Maria Vieira da Silva
Natural de Guimarães - Qualificações académicas: Mestre em Direito da União Europeia pela Escola de Direito da Universidade do Minho e licenciada em Relações Internacionais pela mesma Universidade, onde desenvolve investigação no Centro de Estudos em Direito da União Europeia. - Perfil profissional: Jurista em Direito da União Europeia e consultora em cooperação para o desenvolvimento.

“Vacinar-se é um acto de amor”, mas também pode ser o seu contrário

A Covid não mostrou apenas a face totalitária do Estado, mas também a da hierarquia da Igreja Católica, em particular a do Papa, a sua vontade de limitar a liberdade religiosa, o seu moralismo banal e deriva demagógica e ideológica, o seu desejo de agradar aos meios de comunicação social e ao Espírito do Tempo, mais do que ao Espírito Santo, a sua vontade de transformar em dogmas hipóteses científicas, o seu desprezo pelos cépticos e indecisos.

Tomemos por exemplo, o anátema que lançou contra quem não considera a vacinação “um imperativo moral e ético”, durante uma entrevista ao Canale 5, acusando-os de “negacionistas suicidas”. Em causa não estava apenas a condenação dos cépticos e indecisos, mas também a dos bispos que defendem o dever moral de recusar o uso de vacinas produzidas com células humanas derivadas de abortos, alegando que tais vacinas apenas poderiam ser permitidas sob certas condições específicas, com base num julgamento de consciência, conforme estipula a Igreja Católica no n.º 1782 do Catecismo.

A verdade é que, para Bergoglio (desculpe, mas não consigo chamar-lhe Papa), os fins justificam os meios e o que até ontem era sagrado hoje é ciência. Ele já não prega a mensagem da salvação por meio de – e somente por meio de – Jesus Cristo, mas por meio do inimigo da Igreja de véspera, a ciência, ao ponto de substituir Jesus por um antídoto farmacêutico, e quem não dobrar os joelhos diante deste deus é ostracizado e apontado como inimigo da humanidade. Não me lembro de uma condenação tão radical e desonesta de um papa, pelo menos nos últimos setenta anos com recurso a um termo (negação) que, historicamente, identifica aqueles que negam o Holocausto.

Para encontrar uma condenação similar é preciso recuar ao decreto do Papa Pio XII, que excomungou todos os católicos que defendiam abertamente o comunismo. Mas o comunismo foi um regime totalitário e ateísta, que perseguiu crentes e dissidentes e suprimiu a liberdade no corpo e no Gulag. Aqui estamos perante uma condenação à priori contra pessoas que não cometeram nenhum crime, não ofenderam os fiéis nem declararam guerra à Igreja Católica. São apenas pessoas (os chalupas são um caso à parte) que não têm a sua certeza absoluta “no que os médicos dizem para tomar”, até porque há muitos médicos e cientistas convencidos da necessidade de se vacinar, mas também há muitos médicos e cientistas que manifestam dúvidas, tendo em conta a quantidade de questões importantes sem resposta.

E mesmo deixando de lado as questões morais relacionadas com a origem das vacinas, a verdade é que ninguém sabe qual o nível de eficácia e de segurança das vacinas autorizadas. Se se soubesse, aliás, nem sequer estávamos com esta conversa. Eram obrigatórias, ponto. Assim, há quem considere o risco mais do que aceitável face ao benefício prometido e há quem acredite no contrário ou tenha dúvidas, com a mesma legitimidade. Logo, quem decide o que é ético e dá crédito a determinados médicos em detrimento de outros, Bergoglio? Em suma, é a vacina uma questão de fé, uma espécie de Terra Prometida?

Mas o que mais surpreende é o facto de essas acusações terem sido proferidas pelo mesmo Papa que, dois meses antes, aprovou uma Nota da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a moralidade do uso de vacinas antiCovid-19, na qual ficara estipulado que a “vacinação não é, regra geral, uma obrigação moral e que, por isso, deve ser voluntária”.

Mas engana-se quem pensa que se tratou de um episódio isolado. Indicações contraditórias são uma constante no papado de Bergoglio. Não é, por isso, à toa que se intensificam os rumores sobre a sua renúncia. Pensemos, apenas, para não sairmos do tema, no decreto ad-hoc (vade retro no-vax) que aprovou a seguir, ao arrepio da Nota supra e de toda a legislação em vigor, que impõe a vacina obrigatória para todos os residentes e funcionários do Vaticano, que não tomem uma “decisão responsável”. Quem se recusar “sem motivos comprovados de saúde”, o decreto remete para uma lei de 2011 que prevê a perda de salário e “graus variados de consequências que podem levar à demissão”. É preciso perder a própria luz da razão para descer a semelhante nível de desumanidade.

E nem me vou debruçar sobre o conteúdo, altamente questionável do ponto de vista científico, do decreto do Cardeal Bertello. Apenas refiro a parte em que justifica as medidas “em matéria de emergência de saúde pública”, como sendo fundamentais “para que a recuperação global e regenerativa aconteça”. Sim, é isso mesmo que leu: uma espécie de grande salto transhumanista, com uma única vacina. Quer, o leitor, melhor prova de fideísmo acrítico com a tese que defende que as vacinas funcionam, com uma proteção absoluta, ao ponto de levar à regeneração? Nem as farmacêuticas foram tão longe.

Mas isto foi só o começo, porque agora a Igreja Católica é um dos maiores patrocinadores do “Green Pass” (equivalente ao nosso Certificado Digital), e a primeira a negar a comunhão aos fiéis que não o possuem e a tratar os indecisos como se tivessem cometido o pecado mais grave de todo o Catecismo. É cruel.

É, por isso, irónico ver aquele que começou por apelar ao derrube de todos os muros, acabar por erguer um muro gigantesco em torno dos não-vacinados.

É, por isso, irónico ver aquele que começou por apelar ao derrube de todos os muros, acabar por erguer um muro gigantesco em torno dos não-vacinados. “Vacinar-se é um acto de amor”, pois, sim, mas também pode ser o seu contrário.

Repito, porque devemos sempre repetir aos idiotas de má-fé: não estou a dizer que o Papa não se deve pronunciar sobre a vacinação ou que esta não se enquadra no campo da doutrina social da Igreja. Estou a dizer que não cabe ao Papa estabelecer directrizes unívocas de comportamento sobre questões técnico-científicas, que são altamente questionáveis, e muito menos assumir o papel de governante perante o mundo, qual Mary Poppins no trono de Pietro. Ao Papa compete-lhe fornecer orientações religiosas e morais e os grandes critérios da doutrina social da Igreja e depois deixar ao critério de cada um decidir se vacinar-se é um acto de amor ou não.

Dizer que tudo isto é degradante, até para uma agnóstica, é um eufemismo.

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