24 de junho versus 1 de dezembro – o desafio dos feriados

Data:

O programa de comemoração dos 900 anos da batalha de S. Mamede deve ter como principal finalidade a afirmação pela Assembleia da República da coincidência histórica e cronológica entre a batalha de S. Mamede e a Independência de Portugal, porque, ao tomar sobre si a tarefa de comemorar os 900 anos da batalha de S. Mamede, a cidade de Guimarães não pode perder a oportunidade de ver definitivamente assentes no âmbito da historiografia nacional as circunstâncias de tempo e modo do nascimento de Portugal, que é como quem diz, o dia em que Portugal se constituiu como Estado Independente.

É um dado incontroverso da experiência que as datas do nascimento e da morte de qualquer sujeito fazem parte da sua identidade! Por isso, também Portugal precisa de eleger uma data que assinale o seu dia de nascimento como Estado independente e encerrar a polémica instalada sobre esta matéria. E só depois de resolvida este diferendo historiográfico se poderá avançar para a elevação do dia 24 de junho a feriado nacional.

“É que, como se sabe, a criação de novos feriados nacionais provoca constrangimentos económicos, políticos e sociais que devem ser evitados.”

No entanto, sem postergar este objetivo reclamado pelos políticos vimaranenses desde o antigo regime, entende-se que, por razões estratégicas óbvias, a Cidade de Guimarães não deve focar o alvo do seu discurso e ação na elevação do dia 24 de junho à categoria de feriado nacional, sem apontar o feriado nacional vigente a remover do calendário. É que, como se sabe, a criação de novos feriados nacionais provoca constrangimentos económicos, políticos e sociais que devem ser evitados. Ora, aquele feriado que muita gente tem colocado no alvo da eliminação é o dia 10 de junho. Porém, por estar umbilicalmente ligado ao movimento republicano português do séc. XIX e por ter sido mantido como Dia de Portugal pelos governantes do período democrático – apesar de ter sido aproveitado pelo regime autoritário, corporativo e nacionalista de Salazar para simbolizar a raça – a sua eliminação não se antevê tarefa fácil!

Qual será, então, o feriado a descartar do calendário festivo nacional para dar lugar ao 24 de junho?

Com a crise dinástica aberta em consequência da morte de D. Sebastião em agosto de 1578, e após a morte do Conde D. Henrique, Filipe II de Espanha reclamou o trono português e foi aclamado rei nas Cortes de Tomar, dando início a uma união pessoal que durou até 1640, ou seja, a uma monarquia dualista onde Portugal e Espanha partilhavam o mesmo rei (Filipe II e seus sucessores), mas mantinham as suas próprias leis, costumes, moedas e instituições.

Com efeito, a união pessoal combina Estados sob o mesmo monarca, mas cada Estado mantém sua legislação, leis e interesses distintos, podendo ser facilmente desfeita, como aconteceu com Portugal e Espanha sob o reinado dos Filipes. Já a união real é uma forma mais profunda de união, onde os Estados perdem a sua personalidade jurídica internacional e formam uma única entidade estatal, com órgãos comuns e legislação compartilhada, criando um novo Estado sem soberania individual, como a União entre Inglaterra e Escócia que levou à formação da Grã-Bretanha. 

Por conseguinte, como a independência de Portugal nunca foi perdida, não faz sentido comemorar com um feriado nacional a sua “restauração” no dia 1 de dezembro, e olvidar o dia em que a mesma foi efetivamente adquirida, há quase 900 anos!

© 2025 Guimarães, agora!


Partilhe a sua opinião nos comentários em baixo!

Siga-nos no FacebookTwitter e Instagram!
Quer falar connosco? Envie um email para geral@guimaraesagora.pt.

Partilhe este Artigo:

Subscreva Newsletter:

PUBLICIDADE • CONTINUE A LER

Últimas Notícias:

Relacionadas:
Notícias

A polémica dos 900 anos da Fundação de Portugal

1. A controvérsia em torno das celebrações dos 900...

Como manter a pele hidratada

A ingestão adequada de água é essencial para a...

A mão da Inteligência Artificial (IA), no mundo da Fisioterapia

Alan Turing, um matemático Britânico, que em 1936 decidiu...

Fraude dada como provada, arguidos livres. Como?

Aconteceu aqui ao lado, em Vila do Conde, e...