Álvaro Oliveira
Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” Sou alguém que gosta de descobrir e gosta de se descobrir. E pensar. E refletir. E escrever aquilo que penso e aquilo que reflito.

Daqui por uns anos, como recordarei este ano?

Não sei se alguém já se fez a si esta pergunta, mas se há ano atípico que me lembre até à presente data, é este. Nunca imaginei que me viriam a impor regras de comportamento e até adereços de roupa, como máscara, viseira e luvas. Só de pensar em protocolos de distanciamento, máscaras, descalçar sapatos, cuidados a toda a hora e etc. já me apetece manter-me em casa, em reclusão. Temos que nos ir habituando e temos que saber viver com o “bichinho” por aí à solta, insignificante e invisível.

Mas, nisto como em muito mais cenas nesta vida, é difícil perceber qual a fronteira entre o andar à vontade ou andar à vontadinha. E eu, que não sou muito de me preocupar com fronteiras, só de pensar nestas coisas até parece que perco a vontade de sair de casa ou de fazer visitas. Gostava que o meu filho fosse para a Escola. Não pode. Está fechada. Perguntei-lhe se não tinham saudades dos colegas. Que sim, mas começa a habituar-se a estar com eles por via remota, o que não me parece nada saudável. Enfim… Antes andava na ginástica. Agora está o ginásio fechado e tenho aulas dentro de casa por videochamada.

Antes visitava os meus amigos ou eles me visitavam e íamos jantar fora todos os sábados. Agora nem visitas, nem jantares. Parece que tudo se transformou num passado longínquo. Dói-me tanta restrição, tanta impossibilidade. Salvou-se o facto de ter mais tempo para mim e dar mais de mim aos outros. Li mais. Cozinhei mais. Fui às compras e falava com a senhora da frutaria, do talho, do minimercado e descobri as potencialidades da minha rua, onde há tudo, desde o sapateiro, a costureira, até à escola de línguas orientais. Tudo ali, numa área pequena, como se o Mundo inteiro estivesse ali num hectare, que quase se consegue tudo só esticando a mão, sem sair de casa.

A circunstância do confinamento também permitiu estreitar os laços (dentro do possível) com os vizinhos, com particular acuidade nos séniores, em que verifiquei no painel do condomínio, em que a malta mais nova se prestava a ir fazer as compras e recados aos mais velhos, por forma a que estes evitassem sair de casa. Tive tempo para ajudar os meus pais a trabalharem com as novas tecnologias, nomeadamente, a fazer videochamadas para os netos que não os veriam de outra maneira a não ser por fotos e a usar o Facebook para verem notícias dos outros familiares e amigos. Foi tão bom ajudá-los e sentir que lhes abri um mundo novo.

Salvaram-se, também, os meus passeios de bicicleta, em que vou conhecendo cada vez melhor o concelho de Guimarães e verificando o evoluir das tão prometidas obras que só agora avançam a bom ritmo, é certo, mas com a sensação de que já vêm atrasadas e simultaneamente percetível que o trabalho de “formiguinha” se manteve. E no Mundo? O Mundo parece que renasceu.

“Os seres humanos limitam-se a sobreviver. A Natureza que parecia definhar, revitalizou-se. Os animais voltaram, as cores voltaram…”

Os seres humanos limitam-se a sobreviver. A Natureza que parecia definhar, revitalizou-se. Os animais voltaram, as cores voltaram. As águas nos rios e nos mares estão azuis, da côr do céu. Enfim, longe de querer ser provocador, as consequências deste novo vírus não são todas dramáticas. Neste planeta que nos acolhe, o vírus significa um momento de alívio e um suspiro profundo, que nos obriga de certa forma a refletir para onde vamos, se é este o caminho que queremos seguir.

© 2020 Guimarães, agora!

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