte profissão. Eu não conhecia ninguém que fosse artista e fizesse disso vida, pelo menos que eu conhecesse do meu meio. Portanto, uma forma de eu fazer aquilo que gostava era estar ligado à indústria local, neste caso a indústria têxtil, e desenvolver as colecções de toalhas de rosto, toalhas de mesa, lençóis de cama, fazer esses desenhos. E durante algum tempo eu fiz disso profissão, do desenho criativo para a indústria têxtil. Portanto, eu sempre pintei, a partir dos 16 anos fui fazendo as exposições e tinha emprego em paralelo, não fazia disto vida desde tão cedo. Por volta dos 30 e poucos anos, deixei os negócios, nessa altura já trabalhava por minha conta, tinha alguns negócios relacionados com o têxtil, também, e decidi dedicar-me 100% à arte. E, a partir desse momento, fui muito mais feliz, porque estava a fazer aquilo que gosto de fazer.

“O meu trabalho é, nitidamente, uma explosão de cor e uso cromáticas fortes e intensas.”

Como descreveria as suas obras e o tipo de arte que produz? O que é que pretende transmitir através delas?

Eu sou um artista plástico porque mexo com vários materiais e com várias formas, tento aproveitar a maior parte das coisas que são os meus desperdícios, os pedaços de madeira, pedaços de cartão, até as caixas das tintas eu aproveito para fazer algumas coisas. E é através desses suportes que eu consigo comunicar. A forma como eu me exprimo melhor não é desta forma em que estou a falar. Não é pela forma verbal, nem é pela forma escrita. A forma em que eu me expresso mais claramente é através do meu trabalho. O meu trabalho é, nitidamente, uma explosão de cor e uso cromáticas fortes e intensas, porque imprimo quase sempre, há algumas excepções, mas imprimo quase sempre alegria e positividade no meu trabalho. É isso que eu quero transmitir também, mesmo que seja uma peça personalizada ou alguma coisa assim, tento imprimir sempre o aspecto positivo. É a minha linguagem, que é fundamental. Acho que já consegui aquilo que é mais difícil para um artista na sua afirmação que é as pessoas nem precisarem de ver alguma assinatura, só por olharem para o quadro identificam que a peça é minha.

📸 GA!

“Quando um artista tem que explicar demasiado a obra, a obra não está a cumprir o propósito, ela é que tem que comunicar.”

Acha que isso que procura transmitir é o que o público interpreta?

Eu dou sempre essa margem. Vou dar um exemplo: existe uma frase que diz “o amor é fogo que arde sem se ver”, o escritor sentiu uma coisa a escrever, mas quem está a ler vai interpretar coisas diferentes. Isto depende sempre do nosso contexto e da nossa vida. A forma como nós observamos a arte é, também, a forma como nós observamos outras coisas na vida, como ouvimos uma música, por exemplo, e em dias diferentes nós vamos ver coisas diferentes ou interpretar de forma diferente. Para exemplificar, há dias que nós colocamos os fones, vamos fazer uma caminhada e pomos uma música e aquela música nem nos disse nada naquele dia. Mas há um dia que nós estamos mais sensíveis, vamos ouvir aquela música e aquilo bateu mesmo. Portanto, com a arte acontece isso também, depende muito do nosso contexto e eu gosto de explorar muito isso. Eu fiz uma experiência, uma altura, em que pedi para as pessoas se expressarem sobre uma peça. E a peça tinha duas mãos juntas, uma sobre a outra, à frente. A peça era grande, com um metro e meio por três metros. E eu perguntei a várias pessoas o que é que as pessoas viam e é engraçado que algumas pessoas diziam que eram umas mãos que estavam a dar alguma coisa, e havia pessoas que diziam que eram umas mãos que estavam a pedir alguma coisa. O mesmo gesto. Essa margem também é interessante. Quando estamos a fazer alguma coisa, estamos a comunicar de alguma forma, nós temos a nossa ideia, temos o nosso momento, temos o nosso contexto, temos a nossa vida, o que nos levou a fazer aquilo, e temos que respeitar essa forma de interpretação. Se nos pedirem para falar um bocadinho sobre essa peça, isso é diferente. Eu não gosto de falar muito. Eu gosto que as pessoas tenham mesmo esse exercício de raciocínio e de interpretação, porque se não a arte não fazia sentido. Quando um artista tem que explicar demasiado a obra, a obra não está a cumprir o propósito, ela é que tem que comunicar. Portanto, deixamos essa margem e essa liberdade. Isso é o que é interessante também nas formas de comunicar. E nesta que é uma forma não verbal, temos que deixar sempre essa margem e é isso que eu faço.

O que é que o inspira? Quais são as suas fontes de ideias?

A minha vida. Eu digo isto constantemente, se a minha vida for interessante, o meu trabalho vai ser interessante. E eu posso fazer algumas coisas nesse sentido que é viajar muito, ler muito, conhecer pessoas interessantes, tudo isto faz com que eu seja uma pessoa também interessante. Se eu for uma pessoa interessante, o meu trabalho vai ser muito interessante. Já me aconteceu duas coisas que é, olho para um trabalho e até me interesso pela dinâmica do trabalho e depois até conheci o artista, mas o artista não é uma pessoa nada interessante. Eu acho que aquilo que ele está a transmitir ali é quase uma obra do acaso, até tem peças interessantes, mas aquela pessoa não pode ter nada interessante a dizer porque a pessoa é realmente limitada. E também já me aconteceu o contrário, que foi ver alguma obra, uma obra de arte, e muitas vezes isto acontece com fragmentações de obras, em que nós não conhecemos a obra completa do artista e vimos alguma coisa exposta numa colectiva, vimos uma peça ou duas e nem achamos aquilo muito interessante porque não conhecemos o percurso. Mas, depois, vamos pesquisar um bocadinho mais e vamos conhecer um bocadinho o artista, saber aquilo que ele fez e, às vezes, até temos a oportunidade de falar com ele e vamos perceber que aquilo que está ali, afinal, é uma coisa interessante. Passa um bocadinho por aí a minha inspiração e não pode ser nada mais, nada menos do que as coisas que eu vivo.

O seu trabalho já passou por vários países, desde o nosso vizinho, Espanha, até aos Estados Unidos, pertencendo ainda a colecções privadas na Nova Zelândia, Arábia Saudita, Porto Rico, etc. O que é que esta internacionalização representa para si? Como é que isso tem contribuído para a sua evolução enquanto artista?

Primeiro, é sinal que eu chego a pessoas de várias culturas e que sou interpretado de uma forma positiva ao ponto das pessoas quererem adquirir o meu trabalho em vários pontos do mundo. Portanto, o posicionamento geográfico não é um impedimento para as pessoas apreciarem o trabalho e o expoente máximo de quem aprecia o trabalho é disponibilizar o dinheiro para o comprar. É aí que notamos que as pessoas gostaram mesmo. Apesar de que às vezes também gostam muito e não têm possibilidades, mas isso é outra questão. Na verdade, isso é uma motivação. Nós percebemos que o mercado da arte é um mercado em aberto, é um mercado internacional e que nós, se dissermos coisas positivas, interessantes, podemos mostrar isso basicamente onde quisermos. E a arte não é nenhuma língua estanca, ou seja, esta comunicação não verbal é um bocadinho universal, nós não precisamos de traduzir uma obra de arte, não precisamos de legendas. Podemos fazer e ela pode ser apreciada em qualquer parte do mundo. Eu tenho agora um projecto novo que ainda não lancei, no futuro poderei falar nele, mas é precisamente o levarmos a arte em viagem, a arte em vários sítios, a sítios até inesperados. Isso para mim é interessante, é positivo.

📸 GA!

Também executou, em 2014, uma peça de arte que retrata a Drª Maria Cavaco Silva, com três técnicas diferentes, e foi recebido pelo então Presidente da República. Fale-nos um pouco do processo dessa obra e da experiência no Palácio de Belém.

Eu fui contactado pela Presidência, pelo Gabinete da Presidência, a dizer que o Presidente queria que eu fizesse o retrato da Primeira Dama para pôr no Palácio de Belém. Foi uma experiência gira estar nos bastidores da governação. Então fui ter com eles, falei um bocadinho com eles e fui muito bem recebido. Foi a execução de uma peça em três vistas diferentes em que retratei a doutora Maria Cavaco Silva. Fiquei a conhecê-la melhor, também, e a admirá-la muito como pessoa, não na posição de Primeira Dama. Eu não conhecia muito a obra social dela, acho que passou um bocadinho ao lado. Tivemos algumas Primeiras Damas que tiveram muita proeminência no campo social, como a doutora Maria Barroso, por exemplo, que era a esposa do Presidente Mário Soares, mas aí falava-se mais um bocadinho. A doutora Maria Cavaco Silva tem uma obra social incrível e que eu fiquei a conhecer um bocadinho mais de perto e a associar-me, também, a algumas delas. E o processo foi engraçado, foi engraçado criar um laço de amizade com eles. Naquela altura, quando ia a Lisboa, e se eles sabiam, a assessora dela convidava-me para almoçar com eles. Mas não deixou de ser uma peça encomendada para alguém. O facto de eles serem da Presidência da República não foi assim tão especial para mim na execução. Eu fiz essa peça como faço de outro cliente qualquer.

“Há muitos miúdos na casa dos 20 anos que já se começaram a afirmar e têm oportunidades porque a Câmara proporciona algumas oportunidades para eles mostrarem o trabalho.”

O que tem a dizer relativamente ao estado da Cultura em Guimarães e em Portugal? O que é que poderia ser feito mais pelos artistas?

Eu acho que Guimarães até é um bocadinho exemplar no campo da Cultura. E acontecem muitas coisas que acho que, muitas vezes, as pessoas de Guimarães é que nem procuram saber o que é que está a acontecer. Nós temos vários pólos culturais, temos, por exemplo, A Oficina, o Centro Cultural de Vila Flor. Temos espectáculos a nível qualitativo muito semelhantes a muitas coisas que se passam lá fora. Nós temos a Semana do Jazz em Guimarães que traz bandas, quartetos incríveis, internacionais que muitas vezes as pessoas nem sabem o que perdem em irem a um espectáculo desses, mesmo quem não é apreciador de jazz. Localmente, é sempre um bocadinho mais difícil, mesmo o apoio aos artistas locais, eu vou vendo algum apoio. Há alguns artistas que eu conheço aqui, jovens, na minha geração não havia, mas agora há muitos miúdos na casa dos 20 anos que já se começaram a afirmar e têm oportunidades porque a Câmara proporciona algumas oportunidades para eles mostrarem o trabalho. A comunidade artística e das artes plásticas sofre de um grande problema, mas isso é um problema interno, não é propriamente das cidades nem de quem toma conta da Cultura. O problema é mesmo dos artistas. A disciplina é uma coisa um bocadinho complexa. Eu sou artista há muitos anos, mas se há coisa que eu tenho é profissionalismo. Eu, se me comprometo a entregar uma obra num determinado prazo ou se tenho uma exposição num determinado prazo, não sou o artista que está sempre a adiar. Se é para fazer, é para fazer e é isso que acho que falta um bocadinho mais na comunidade artística. E, se calhar, de ter a consciência de que pode afirmar-se mesmo numa cidade pequena como Guimarães. Como é evidente, se estivermos em Nova Iorque, ou em Lisboa, ou em Paris é diferente, mas nós temos consciência disso. Mas acho que é muito mais desafiante. Eu sempre me propus a esse desafio, já tive oportunidades de estar a trabalhar, trabalhei dois anos em Espanha, mas foram as circunstâncias que me obrigaram porque tinha um negócio de têxtil lá, mas expus lá, ganhei um prémio importante em Espanha. Portanto, fui trabalhando nas duas vertentes em Espanha, mas não me via a trabalhar num outro país que não fosse o nosso, não me via a trabalhar numa outra cidade que não fosse Guimarães, é aqui que tenho os meus amigos, a minha família, o meu núcleo está aqui. Acho que é muito mais desafiante ter sucesso aqui e muito mais difícil do que ter sucesso em Nova Iorque, ou em Paris, aí há muitas oportunidades, está sempre tudo a acontecer. O mundo, neste momento, é uma esfera que funciona muito com o digital. Nós conseguimos fazer alguma coisa aqui e o que estamos a fazer tem impacto quase imediato em vários sítios do mundo. Mas, sinceramente, eu acho que culturalmente Guimarães tem melhorado muito, mas tem margem para melhorar.

📸 Direitos Reservados

“Têm que surgir muitos artistas em Guimarães porque a nossa cidade é inspiradora.”

Parece-lhe que a pintura e as artes plásticas estão bem integradas no panorama/agenda cultural de Guimarães?

A última exposição que eu vi em Guimarães foi há duas semanas, na Plataforma das Artes, onde temos em permanência o José de Guimarães e depois há dois pisos de exposições temporárias: um era uma instalação que se chama La Fábrica, são coisas muito alternativas, e outro é do Artur Barrio, que é um artista luso-brasileiro, e também é uma espécie de uma instalação que fala sobre o vinho e sobre o pão e são exposições realmente muito alternativas. Eu sei que não é fácil a população comum ir a uma exposição destas e interpretar e gostar. Na verdade são artistas que não são de Guimarães e vieram expor a Guimarães, mas isso também faz parte e percebermos também os contextos diferentes da arte. Temos os museus que também vão tendo exposições e às vezes também artistas locais. O Martins Sarmento e o Alberto Sampaio também vão tendo destas iniciativas, o Alberto Sampaio tem o museu à noite também no verão que é interessante. Acho que existem galerias mais pequenas que entretanto fecharam, mas eu acho que nestes pontos existem sempre coisas a ver em Guimarães. Eu não vejo um artista, que tenha qualidade, a querer expor e não conseguir. Depois há aqueles artistas que já fazem algum trabalho há algum tempo, mas só agora é que estão a mostrar o trabalho, e artistas recentes que vão expondo em colectividades, nas juntas de freguesia. Tudo é válido, nem que seja no café Óscar, por lá umas coisinhas, também é válido, é assim que se fazem os percursos. E eu não acredito que um artista que prepara uma exposição e tenha qualidade, em Guimarães, não lhe seja possível expor, acho que isso não acontece. Acho que a cidade está aberta a isso porque nós, culturalmente, estamos habituados a isso e a Cultura está presente em Guimarães. Nós temos tantos artefactos históricos na cidade, temos esse peso que também é arquitectónico e artístico do legado de sermos uma cidade com história e tudo isto nos inspira. Portanto, têm que surgir muitos artistas em Guimarães porque a nossa cidade é inspiradora, o mais lógico é que isso aconteça.

Quais são as suas perspectivas enquanto artista para o próximo ano, tem alguma exposição programada?

No próximo ano vou fazer uma retrospectiva do meu trabalho cá em Guimarães, não está fechado ainda o local, mas vai ser num sítio em que as pessoas vão poder conhecer o meu trabalho, o meu percurso, onde vou ter peças importantes da minha carreira que eu fui guardando e que fazem parte do meu portfólio pessoal. Podia fazer isto em qualquer cidade, mas é na minha cidade que eu quero fazer e sei que vai muita gente de fora ver a exposição e é, também, uma oportunidade para as pessoas poderem perceber a dinâmica e a dimensão daquilo que eu já fui construindo ao longo dos anos. Tenho uma exposição também no próximo ano, no Museu do Fado, a segunda parte de uma exposição que já fiz em 2018 ou 2019 que se chama “Somos Fado”. A exposição que eu fiz é a “Somos Fado” Parte 1 e vou fazer a Parte 2 também no Museu de Fado, em Lisboa. De resto, vou expondo numa galeria que me representa no Algarve, que é a Artcatto, que é uma galeria em Loulé e também me representa em Londres. A curto prazo são esses os projectos planeados. Depois, tenho projectos um bocadinho mais a longo prazo. Também vou fazer o lançamento de um projecto novo e de uma forma de arte num suporte diferente ainda este ano, mas são tudo coisas de que não posso falar antes de surgirem, mas estão prontos a lançar e são interessantes. Também estou a fazer uma renovação dos meus canais digitais, o site, vou ter uma loja online onde vou ter as serigrafias à venda e uma outra peça original. No fundo, vou fazer um rebranding para estar um bocadinho mais presente nos canais digitais.

📸 GA!

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