Big Bang, a Teoria do Caos e a Sinfonia de Dó Maior

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Ter um filho de um ano é como assistir ao Big Bang, mas dentro da tua própria casa, com um sistema de som Dolby Surround, montado por um técnico de som em LSD. Não há galáxias em formação, há brinquedos com LEDs, botões e intenções claramente hostis. Luzes que piscam com o entusiasmo de um caça da Força Aérea às três da manhã e bonecos que falam em cinco línguas, mas não sabem calar-se numa.

A tua sala, que outrora foi um espaço adulto, é agora uma feira medieval tecnológica, onde cada brinquedo grita por atenção, como um vendedor de farturas com um megafone. Há bonecos que cantam, carros que uivam, pianos que recitam o alfabeto, como se tivessem urgência em alfabetizar uma criança de treze meses, que ainda acha que “mamã” é nome de cidade. E tudo isto sem botão de desligar. Ou com um botão escondido algures no interior do boneco, ao lado da tua sanidade.

Claro que nenhum destes brinquedos é comprado por ti. Tu, que eras um ser racional, defensor do minimalismo educativo e da pedagogia de Maria Montessori. Tu, que achavas que uma colher de pau era um brinquedo estimulante. Ingénuo. Os brinquedos vêm de fora. Vêm dos teus amigos. Dos teus familiares. Dos teus conhecidos. Todos com aquele ar de “é só uma lembrança!”, como quem entrega um pacote de amêndoas a uma criança, quando na verdade acabou de plantar uma bomba sonora de fragmentação sensorial no meio da tua sala.

Nunca ninguém oferece um pau. Nunca ninguém oferece uma caixa de papelão, que todos nós sabemos que iria satisfazer igualmente a criança. Ninguém oferece silêncio!

Oferecem um elefante que dança salsa. Uma galinha com sensores de movimento, que te persegue pela casa a cacarejar em castelhano. Um tambor, com voz de apresentador da SIC Radical em 2003. E, se tiverem mesmo ódio guardado dentro de si, oferecem aquele brinquedo que ativa sempre que te estás a calçar, a deitar o lixo fora, ou – pior – a tentar que o bebé adormeça.

E depois vão-se embora. Sorriem. Tiram uma foto com a criança, dizem “olha que gira esta música”, e evaporam-se para as suas casas adultas, com sofás limpos, objetos de vidro, e um silêncio que já não reconheces. São como traficantes de ruído. Vêm, distribuem o vício, e desaparecem.

Mas tu começas a fazer contas. Começas a montar um plano. Uma lista. Um caderno mental com nomes e datas. Um karma acústico.

Tu vais retribuir. Ai vais.

“A tua amiga ofereceu uma bateria com luzes LED, a piscar ao ritmo do forró? O teu próximo presente será uma corneta interativa, com feedback automático e… vibração.”

O teu primo teve gémeos? Leva com um xilofone eletrónico com delay e eco. A tua cunhada está grávida? Vai receber uma girafa que conta histórias em francês, com sotaque de Toulouse e que não se cala por menos de 40 minutos seguidos. A tua amiga ofereceu uma bateria com luzes LED, a piscar ao ritmo do forró? O teu próximo presente será uma corneta interativa, com feedback automático e… vibração.

É Natal? Levas com uma orquestra inteira de animais falantes. Um zoo musical em estéreo, com direito a caixa de ritmos, beatboxing e sons de floresta tropical de hora a hora. Tudo com pilhas incluídas. E fita cola por cima do botão de desligar, só para garantir que não há misericórdia possível.

Há quem diga que a paternidade te torna uma pessoa melhor. Torna, sim. Torna-te melhor a esconder brinquedos. A simular curto-circuitos. A fazer cara de “não sei o que aconteceu”, enquanto olhas para o corpo inerte do boneco falante que deixou de latir misteriosamente.

Torna-te melhor a planear. A vingar. A retribuir.

Mas depois, estás no sofá, de madrugada, com olheiras de quem já viu a guerra e perdeu para um bebé de plástico chamado Titucho. E o teu filho olha para ti, com aquele sorriso de gengiva pura, abraçado ao boneco que canta a mesma música há 23 minutos. E canta com ele. E tu… ficas mole.

Porque por mais que te doa o tímpano, por mais que o bebé eletrónico berre desalmadamente sempre que alguém lhe aperta a mãozinha ou o pezinho, há ali qualquer coisa – na ternura trapalhona do teu filho a dançar com um boneco de plástico – que te desarma. Que te trava o plano de sabotagem. Que te faz aguentar.

Acabas por ficar ao lado dele, no chão da sala, a cantar o refrão idiota. Em uníssono. Tu, o boneco, e o teu filho.

Os três. Em coro.

E, contra todas as probabilidades… és feliz.

  • Esta crónica é um excerto do livro “Não sei onde está, pergunta à tua mãe!”. Descubra mais histórias cheias de humor e pequenas aventuras do quotidiano!

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