José Eduardo Guimarães
Da imprensa local (Notícias de Guimarães, Toural e Expresso do Ave), à regional (Correio do Minho), da desportiva (Off-Side, O Jogo) à nacional (Público, ANOP e Lusa), do jornal à agência, sempre com a mesma vontade de contar histórias, ouvir pessoas, escrever e fotografar, numa paixão infindável pelo jornalismo, de qualidade (que dá mais trabalho), eis o resultado de um percurso também como director mas sempre com o mesmo espírito de jornalista… 30 anos de jornalismo que falam por si!

Contra Guimarães marchar, marchar!

Quando frequentava a minha “Universidade” (Escola Industrial e Comercial de Guimarães), muitos jogadores do Vitória faziam o seu percurso, a pé, até à Amorosa e ao ex-Municipal, em toda a extensão da hoje avenida Alfredo Pimenta. Silva, Vieira, Osvaldinho, Daniel passavam por ali, em frente à escola. Tal como Joaquim Jorge, Bilhó, Manafá entre outros “negrinhos”, para usar uma expressão querida e simpática. Eram admirados e reconhecidos como tal, recebendo cumprimentos das pessoas, sem que estas vissem na cor da pele dos seus heróis qualquer diferença. Fiz com eles, essa pequena viajem, no intervalo das aulas.

Mais tarde, o nigeriano Isima, já no tempo de Goethals, que morava na Quinta, tinha por hábito correr pelas imediações, em horas não coincidentes com os treinos, num esforço extra, ao jeito do que faz Cristiano Ronaldo. Para recuar aos anos 60, muitos jogadores do Vitória também frequentavam locais fora da cidade, ligados à restauração. Eram vistos pelas freguesias. Mário Wilson, quando treinador do Vitória, morava nas Cancelas da Veiga, em Azurém, com a sua família. Isto prova que Guimarães foi sempre acolhedora para os jogadores de futebol, independente da sua nacionalidade, cor ou crença religiosa. E dentro e fora dos campos de futebol.

Mundinho é hoje funcionário municipal por ser recepcionista no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. Também temos empresários de cor, como Marcelino da Rosa, também casado com uma portuguesa branca. Em Guimarães, o racismo é uma pura fantasia e esperemos que não seja agora motivo para uma caça às bruxas. E se tivermos em conta que o racismo é algo assumido e consumido, tem marcas profundas e raízes fortes, é algo que estupidamente se pratica, por convicção ou por oposição e opressão, então Guimarães fica mesmo fora desta marca de discriminação racial.

Dizer que um qualquer incidente, entre brancos e negros, na cidade ou na aldeia, num campo de futebol, também, é sinal de racismo e não um conflito social, como tantos outros, leva a que, por essa oposição, brancos e pretos se entrincheirem em guetos, o que nunca se viu em Guimarães. Os sacrosantos comentadores das nossas queridas televisões que se dedicam a julgar, todas as semanas, a nossa realidade social e desportiva, só mostram impreparação para compreenderam determinados fenómenos que são da esfera social e que acontecem porque a sociedade é humana e tem defeitos e algumas virtudes. Mas é uma sociedade desigual, que apela e força alguns comportamentos radicais. O que eu senti, da reacção dos adeptos vitorianos à provocação de Marega, não tem nada de racista. É apenas, mais um acto, entre um jogador que puxou pelo pior instinto dos amantes do futebol, sempre ciosos de que no seu estádio não se tolera qualquer extrovertida actuação do adversário. E mesmo qualquer provocação.

“Ir mais além disto, é ignorar quanto o futebol português vive da diferença entre clubes grandes e pequenos e clubes assim-assim. É esconder que a glória de alguns se faz à custa de outros…”

Ir mais além disto, é ignorar quanto o futebol português vive da diferença entre clubes grandes e pequenos e clubes assim-assim. É esconder que a glória de alguns se faz à custa de outros, a quem não são reconhecidos os mesmos direitos, de jogar e ganhar, aceitando-se que só ganhem os clubes da capital e das metrópoles portuguesas. Nós, não precisamos de invocar a história, a nossa e a do nosso país – apesar de os de Braga e os da Académica de Coimbra, nos apelidarem de espanhóis – nos campos de futebol – epíteto no qual podemos ver uma forma de racismo territorial, social e geográfico e até desportivo. Porque não? Já se sabe que Guimarães não é um território de extremos, cujo bairrismo ainda respira, e o VSC é o seu clube mais representativo, com todo o respeito que o Moreirense nos merece, com uns adeptos com enorme paixão que vincam o seu amor ao clube, nem sempre da forma mais correcta e a quem tem de se explicar que o amor ao clube não pode justificar tudo, incluindo prejudicá-lo com actos que sabem terão consequências financeiras – as multas – e desportivas – as sanções de interdição de campo.

Vamos ver que sanções nos preparam as entidades do futebol pressionadas que estão por iniciar em Guimarães e no VSC uma cruzada sem precedentes contra o racismo no futebol, deixando de fora a violência que é mais grave. Lamento sinceramente que muitos vimaranenses e vitorianos – alguns de ocasião – se tenham escondido na defesa do clube e da cidade, temendo defender, com firmeza, uma verdade única a de que o racismo não mora aqui.

© 2020 Guimarães, agora!

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