Paulo César Gonçalves
Nasceu em Guimarães, voltado para o Castelo da Fundação, e, até ver, está vivo.

O poder da escolha

Eu confesso que fico sempre abismado com a perspectiva que as pessoas têm em relação à escola. Acho isto tudo muito perverso, porque se criou a ideia de que a escola é uma escada para o futuro, e quem tem boas notas vai ter mais oportunidades. Isso é uma grande tanga.

É uma tanga porque a escola, aquilo que poderia fazer, e isso sim, seria relevante, era preparar as pessoas para o exercício da cidadania, para serem honestas. Claramente não o faz. Tanto é assim que muitas das vezes estou a pensar que as pessoas mais honestas que conheci na minha vida nem sequer tinham grande ou qualquer escolaridade.

Como é que alguém pode dizer que está a preparar outra pessoa para o futuro, quando se limita a dar-lhe informações avulsas.

Ora, como os próprios cursos superiores se tornaram um exercício de vaidade, todo o restante vem a reboque. E essa ideia de que estamos a preparar alguém para o futuro, quando nem sabemos como será o amanhã: como é que alguém pode dizer que está a preparar outra pessoa para o futuro, quando se limita a dar-lhe informações avulsas, dentro de um programa? E fora desse mesmo programa há muito mais informação, que é também conhecimento, que é também qualquer coisa.

E se as pessoas quiserem procurar essa informação têm todo o direito, sem terem de ser conotadas com qualquer tipo de rótulo. Elas têm um conhecimento diferente, ou procuram tipos de conhecimento diferenciados. Portanto, como é que é possível? Isto, a mim, leva-me a crer que a escola tem servido, ultimamente, como instrumento de legitimação de diferenças sociais, uma espécie de darwinismo social retorcido.

Depois, estas coisinhas que se criam, prémios de mérito, que não servem para rigorosamente nada, que são uma ode à vaidade e à vacuidade, que premeiam a reprodução de assimetrias, a mesmice/repetição, a estupidez e a inveja, sem terem em conta causas, origens, etc.

Não se aguenta.

Fui sempre um aluno muito pouco convencional. Mais a partir do 8º ano, mas mesmo antes disso já o era, aqui ou ali. Na escola primária, costumava pedir à Professora Ana para me deixar fazer composições ao meu gosto (no tema). Ela permitiu. Ainda guardo algumas (sobre mamutes, Da Vinci e os inventores dos meios de comunicação).

No 2º ciclo, na João de Meira, discutia com a Professora Fernanda (Falcão) possibilidades de trabalhos, e ela acabava por aceitar as minhas sugestões, com negociações pelo meio. Foi por isso que ambas foram tão importantes para mim: aguçaram-me a curiosidade, ou deixaram-me explaná-la à vontade. Elas compreendiam que trabalho era trabalho, fora ou dentro de um programa.

Na Martins Sarmento, a partir do 8º ano, portanto, foi sempre como eu decidi. O que me interessava, interessava-me, o que não me interessava, não me interessava. Por vezes, aceitavam sugestões alternativas de trabalho, mas na maior parte dos casos não. Tenho ideia de que a minha Professora de Português do 9º ano me deixou criar uma versão alternativa do episódio do Adamastor (de Os Lusíadas). Foi uma risota.

Levei isso para o secundário, e quem aceitasse, aceitava, e quem não aceitasse, não aceitava. Não era falta de brio, como alguns gostam de lhe chamar. Eu não sou obrigado a ter brio em algo que me querem impor.

E depois ainda diziam (à minha Mãe) algo do género:

Ele não aproveita as capacidades que tem.

Mas eu estava a aproveitá-las: a curiosidade, a imaginação, o pensamento crítico, a opinião! Essa gente queria que todos achassem que capacidades é replicar o pensamento dos outros, é reproduzir, quase ipsis verbis, o que vem num ou vários manuais: debitar matéria.

Não, não, não.

O meu foco é o meu foco, e não deixa de ter e exigir trabalho. Tentei fazer o mesmo na Universidade, e algumas vezes consegui, outras não. Mas fiz, sempre, como me apeteceu. Sempre. Chumbei em disciplinas, tirei pontapés de negativas, perdi anos. Nunca estudei para um teste que fosse. Um. Ou exame. Não importava. My way or the highway. E toda a gente tem direito à sua autodeterminação. Insucesso? Insucesso é abdicar de pensar por nós.

Dá muito mais trabalho, dá muitas mais dores de cabeça e obriga-nos a chatices redobradas, mas pelo menos saímos com uma pequena satisfação.

Nada nem ninguém se conseguiu enfiar entre o meu foco, a minha imaginação e a minha curiosidade.

© 2022 Guimarães, agora!


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