Deus criou o mundo em seis dias – ao sexto, apercebeu-se do erro

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Reza a narrativa que Deus criou o mundo em seis dias…

Uma afirmação que, dita com a naturalidade com que se comenta o tempo ou o trânsito, oculta uma dimensão absurda: seis dias. Um universo inteiro, em menos de uma semana.

Galáxias, mares, átomos, flamingos e leis da física – tudo a sair em série, sem pausas, sem café e sem um único estudo de impacto ambiental. Um milagre? Talvez. Ou então, apenas o maior surto de hiperatividade cósmica jamais registado.

Nos primeiros dias, Deus parece ter funcionado como um arquiteto apaixonado: tudo é entusiasmo, proporção e estética. Luz, água, céu, terra – tudo encaixa como se o divino tivesse um diploma em design escandinavo. Há uma lógica na ordem. Uma cadência. Cada elemento surge como se respeitasse um plano não revelado, mas intuído como perfeito.

E depois, ao sexto dia, como quem já está farto de tanta simetria e quer ver sangue na arena, Deus cria… o Homem. Feito do barro, dizem. À Sua imagem, acrescentam.

Ora, se isto for verdade, restam-nos duas hipóteses: ou Deus tem um sentido de humor devastador, ou sofre de um narcisismo preocupante. Porque o Homem – essa criatura falante, ansiosa, cheia de contradições e com vocação para o disparate – entrou no palco da criação como um erro de casting… e ficou com o papel principal, provavelmente por falta de concorrência. É o único ser que nasce sem saber viver, mas com a firme convicção de que devia mandar em tudo – e ainda exige aplausos.

O Homem surge e, de imediato, começa a questionar. O paraíso estava montado, havia comida, sombra e um contrato de arrendamento com cláusulas razoáveis. E mesmo assim, ele olha para a única árvore interditada e pensa: “Isto é claramente uma provocação”. A serpente nem teve de argumentar – apenas sussurrou o que ele já queria ouvir. O pecado, afinal, não foi original. Foi previsível.

E Deus assistiu. Não interveio. Porque criar é fácil. O difícil é sustentar a criação depois de lhe dar consciência.

“E desde então, cá andamos: a construir cidades onde ninguém se ouve, religiões que se odeiam e guerras que se benzem antes de matar.”

O Homem foi, muito provavelmente, a primeira inteligência artificial do universo – com a diferença de que Deus lhe soprou a alma, mas esqueceu-se de instalar limites. E desde então, cá andamos: a construir cidades onde ninguém se ouve, religiões que se odeiam e guerras que se benzem antes de matar. Criámos a dúvida e chamámos-lhe ciência; criámos a culpa e chamámos-lhe fé.

Ao sétimo dia, Deus descansou. Não por cansaço – por prudência. Porque, ao criar o Homem, compreendeu que, a partir dali, qualquer interferência só agravaria o problema. Retirou-se como um artista desapontado com a própria obra, deixando-nos o livre-arbítrio como presente… e castigo. E nós, com esse dom, temos feito tudo menos usá-lo com juízo. Erguemos templos em nome de um Deus que ignoramos e justificamos injustiças com livros que lemos às metades.

Mas há, ainda assim, algo de sublime nesta tragédia. Algo que, talvez, justifique o erro original. Porque, apesar de tudo, há dias em que o Homem também cria: cria música, cria silêncio, cria um gesto de bondade num lugar estéril.

Há segundos raros, improváveis, em que o caos parece fazer sentido. E nesses instantes – breves, quase clandestinos – a criação encontra redenção. Por um momento fugaz, parece que Deus talvez tenha tido razão ao confiar em nós.

Talvez Deus tenha mesmo criado o mundo em seis dias. Talvez tenha mesmo descansado ao sétimo. Mas esse descanso pode não ter sido indiferença. Pode ter sido esperança. Esperança de que, um dia, mesmo sendo barro, o Homem aprendesse a cuidar em vez de controlar, a compreender em vez de possuir.

E nesse dia – se chegar, quando chegar – Deus talvez regresse. Não para corrigir. Não para julgar. Apenas para sorrir, ao ver que, finalmente, aprendemos a caminhar com o mundo. E não sobre ele.

Chegado esse dia, é provável que a primeira expressão do Criador seja esta: 

“Até que enfim!”.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Oh, por amor de Deus!”. Uma leitura divertida e irónica sobre a vida e os seus pequenos absurdos!

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