Estudo investiga a qualidade das amizades no jardim de infância

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Práticas de participação, qualidade das interações educador-criança e tempo de exposição ao educador, no jardim de infância, estão associados à qualidade das amizades das crianças. Estes são dados de um estudo realizado no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa e recentemente publicado na revista científica ‘Early Childhood Research Quarterly’.

As amizades são geralmente definidas como relações mútuas ou de reciprocidade, importantes para o desenvolvimento humano, ao oferecerem suporte social ao longo da vida. O desenvolvimento das amizades ocorre desde cedo, sendo estas muito importantes para as crianças e constituindo experiências fundamentais para o seu desenvolvimento socioemocional. De facto, durante a infância, as amizades contribuem para o ajustamento a novos ambientes e contextos e ainda para o desenvolvimento de competências sociais. A qualidade das amizades é particularmente importante, por remeter para a forma como as crianças interagem. No jardim de infância, as interações entre as crianças são influenciadas pelo/a educador/a de infância e pela qualidade das suas práticas e das interações que estabelece com as crianças.

De acordo com Nadine Correia, primeira autora deste estudo e professora no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, a literatura existente sugere que “interações educador-criança positivas, de elevada qualidade, e práticas promotoras do direito de participação das crianças, que lhes permitam expressar-se, fazer escolhas e participar na tomada de decisões, estão associadas ao desenvolvimento de amizades caracterizadas por envolvimento positivo e apoio mútuo”. Neste estudo, a equipa de investigação, composta também pelas investigadoras Helena Carvalho (Centro de Investigação e Estudos em Sociologia, CIES-Iscte) e Cecília Aguiar (Centro de Investigação e Intervenção Social, CIS-Iscte), investigou as associações entre as práticas de participação asseguradas pelo/a educador/a, a qualidade das interações e a qualidade das amizades das crianças, no jardim de infância, examinando como esta relação varia em função do número de meses com o/a educador/a de infância.

As práticas de participação envolvem ações e estratégias dos/as educadores/as que visam apoiar o envolvimento ativo, a escolha e a autonomia das crianças (por exemplo através do incentivo à expressão das suas perspetivas e da tomada de decisão conjunta), que tenham em consideração os contributos das crianças e as informem sobre as decisões tomadas. A qualidade das interações educador-criança pode ser analisada em três domínios específicos, envolvendo apoio emocional (e.g., sensibilidade face às características e necessidades das crianças), organização da sala (e.g., regras consistentes e rotinas estruturadas), e apoio ao nível da instrução (e.g., apoio ao desenvolvimento de conceitos, raciocínio e competências linguísticas). A qualidade das amizades descreve a natureza das interações entre pares, caracterizando-se por diferentes níveis de proximidade (afeição mútua, confiança) e por diferentes níveis de conflito (interações negativas, hostis). Finalmente, o tempo de exposição ao/à educador/a pode ser definido com base no número de meses que a criança acumula com o/a educador, remetendo para a estabilidade e para a continuidade da relação e da exposição a práticas e interações específicas.

O estudo realizado contou com a participação de 336 crianças de 58 salas de jardim de infância, da área metropolitana de Lisboa, bem como de 58 educadoras de infância, e implicou a recolha de dados em três momentos distintos, ao longo de um ano letivo, num total de dois anos de recolha. De uma forma geral, os resultados sugerem que o tempo de exposição ao/à educador/a parece estar associado à qualidade das amizades em idade pré-escolar. “Os nossos dados sugerem que as práticas promotoras da participação das crianças e as interações educador-criança de elevada qualidade, quando estáveis ao longo do tempo, parecem ser importantes para a qualidade das amizades entre as crianças, no jardim de infância”, explica Nadine Correia.

“Uma melhor organização da sala estava associada a níveis mais elevados de conflito nas amizades, quando o tempo de exposição à educadora era menor.”

Especificamente, os resultados do estudo revelaram quando as crianças acumulam mais meses com o/a educador/a, as práticas de participação estavam associadas a menores níveis de conflito nas amizades. Ao nível da qualidade das interações, níveis mais elevados de apoio ao nível da instrução estavam associados a maior proximidade nas amizades das crianças, quando estas acumulavam mais meses com o/a educador/a. Para além disso, o tempo de exposição ao/à educador/a moderou a relação negativa entre o apoio emocional e o conflito nas amizades das crianças, o que, de acordo com a investigadora Helena Carvalho, significa que “crianças que acumulam mais meses com educadores que asseguram maior apoio emocional apresentam menos conflitos nas suas amizades”. A organização da sala também estava associada ao envolvimento em conflitos: “Uma melhor organização da sala estava associada a níveis mais elevados de conflito nas amizades, quando o tempo de exposição à educadora era menor. Ficámos surpreendidas por perceber que estas práticas estavam associadas a mais conflito, em situações de menor tempo acumulado com a educadora”, clarifica Cecília Aguiar, salientando a importância da qualidade da interação estabelecida entre a educadora e as crianças.

“Ao nível do apoio instrucional, por exemplo, será importante encorajar o pensamento complexo, modelando a linguagem das crianças e fornecendo feedback contingente e adequado.”

As investigadoras salientam que os efeitos observados são pequenos, alertando para a necessidade de precaução na sua interpretação. Ainda assim, os dados vão ao encontro de resultados prévios da literatura, nomeadamente sobre o efeito positivo combinado da qualidade das práticas e da exposição continuada ao/à educador/a, no desenvolvimento socioemocional das crianças. Por isso mesmo, as implicações práticas para educadores/as e para as políticas educativas são claras: “Em jardim de infância, é importante apoiar a expressão e a participação das crianças, assegurando práticas diárias de elevada qualidade ao nível do apoio emocional, organizacional e instrucional. Ao nível do apoio instrucional, por exemplo, será importante encorajar o pensamento complexo, modelando a linguagem das crianças e fornecendo feedback contingente e adequado. Estas são competências que parecem contribuir para a qualidade das suas amizades”, explica Cecília Aguiar. Para as políticas públicas, as autoras concluem ser relevante “apoiar políticas que reforcem a importância de relações estáveis e duradouras entre educadoras e crianças. Para este efeito, pode ser importante assegurar iniciativas de desenvolvimento profissional contínuo com foco na qualidade das interações e na participação das crianças”.

Pedro Simão Mendes (Comunicação de Ciência – CIS-Iscte).

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