Um povo livre, mas a que preço?

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Sempre acreditei que a Venezuela merecia mais. Sempre acreditei que aquele regime não podia durar para sempre. Por isso, quando vejo a queda de Nicolás Maduro, o primeiro sentimento que me surge não é cinismo nem indiferença. É esperança.

Esperança por um povo que sofreu demasiado. Esperança por milhões de venezuelanos que viveram anos sem liberdade, sem futuro, sem escolhas reais. É impossível não sentir algum alívio ao ver um ditador cair.

Mas essa esperança vem acompanhada de um incómodo profundo – e de muitas perguntas. A que preço?

A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela cria um precedente internacional perigoso. Não porque Maduro merecesse continuar no poder – não merecia. Mas porque a invasão de um país soberano, sem um mandato claro das Nações Unidas e fora de qualquer tribunal internacional, fragiliza um princípio essencial: o de que a força não substitui o direito.

E aqui surge uma pergunta inevitável: Qual é, afinal, a diferença de princípio entre esta ação e outras invasões que hoje condenamos?

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o mundo, e bem, falou de uma violação da soberania, de uma agressão, de um direito internacional rasgado. Se amanhã a China decidir “resolver” a questão de Taiwan pela força, estaremos em entusiasmo ou em condenação?

Se a resposta muda consoante quem dispara os mísseis, então deixámos de defender princípios e passámos a defender conveniências.

A invasão de um país por outro é sempre condenável. Não há exceções confortáveis. Não há “bons invasores”. O problema não é apenas quem é derrubado – é como isso é feito.

“Ao agirem unilateralmente, comportam-se como se fossem donos e senhores do mundo – juízes, polícia e executores.”

Também não consigo ignorar a perda de autoridade moral dos EUA nesta ação. Ao agirem unilateralmente, comportam-se como se fossem donos e senhores do mundo – juízes, polícia e executores. Isso não fortalece a causa da democracia; enfraquece-a.

Reconheço, ainda assim, uma realidade incómoda: sem intervenção externa, a queda do regime chavista seria extremamente difícil. Talvez improvável. Talvez distante. E sei que, no imediato, muitos venezuelanos vão sentir alívio. Vão sentir que algo finalmente mudou. E isso é humano.

Mas é precisamente por isso que a pergunta mais importante não é sobre hoje – é sobre amanhã. Quem vai assumir o poder? Com que legitimidade? Em nome de quem?

O risco de um vazio de poder ou de um governo imposto a partir de fora é real. E a história mostra-nos que democracias não se constroem por decreto estrangeiro. Constroem-se com instituições, com legitimidade interna, com escolhas livres – mesmo quando essas escolhas são difíceis.

Se a ação acabar por penalizar ainda mais os direitos humanos, então será pior a emenda que o soneto. Alguém pode me dizer: “Mas agora os venezuelanos vão ser livres.”

E eu respondo sem hesitar: essa é a melhor notícia – e é fundamental que continuem livres por muito tempo. Não apenas hoje, não apenas enquanto houver proteção externa, mas quando tiverem o controlo do seu próprio destino.

É aqui que reside a minha maior dúvida – e a minha maior exigência. Porque acredito numa coisa simples, mas essencial: Liberdade imposta deixa de ser Liberdade.

E é por isso que deixo a pergunta final, que não é retórica nem cómoda: se aceitarmos a invasão de um país quando concordamos com o alvo, que autoridade moral teremos para a condenar quando for contra quem simpatizamos?

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