Tema recorrente nos textos já publicados, o tempo é elemento dito “incontornável” na leitura e na análise da realidade, não numa perspectiva maniqueísta e matemática, não num modo quantificado e balizador de ritmo e cadência, mas como factor que empresta perspectiva a essa mesma realidade, atribuindo-lhe um significado feito presente, um legado feito passado e uma esperança ou antecipação que se faz futuro.
O tempo não é inócuo nem lateral, antes suporte essencial à nossa acção e entendimento das causas e consequências dessa mesma nossa acção.
E se para todos será consensual que o tempo actual é tempo pandémico, tempo aglutinador e agrilhador, tempo securitário e temeroso, não é menos verdade que ele não deixa de ser muitas “outras coisas” porque, no final, a constatação é sempre a mesma: o tempo não pára e, por igual, passa por todos nós.
O último mês foi fértil neste tempo desmultiplicado em muitos tempos e significados e que, ao autor destas palavras, trouxe a palavra saudade à tona e em forma de protagonista. Saudade no seu significado bom de tempo positivo passado, densificado e com forma, conteúdo e aprendizagem, consequência e vivência tão boa que nos deixa… saudade, ou seja, boa memória do tempo passado!
(ao contrário do que, muitas vezes se pensa, esta saudade não traduz vontade e desejo de que o tempo volte atrás e de reviver esses dias e horas. Muitas vezes, longe disso! Apenas traduz o reconhecimento da qualidade desse momento! E o quanto ele significa para quem o sente ou viveu!)
Em encontro fugaz e troca de palavras rápidas e curtas, fui confrontado com o tempo de dez anos atrás e o quanto andaria, andariam muitos de nós, Guimarães andaria, atarefados, afogueados, assoberbados, focalizados, envolvidos no projecto (ainda) da capital europeia da cultura. Estávamos no ano de 2011 e corriamos contra o tempo na construção de um projecto único que a todos entusiasmava e motivava. Não isento de erros e dificuldades, retrocessos e desesperos, é certo! Mas, sem dúvida, focados e determinados, convictos de que o “bom sucesso” só poderia ser o resultado final.
Pensava-se e construía-se a cidade enquanto polis e urbis, numa produção que, ainda hoje, se afigura sem igual e geradora de alguma interrogação de admiração e estupefacção de “como foi possível…”.
E assim, confrontado com este tempo de dez anos atrás, inevitavelmente, a saudade foi reavivada e acarinhada. Como todos os bons tempos merecem ser tratados!
Em encontro que de fugaz nada teve, repetindo-se este encontro diariamente anos a fio… percebo e sou confrontado com a chegada da “reforma” de colega, amigo, cúmplice, pessoa admirada.
Não resistindo ao impulso e imediatismo da pergunta feita surpresa “já?”, a “reforma” do meu amigo e companheiro trouxe à ribalta este tempo lento e quotidiano que passa em silêncio e anonimamente e que, aparentando inesgotável, também um dia tem um fim.
A “reforma” é o culminar deste tempo e é, regra geral, exemplo maior da contradição de sentimentos que a todos invade. Momento que não nos rouba a admiração e a amizade – porque essas dependem exclusivamente de nós – mas que leva conhecimento, informação e experiência acumulada e que, tantas vezes, tão necessária e rica é. De tal forma que à “reforma” deveria seguir-se sei lá o quê, mas qualquer coisa feita de presença e continuidade descomprometida e tendente à transmissão de experiência e conhecimento, de informação e saber. No fundo, de pedagogia e relação informal e livre.
Sei que estes “tempos” fazem parte do tempo. E que o tempo não volta atrás. Mas não deixa de ser bom, e por isso, saudoso, voltar dez anos atrás e relembrar o quanto sorria. Mas não deixa de ser obrigatório fixar o momento de quem abraça um novo contexto de vida e se afasta do seu ambiente profissional. O que, só por isso, já deixa saudades…
Valorizar o tempo vivido resulta na conclusão maior desta diversidade de “tempos”. Aproveitar a sua riqueza é obrigação e oportunidade. Até porque, e no caso, poucos momentos há que se repitam. E quando acontecem, raramente são o que foram…
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