
Há dias em que o universo inteiro parece estar do nosso lado – e, mesmo assim, conseguimos perder. Não é má sorte. É talento. Um dom raro: desperdiçar alinhamentos cósmicos com a mestria de quem rasga bilhetes premiados por engano.
Acordamos com a cabeça cheia de possibilidades, a agenda livre de drama, a conta bancária… tolerável. O mundo sorri. E nós? Pedimos mais cinco minutos – como se o tempo esperasse por nós.
Há quem acredite que bastava uma faísca para mudar tudo. Um clique. Um sopro. Um clarão breve, mas certeiro.
A verdade? Há quem, nem com holofotes espirituais cravados nos olhos, encontre o interruptor. Tropeçam em epifanias como quem tropeça no tapete da sala. Escorregam em revelações. Bloqueiam-se a meio da própria jornada – como se estivessem num labirinto construído por si mesmos.
Acordar para a vida não é só abrir os olhos. É ter vontade de os usar. E, por vezes, mesmo com tudo alinhado – astrologia, logística, meteorologia emocional -, não há luz cá dentro. Só um nevoeiro denso entre as orelhas. A alma está presente, mas com sono. A motivação está de baixa. E a criatividade? Está numa espreguiçadeira, de cocktail na mão, à espera de melhores dias.
“Faça-se luz!”, pensamos – ou melhor, murmuramos mentalmente, em tom de desespero passivo-agressivo, enquanto o cérebro opera em modo poupança de energia. Mas a lâmpada não acende. Ou pisca. Ou explode.
A luz de que falo não vem do interruptor, nem do céu limpo. É a luz interior – aquela que nos obriga a imaginar, a pensar, a criar – mesmo quando tudo nos empurra para a anestesia emocional. É a claridade que nos faz ver sentido num mundo que insiste em ser absurdo.
Não é que falte luz no mundo. O que falta é vontade de a aceitar. Porque a luz incomoda. Acorda. Mostra. Revela. E nós preferimos não ver.
Optamos pela penumbra da rotina, o escuro morno da zona de conforto – onde nada floresce, mas tudo parece familiar. A criatividade atrapalha. A lucidez incomoda. O pensamento – esse herege – obriga à ação.
“Argumentamos como profissionais da fuga, com diplomas em autossabotagem e especialização em adiar a coragem.”
Mesmo quando o universo nos sopra ideias ao ouvido, nos oferece coincidências perfeitas, ou nos atira um amor de surpresa… nós encolhemo-nos. Dizemos que “não é o momento”, ou “não estamos preparados”. Argumentamos como profissionais da fuga, com diplomas em autossabotagem e especialização em adiar a coragem.
E do outro lado, há algo – ou alguém – que insiste.
Chamem-lhe o que quiserem: Deus, intuição, musa, impulso vital, algoritmo cósmico… está sempre a tentar.
Sussurra possibilidades, envia sinais, empurra portas, abre probabilidades, gera mudança… faz tudo. Só não faz por ti.
E nós? Preferimos o trinco emocional. A procrastinação existencial. A segurança do miserável conhecido ao incómodo da possibilidade.
Hoje, não é Deus que te fala. Esse já se cansou de tentar. Está a jogar Sudoku com Buda e Nietzsche à sombra de uma figueira.
Hoje sou eu! A tua consciência. O teu sarcasmo. O interruptor que partiste, mas que insiste em tentar outra vez.
– Faça-se luz! – digo-te, em tom dramático, quase bíblico, e sotaque de Portugal.
Hoje sou essa parte de ti que te agarra pelo colarinho emocional e te diz:
– Já chega de andares às escuras!
Tu não és buraco negro, nem blackout emocional. És luz adormecida.
Eu sou a centelha do imaginar. O clarão que te faz perceber que és mais do que aquilo em que te deixaste tornar! Sou a consciência a acender-se no teu íntimo, e que te indica que é hora de acordar.
Está na hora de começares a ser quem eras antes de te cansares de tentar.
E se não fores tu a acender essa luz – então quem? O Divino? Talvez tenha sido Ele quem te conduziu até aqui. Quem sabe se não foi Ele quem te pôs a ler esta crónica.
Talvez seja este o sinal! Agora, é contigo. E o primeiro passo, meu caro, não é mudar de vida. É simplesmente abrir os olhos.
Sem soneca. Sem desculpas. E com a luz acesa! Sempre.
- Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!
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