No passado dia 21 de julho, na Falperra, na fronteira simbólica entre Braga e Guimarães, os presidentes das duas câmaras, João Rodrigues e Ricardo Araújo, deram o que classificaram como o primeiro passo político concreto para a criação da Área Metropolitana do Minho (AMM), selando formalmente o início do processo. Como primeiro gesto prático, os dois municípios vão pedir uma audiência ao primeiro-ministro dedicada exclusivamente a este tema, ao mesmo tempo que iniciam contactos com os restantes municípios das Comunidades Intermunicipais do Cávado e do Ave, alargando a base de consenso político em torno do projeto. É um momento que merece ser saudado, e Guimarães tem todas as razões para o abraçar sem reservas.
Uma viragem que faz sentido
Para quem acompanha a vida autárquica vimaranense, este anúncio é também uma reviravolta positiva. Há pouco mais de um ano, a criação da AMM estava bloqueada por Guimarães: sob a liderança de Domingos Bragança, então também presidente da CIM do Ave, a posição era de recusa frontal, ancorada na memória da reforma administrativa oitocentista que fez de Braga sede de distrito em detrimento de Guimarães. Foi um receio compreensível à luz da história, mas que já não corresponde à realidade do Minho de hoje. A eleição de Ricardo Araújo mudou este equilíbrio, e bem: o novo presidente assumiu-se rapidamente como “defensor da Área Metropolitana do Minho”, sublinhando que “a região precisa de ganhar voz” e que isso só é possível com uma estrutura de coordenação séria. Mais recentemente, ligou esta ambição diretamente ao futuro do concelho, afirmando querer que “Guimarães tenha mais gente, tenha mais jovens”, apontando a habitação, a mobilidade e o emprego qualificado como as verdadeiras razões para este passo.
A posição das forças políticas
A Iniciativa Liberal é, hoje, o partido que com mais consistência tem defendido esta causa, a nível nacional e local. Na sua última Convenção, o partido aprovou uma moção setorial dedicada à criação da AMM, apresentada por Luís Rosa, coordenador da IL de Barcelos, com subscritores de núcleos de todos os concelhos do Minho. Ao nível intermunicipal, o deputado liberal Bruno Miguel Machado tem repetido o argumento central que sustenta este projeto: o Minho já funciona, na prática, como uma área metropolitana policêntrica, e são as fronteiras administrativas atuais – não a realidade económica e social do território – que estão desatualizadas, sobretudo no que toca a transportes e mobilidade. É um diagnóstico simples e certeiro, que qualquer vimaranense que trabalhe, estude ou compre em Braga reconhece na sua vida diária. Para os liberais do Minho, esta reorganização é também uma aplicação prática do princípio da subsidiariedade: aproximar as decisões de quem conhece os problemas, em vez de as deixar cair de Lisboa.
O PS reivindica igualmente a ideia como “bandeira antiga” do partido, tendo defendido nas últimas eleições autárquicas uma área metropolitana que agregasse os 24 municípios do Minho. A sua única reserva é processual: gostaria de ver os restantes municípios incluídos desde a primeira hora, e não apenas Braga e Guimarães – uma preocupação legítima, mas que os próprios promotores já responderam, ao garantir que o processo está aberto e que os contactos com Barcelos, Famalicão e Viana do Castelo já estão em curso. O PCP é a voz dissonante, preferindo apostar na regionalização e classificando a AMM como uma “operação de cosmética” decidida sem consulta às populações. É uma crítica que merece ser ouvida, mas tudo depende de como a atual proposta for implementada no terreno.
Porque vale a pena para Guimarães
As vantagens de uma AMM para Guimarães são substanciais. A primeira é escala política: um território com perto de um milhão de habitantes ganha, junto de Lisboa e de Bruxelas, um peso negocial que nenhum concelho isolado consegue ter – e Guimarães, com o seu tecido industrial exportador, a Universidade do Minho e o capital simbólico da Capital Europeia da Cultura, do Desporto e Verde, tem tudo para ser protagonista dessa voz coletiva. A segunda é a mobilidade: a ligação entre Braga e Guimarães, cidades a 20 quilómetros uma da outra com fluxos diários intensos de trabalhadores e estudantes, é hoje gerida por duas CIM distintas – uma anomalia que a nova estrutura resolve de forma natural, como já acontece com o concurso conjunto de transporte rodoviário previsto para as duas comunidades intermunicipais. A terceira é o acesso a financiamento europeu e nacional, tipicamente mais generoso e mais bem coordenado para áreas metropolitanas do que para comunidades intermunicipais dispersas, algo decisivo com o próximo quadro comunitário pós-2030 à porta. A quarta é o planeamento conjunto em habitação, ordenamento do território, proteção civil, cultura e ambiente – exatamente as áreas em que Ricardo Araújo identifica os maiores desafios para atrair e fixar população jovem em Guimarães.
A AMM reconhece o que já existe
O argumento a favor da Área Metropolitana do Minho não se esgota numa única dimensão – é precisamente por fazer sentido em várias frentes ao mesmo tempo que este projeto ganhou o consenso alargado que hoje tem.
A nível económico, o Minho é já uma das regiões mais industrializadas e exportadoras do país, com um tecido empresarial internacionalizado, polos universitários de referência e centros de investigação relevantes. O que falta não é capacidade produtiva, é capacidade de coordenação: uma estrutura metropolitana permite negociar em bloco o acesso a fundos europeus e nacionais, atrair investimento estruturante e evitar a duplicação de esforços entre municípios que hoje competem entre si por verbas e investidores que, na prática, servem o mesmo mercado de trabalho e a mesma cadeia de fornecedores.
A nível social, a vida das pessoas já é metropolitana, mesmo que a administração não o seja. Milhares de vimaranenses trabalham, estudam ou recorrem a serviços de saúde e de ensino superior em Braga todos os dias, e o inverso também é verdade. Uma AMM permite pensar em conjunto políticas de habitação acessível, de transportes públicos integrados e de fixação de população jovem – exatamente as prioridades que Ricardo Araújo tem identificado como decisivas para que Guimarães “tenha mais gente, tenha mais jovens”. Sem coordenação regional, cada município tende a competir isoladamente por estes recursos, em vez de os multiplicar em conjunto.
“Um território de quase um milhão de habitantes tem uma capacidade negocial junto do Governo, da Assembleia da República e das instituições europeias que nenhum concelho isolado pode replicar.”
A nível político, a vantagem é de escala e de voz. Um território de quase um milhão de habitantes tem uma capacidade negocial junto do Governo, da Assembleia da República e das instituições europeias que nenhum concelho isolado pode replicar. É essa a lógica que move tanto os autarcas de Braga e Guimarães como a Iniciativa Liberal, que vê nesta reorganização uma aplicação do princípio da subsidiariedade: decisões sobre mobilidade, ordenamento do território ou proteção civil devem ser tomadas por quem conhece o território, e não impostas de forma uniforme a partir de Lisboa.
Um dos argumentos mais fortes a favor da AMM é que ela não nasce do nada: vem coroar quase duas décadas de cooperação intermunicipal cada vez mais estreita no Minho. Em 2008, Braga, Guimarães, Vila Nova de Famalicão e Barcelos fundaram a Associação Quadrilátero Urbano, com o objetivo de afirmar a região como a terceira grande concentração urbana e de conhecimento do país. Em 2015, os quatro municípios relançaram essa parceria através de um Pacto para a Competitividade e Inovação, alargando-a a agentes do território como a Universidade do Minho, a Associação Industrial do Minho e o CITEVE, e transformando o Quadrilátero numa “estrutura do território” com duração indeterminada, e já não apenas numa associação de conveniência entre câmaras. Em setembro de 2025, o Quadrilátero deu um novo passo e tornou-se Pentágono Urbano, com a adesão formal de Viana do Castelo – um território que junta cinco dos vinte concelhos mais exportadores do país e que representa cerca de 10% das exportações nacionais.
Esta cooperação já não fica no papel. Guimarães e Braga têm protocolos assinados para a articulação técnica dos seus sistemas de BRT (metrobus), com o objetivo de tornar mais fluida a ligação entre as duas cidades. A Comunidade Intermunicipal do Cávado e a Comunidade Intermunicipal do Ave estão a preparar um concurso conjunto para a concessão do transporte público rodoviário nos dois territórios. E os presidentes de câmara do Pentágono já promovem, há vários meses, encontros e estudos técnicos conjuntos sobre o futuro da região, dos quais a conferência “Olhar o futuro a partir do Pentágono Urbano do Minho”, na Reitoria da Universidade do Minho, é apenas o exemplo mais recente.
A nível territorial e ambiental, faz igualmente sentido: problemas como o ordenamento do território, a gestão da água, a proteção civil ou as alterações climáticas não respeitam fronteiras administrativas e exigem planeamento a uma escala superior à do concelho. Uma AMM permite tratar estas questões de forma integrada, em vez de soluções fragmentadas e por vezes contraditórias entre municípios vizinhos.
A nível cultural, por fim, o Minho tem uma identidade própria, forjada ao longo de séculos, que hoje se dispersa por câmaras e comunidades intermunicipais distintas. Guimarães, berço da nacionalidade e Capital Europeia da Cultura, do Desporto e Verde, tem tudo a ganhar em ancorar essa identidade regional a uma estrutura política que a projete com mais força – em vez de a deixar diluída entre várias entidades administrativas sem visão de conjunto.
Dito de outro modo: a Área Metropolitana do Minho não é apenas uma reforma administrativa. É o reconhecimento tardio de uma realidade que já existe na economia, na vida social, na cultura e no território – e que só não existe, ainda, na forma como é governada.
O que distingue o Minho de Lisboa e do Porto
Portugal tem hoje apenas duas áreas metropolitanas: a de Lisboa, com cerca de 2,8 milhões de habitantes, e a do Porto, com cerca de 1,8 milhões. Ambas foram criadas na década de 1960 e assentam num modelo clássico de “centro-periferia”, em que a densidade de emprego e de serviços se concentra na cidade-sede e diminui progressivamente à medida que se afasta dela. A Área Metropolitana do Minho nasceria diferente – e é nessa diferença que reside grande parte do seu potencial.
Em primeiro lugar, o modelo territorial não é monocêntrico, mas policêntrico. Em vez de uma única cidade a dominar todas as funções metropolitanas, o Minho organiza-se em torno do chamado “Pentágono Urbano” – Braga, Guimarães, Barcelos, Vila Nova de Famalicão e Viana do Castelo -, cidades de dimensão intermédia com identidade e funções próprias, que cooperam em rede em vez de gravitarem todas em torno de um único centro. É um desenho mais equilibrado do que o de Lisboa ou do Porto, e mais difícil de capturar por uma única cidade-sede.
Em segundo lugar, há a vantagem de nascer depois e poder aprender com os erros dos modelos anteriores. As áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto arrastam, há décadas, críticas sobre pesadas estruturas burocráticas, com fracos poderes executivos face à sua dimensão. A AMM tem a oportunidade de nascer com um desenho mais leve, “participado, transparente e que respeite a autonomia dos municípios”, como já defendeu o Correio do Minho em editorial sobre o tema – uma rede de cooperação que multiplica capacidades sem lhes retirar soberania, em vez de mais uma camada de burocracia sobreposta às câmaras.
Em terceiro lugar, a base económica é distinta. Enquanto a AML e a AMP assentam sobretudo num modelo dominado pelo setor terciário e de serviços, o Minho tem uma economia de matriz industrial e exportadora, com um dos tecidos empresariais mais internacionalizados do país. Uma estrutura metropolitana talhada para este perfil produtivo – e não copiada de um molde pensado para uma capital de serviços – têm mais probabilidade de responder às necessidades reais da região.
Por fim, há uma questão de equilíbrio nacional. Hoje, Lisboa e Porto concentram uma fatia desproporcional da população, do investimento e da atenção política do país. Uma terceira área metropolitana, com escala e voz próprias, não retira nada a Lisboa ou ao Porto – mas obriga o Estado central a olhar para o território de forma menos bipolar, reforçando a coesão nacional em vez de a enfraquecer. É essa a ambição que o Correio do Minho resumiu ao defender que a região “tem a escala demográfica, o dinamismo económico e a massa crítica para se afirmar como o terceiro pólo metropolitano do país, ao lado de Lisboa e Porto”.
Conclusão
A criação da Área Metropolitana do Minho é uma oportunidade histórica, e Guimarães está, finalmente, do lado certo dela. Depois de anos de bloqueio, o concelho tem agora a oportunidade de entrar neste projeto como parceiro fundador, ao lado de Braga, e não como retardatário a reboque de uma decisão tomada por outros. É essa a posição que serve melhor os interesses dos vimaranenses: participar, moldar e liderar, em vez de continuar a “prometer, prometer, prometer”, como bem resumiu João Rodrigues. O Minho já existe enquanto realidade económica e social – falta-lhe apenas a estrutura política à altura dessa dimensão. Guimarães deve ser aqui protagonista e ajudar a construí-la.
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