Uma cidade revela-se na forma como trata as suas crianças. Não nas campanhas educativas, nem nos cartazes coloridos, mas no chão que elas pisam, nas ruas que atravessam, no medo – ou na ausência dele – com que se deslocam entre casa e escola.

O trajeto até à escola da minha filha tem pouco mais de um quilómetro. É curto, central, quotidiano. Não é uma travessia extraordinária nem uma aventura urbana. É o tipo de percurso que, numa cidade desenhada à escala humana, poderia ser feito por uma criança sozinha, ou com amigos, ou em pequenos grupos de bicicleta. Um percurso que deveria ensinar autonomia, não prudência excessiva.
Por exemplo, há um ponto desse trajeto que concentra o problema. Após a curva junto à base do INEM, na estrada nacional que liga Silvares e Creixomil ao centro, o passeio existe apenas de um dos lados. E mesmo esse é estreito, irregular, incapaz de acomodar duas pessoas com segurança. A passagem de uma cadeira de rodas obrigaria um peão a descer do passeio. Quando passa um autocarro ou um camião, a poucos centímetros, o corpo encolhe instintivamente. A proximidade do metal em movimento transforma um gesto banal – caminhar – numa experiência tensa. Uma distração, um tropeço, um desequilíbrio, e as consequências podem ser graves.

Para um adulto, é um troço desconfortável. Para uma criança, é um território hostil. E para quem imagina ali um percurso de aprendizagem de bicicleta, torna-se praticamente impensável. Não por falta de vontade, nem por falta de capacete, nem por ausência de campanhas de sensibilização. Mas porque o espaço não foi desenhado para corpos pequenos, inseguros, ainda em processo de descoberta do equilíbrio.
Ontem, a minha filha mostrou-me com orgulho o cartão de ‘Ciclista Urbano’ que recebeu após fazer na escola um curso – teórico – de ciclismo. Guardou-o como quem recebe uma licença para explorar a cidade. Mas a pergunta impôs-se de imediato: quando poderá pô-lo em prática?
Este é um teste simples para qualquer cidade: se as crianças não conseguem circular com autonomia, então o espaço público não está a funcionar. Não é preciso recorrer a grandes indicadores nem a relatórios técnicos. Basta observar se os mais novos podem ir sozinhos à escola, ao parque, à casa de um amigo. Se isso não acontece, algo de fundamental falhou.

Quando as ruas são dominadas por veículos rápidos, quando os passeios se tornam estreitos ou interrompidos, quando as travessias são perigosas ou mal iluminadas, a cidade não proíbe formalmente a autonomia das crianças. Mas retira-lhe as condições de possibilidade. E os adultos, com razão, adaptam-se. Passam a levar os filhos de carro. Organizam percursos mais longos e mais complexos. Trocam a proximidade pela proteção.
Esse gesto, repetido todos os dias por milhares de famílias, tem efeitos cumulativos. Mais carros junto às escolas, mais trânsito nas horas de ponta, mais poluição, mais risco. A solução individual transforma-se em problema coletivo. E o espaço urbano, em vez de libertar tempo e energia, passa a consumi-los.
“Uma cidade pensada para veículos grandes, rápidos e pesados não é apenas uma cidade poluente. É uma cidade que expulsa os corpos mais lentos, mais frágeis, menos previsíveis.”
Fala-se muitas vezes de mobilidade sustentável como uma questão tecnológica ou comportamental. Mas antes disso, é uma questão de escala. Uma cidade pensada para veículos grandes, rápidos e pesados não é apenas uma cidade poluente. É uma cidade que expulsa os corpos mais lentos, mais frágeis, menos previsíveis. Entre eles, as crianças.
Quando o espaço público deixa de ser habitável por quem tem menos força e menos velocidade, deixa de ser verdadeiramente público. Torna-se um território regulado pela potência, não pela convivência. E isso tem consequências que vão além da mobilidade: afeta a confiança, a autonomia, a própria experiência de crescer na cidade.
Uma cidade onde as crianças podem caminhar ou pedalar sozinhas é, quase sempre, uma cidade melhor para todos. Mais calma, mais próxima, mais justa. Uma cidade onde isso é impensável revela, sem rodeios, quais foram as suas prioridades.
Porque, no fundo, a pergunta é simples: se não é seguro para uma criança, para quem é que a cidade está a funcionar?
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