Betina Ruiz
Investigadora, já desenvolveu projetos sobre a Literatura Portuguesa dos séculos XVII e XVIII, a Mexicana do séc. XVII e a Brasileira do séc. XX, professora com mais de 15 anos de experiência, biblioterapeuta dedicada a programas que procuram abranger principalmente leitores idosos e aqueles em alguma situação de vulnerabilidade, autora de textos académicos e ficcionais, pensados e criados ou em parceria com amigos e colegas ou como trabalho individual.

A rua

A rua é também e ainda a que foi cantada por Renato Russo, numa voz grossa inconfundível (Legião Urbana, álbum “Dois”, 1986). Banksy ouve a rua, capta suas conversas e nos devolve flashes, que vai distribuindo nas paredes e nos muros de Londres, Bristol, Boston, Mali…

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Um e outro nos remetem para o alto (Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana), onde vemos, se tivermos olhos para isso, objetos inanimados que nos controlam e ratos gordos e irreverentes (I’m out of bed and dressed – what more do you want?).

Alguns artistas estão fora de casa para saber do vento forte (O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto parece música urbana) e do vento que leva para longe os balões, para saber de quem passa frio e é remediado por uma fogueira, estão ali para ver flores atiradas no lugar de uma granada de mão.

Um e outro observam os passos da polícia, e como não? A brasileira, cúmulo da truculência, a inglesa e até a de Israel – cuja violência, não a urbana, mas a de fronteira, é de facto imperdoável – dão nas vistas.

Para Renato, os agentes vomitam; para Banksy, deveriam estar à altura das personagens dos games, dos filmes, à altura das crianças e até dos emojis (que em algumas imagens dele substituem o rosto do homem em posição de vigília).

Mas Banksy não deseja ter o controlo… Ele consegue chamar a atenção, o resto é connosco.

A conversa de rua poderia ser de igual para igual ou menos gravosa, fosse Banksy o comandante, e então caberia um beijo quente entre homens de farda, um encontro com a Dorothy, de O mágico de Oz, e até uma reprimenda ao Bart Simpson e ao Mario pois, afinal, todo mau feitio será castigado. Mas Banksy não deseja ter o controlo… Ele consegue chamar a atenção, o resto é connosco.

De uma cidade para outra, o chamado se faz ouvir é no espaço urbano, sim. Em Calais, França, um grande London calling em preto e vermelho pode ser lido acima e por sobre um Steve Jobs diferente, mais parecido com o refugiado que ele poderia ter sido; imediatamente faz lembrar o génio da arte urbana e a faixa de punk rock de 1979.

Ontem, no Porto, não resisti e assim que vi as duas palavras de ordem encostei meu telemóvel ao ouvido do meu filho: – É The Clash, é um clássico, tens que ouvir! Pergunto-me, ao pensar na letra da música, se a decadência das ruas aniquila o sujeito ou se ele resiste em outra dimensão.

O que foi colocado no alto, o que choca quem ainda insiste em sentir empatia, o que pede para ser ouvido, o que surpreende pelo à vontade. Não é justo, às vezes nem é bonito, mas são as nossas paisagens. Existem, como escreveu Cesário Verde, para serem vistas e suas gentes examinadas: “E eu, apesar do sol, examinei-a”, pois a rua ainda nos dá, como um presente, uma “visão de artista”, “forças”, “alegria” e “plenitude”, com ou sem aspas.

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantamos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

“Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!”
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

© 2022 Guimarães, agora!


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