Quando o microscópico pode salvar vidas: novas microagulhas contra o cancro da pele

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Nem todas as revoluções científicas são visíveis. Algumas acontecem à escala do invisível – e é precisamente aí que uma equipa da Universidade de Aveiro está a abrir novas possibilidades no tratamento de doenças cutâneas.

Os investigadores desenvolveram um dispositivo composto por microagulhas cerâmicas com propriedades magnéticas, concebido para ser aplicado diretamente sobre a pele. Este sistema permite intervir de forma localizada, atuando sobretudo em lesões superficiais, como as associadas ao cancro da pele.

O princípio de funcionamento assenta na chamada hipertermia: um aumento controlado da temperatura no local da lesão. Quando expostas a um campo magnético externo, as microagulhas aquecem e atingem valores suficientes para eliminar células malignas, preservando os tecidos saudáveis em redor. Este equilíbrio entre eficácia e seletividade é um dos aspetos mais promissores da abordagem.

Mas o potencial desta tecnologia não se limita ao efeito térmico. O dispositivo funciona também como plataforma de administração de fármacos, permitindo libertar substâncias terapêuticas – como agentes quimioterapêuticos ou imunoterapêuticos – diretamente na área afetada. Esta entrega localizada pode reduzir doses necessárias e minimizar efeitos secundários, um dos grandes desafios da oncologia contemporânea.

Campus da Universidade de Aveiro. © Direitos Reservados

Outro elemento distintivo é a sua estrutura flexível, capaz de se adaptar à superfície do corpo humano. Esta característica garante uma aplicação estável e prolongada, que pode variar entre algumas horas e vários dias, aumentando a eficácia do tratamento sem comprometer o conforto do doente.

Ao evitar, em muitos casos, a necessidade de intervenção cirúrgica, esta tecnologia posiciona-se como uma alternativa menos invasiva e potencialmente mais acessível. Ao mesmo tempo, insere-se numa tendência mais ampla da medicina: terapias cada vez mais dirigidas, personalizadas e baseadas em engenharia de precisão.

O que aqui se revela é mais do que um novo dispositivo – é um exemplo claro de como a ciência dos materiais, a física e a medicina podem convergir para criar soluções com impacto direto na vida humana.

Obviamente ainda é preciso percorrer um longo caminho até à validação total e disponibilidade para os doentes.

Ainda assim esta investigação é um bom exemplo de como é nas estruturas mais pequenas que nascem as maiores mudanças – e é aí que a ciência continua a iluminar o futuro.

Luís Monteiro (Médico e Comunicador de Ciência).

© APImprensa

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