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Quinta-feira, Fevereiro 2, 2023
Maria Vieira da Silva
Maria Vieira da Silva
Natural de Guimarães - Qualificações académicas: Mestre em Direito da União Europeia pela Escola de Direito da Universidade do Minho e licenciada em Relações Internacionais pela mesma Universidade, onde desenvolve investigação no Centro de Estudos em Direito da União Europeia. - Perfil profissional: Jurista em Direito da União Europeia e consultora em cooperação para o desenvolvimento.

O Governo do Absurdistão

Desde o início da pandemia que o governo produziu uma miríade de medidas restritivas de combate à pandemia de covid-19 que se revelaram absurdas e absolutamente inúteis, e sem que alguém ousasse dizer que o melhor a fazer seria retirá-las.

Numa altura em que o país bate máximos no número de infecções e de óbitos, o governo dá dois passos atrás, seguindo a máxima absurda de quem faz sempre a mesma coisa e espera obter resultados diferentes.

É o caso das medidas tomadas em Conselho de Ministros Extraordinário do passado dia 31 de Outubro e da proposta de estado de emergência mínimo.

O “Dever cívico de recolhimento domiciliário” já tinha sido aprovado na Resolução do Conselho de Ministros de 30 de Abril de 2020, tendo sido irrelevante para efeitos de contenção da propagação do vírus. Pelo contrário: a maioria das pessoas infectados contraíram o vírus em casa.

Foi isso que nos disse a ministra Marta Temido no dia 2 de Abril, quando afirmou que 33% dos casos de infecção ocorreram na residência (coabitação), 37% em lares, 15% em contexto laboral, 7% em contexto social e 6% em instituições ligadas à prestação de cuidados de saúde.

Algumas semanas depois, a mesma ministra informava que a percentagem de infectados em casa tinha aumentado para 44%, diminuído nos lares para 25% e aumentado em ambiente social para 9%.

No mesmo sentido, a directora da DGS afirmou várias vezes que é “dentro das habitações que se desencadeiam a maior parte dos contágios”.

Esta informação tem sido, aliás, corroborada por várias pesquisas e estudos, dos quais destaco a pesquisa levada a cabo pelo governador Andrew Cuomo, da qual resultou que 66% dos doentes nova-iorquinos tinham sido infectados em casa.

Ora, se é dentro de casa que ocorre a maior transmissão da doença, em nome de quê, se não do Absurdo, nos querem voltar a confinar e limitar a nossa liberdade de circular?

A linha de raciocínio do Governo do Absurdistão parece-nos muito simples: para não ter de assumir a responsabilidade pelo que tem de ser feito para conter o vírus (transportes e SNS), opta por alternar entre confinamento e confinamento parcial até que o vírus tenha a bondade de nos deixar em paz.

Sim, porque, como todos sabemos, desde há centenas de anos, nenhuma epidemia dura indefinidamente. Nessa altura, o 1.º ministro do Governo do Absurdistão, reclamará os créditos pelo segundo “milagre português”.

O Governo do Absurdistão dedica-se a procurar bodes expiatórios, ou seja, cidadãos, e a punir sectores inteiros depois de os ter obrigado a elevados investimentos nos últimos meses para se adaptarem às restrições por ele impostas…

No ínterim, o Governo do Absurdistão dedica-se a procurar bodes expiatórios, ou seja, cidadãos, e a punir sectores inteiros depois de os ter obrigado a elevados investimentos nos últimos meses para se adaptarem às restrições por ele impostas. As normas de segurança são as mesmas para todos, porém, em poucos dias já não bastam: as feiras são proibidas, os estabelecimentos de comércio a retalho e de prestação de serviços têm de encerrar às 22:00; os restaurantes às 22:30, etc. Porquê? Deixam de ser seguros depois dessa hora? É um vírus noctívago? O Governo do Absurdistão não explica.

O grande ausente é sempre o transporte público. Nas grandes cidades, em particular, milhares de pessoas usam todos os dias comboios, metro e autocarros para se deslocarem, não obstante saberem que são um dos pontos nevrálgicos de transmissão do vírus. Para garantir a segurança dos utentes, de acordo com o que está estipulado para outros sectores, são precisas quatro vezes mais carruagens, autocarros, motoristas e maquinistas, mas o que fez o Governo do Absurdistão? Decidiu racionalizar a utilização dos serviços públicos de transportes e decretou pesadas coimas para quem usasse os transportes públicos sem máscara ou viseira (para nós, portanto).

O outro ausente é o SNS. Há cerca de um mês, a ministra da saúde assegurava que tinha “capacidade de se adaptar às necessidades” no combate à pandemia de Covid-19. Semanas depois o SNS está em vias de entrar em colapso? O Governo do Absurdistão teve meses para preparar o SNS para a segunda vaga de contágios, mas pouco ou nada fez, conforme explica aqui o Pedro Pereira.

De acordo com um estudo publicado há dias pelo Centers for Disease Control and Prevention, a taxa de mortalidade com Covid-19, segundo as faixas etárias, são: 0-19 anos: 3 mortes por 100.000 infecções; 20-49 anos: 2 mortes por 10.000 infecções; 50-69 anos: 5 mortes por 1.000 infecções; Mais de 70 anos: 5,4 mortes por 100 infecções.

Os boletins diários da DGS permitem concluir também que a maioria dos óbitos, em Portugal, estão concentrados nas faixas etárias acima dos 70 anos. Nesta sede, o normal seria criar condições e estruturas para proteger este e outros grupos de risco ao invés de confinar os restantes, aumentando, assim, a “densidade populacional” das suas casas. Mas, não. O Governo do Absurdistão está muito ocupado com as medidas que pretende anunciar daqui a um mês.

© 2020 Guimarães, agora!

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