Paulo Branco
Mergulhado mais de duas décadas no urbanismo e arquitectura, acostumou-se a reflectir sobre a organização humana e os seus efeitos em muitos sítios e cidades, alguns Países, e num único planeta que reclama uma mudança profunda de comportamentos. Amante da leitura e da música, acredita (ingenuamente) que o progresso assenta no desenvolvimento cultural e espiritual do indivíduo e das sociedades esperando que um dia o trabalho seja verdadeiramente libertador e a harmonização entre pessoas e o meio artificial e natural constituam a maior fonte de equilíbrio e felicidade.

M(in)istério da Coesão Territorial

Estas serão talvez as linhas mais simples desde que participo nestas páginas; dirijo-me aos leitores, desde Trás-os-Montes, sem a rede de segurança dos livros, ou da net, a que frequentemente recorro. Longe do bulício urbano, redescubro a essencialidade da vida simples; um chilrear de silêncios que parece ocultar segredos inacessíveis aos citadinos mais distraídos das coisas simples – a contemplação dos longínquos montes, o vislumbre de reflexos de um riacho a esgueirar-se entre campos, as abóboras ao sol, as vinhas já usurpadas dos seus frutos, as árvores multicolores, a inesperada descida a uma cave com cebolas encabadas, nozes dispersadas pelo chão, mirrados cachos de uvas penduradas até aos festejos de fim-de-ano… Por vezes, e porque em jovem passei bons tempos no campo, tento lembrar-me da vida de então e ressurgem notas musicais – despertar ao som das rolas, visitar os animais nos seus currais, percorrer os pomares e hortas tingidos com os brilhos de ouro ou prata das estações…

Sei, naturalmente também, dos rigores invernosos, ou da perda de uma colheita aos humores da natureza, ou quão árdua foi a labuta dos que tentaram legar aos seus filhos uma vida longe do estrume, da geada, do frio ou calor cortantes. Esses filhos, que lograram a libertação, não terão hoje o rosto coberto de rugas, ou as mãos gretadas mas encontram-se, qui ça, atrofiados nas engrenagens de uma grande cidade que lhes tolhe os sentidos num quotidiano de tensões que não conhece estações. Não pretendo a elegia ou o elogio da ruralidade! Gosto de cidades, democráticas, acessíveis a todos pelo que apenas esboço uma reflexão sobre um País centralizado que abandonou o interior e os seus campos de sofrimento à sua sorte para empilhar numas poucas poluídas e atrofiadas metrópoles, os que não encontram oportunidades na sua terra de origem e que, em busca de algo melhor, acabam rechaçados para um Eldorado de periferias sem alma.

O campo, o Interior (também com belas cidades), não pode ser apenas o cenário bucólico ou o palco de uma vida dura exposta aos rigores severos do clima; a ruralidade portuguesa é parte insubstituível da plural tradição, da cultura e unidade nacional que empobrecerá se não nos demarcarmos do fenómeno generalizado de uma humanidade que parece embrenhar-se em florestas de betão à procura de um futuro que poderá ser sombrio. A Coesão Territorial é um imperativo! Não só pela necessidade de reequilíbrio da população no espaço geográfico mas também pela coesão económica e melhor repartição dos bens que poderá propiciar. Numa perspectiva que se afigura ambígua, de desertificação ou de cidades hipertensas, é fundamental a mudança do paradigma português e apostar na pluricultura, nas indústrias criativas, promovendo todo um país de oportunidades que muito ganhará na cultura dos seus campos, na exploração planeada das suas florestas e no desenvolvimento racionalizado de todas as suas vilas e cidades. Ah, e na poesia das coisas simples.

© 2019 Guimarães, agora!

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